Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita
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domingo, 31 de julho de 2011

Foto[grafia]



Sob o olhar alheio,
me confundo

entremeio
cores em holograma
pixelada

até a raiz dos cabelos

enceno
o teatro do eu,
o magnífico drama
de ser eu

ganho contorno
na bidimensionalidade obturada
respiração comprimida

no diafragma

um feixe,
um feixe de luz
me engoliu

sim,
a minha especularidade
vergonhosamente roubada

por um olho de peixe

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Diário de viagem


A primeira viagem sozinha, a gente nunca esquece. Aqui vai um trecho do meu diário de bordo, no dia da minha chegada em Paris, em 16/01/08:

"Acabei de chegar. Que nem uma maluca, congelando embaixo dos cobertores. Tentando descobrir como farei para visitar os lugares legais.
Cômico. Gastei 70 (setenta!) euros para chegar aqui. Com um 'taxista' que foi ao Rio quando tinha 25 anos.
O hotel é... estreito. Malas são um calvário. O elevador só cabe uma pessoa e o corredor é ridiculamente exíguo.
Tive que esperar para fazer o check in. Bem uma meia-hora.
Me puseram num quarto que tinha gente. Tive então que voltar à recepção e pedir um novo quarto (me sentindo a mais idiota do mundo, aliás, esse sentimento não me abandonou até agora!).
Como se não bastasse, eu tive uma dificuldade oligofrênica e NÃO consegui abrir a porta do quarto. Tive que implorar e gesticular (!!!) para a faxineira/camareira para me ajudar com a chave. Em inglês e francês misturado, você imagine.
Patético. Ainda bem que ela era boa gente.
Não posso evitar, me sinto extremamente mal por não saber francês.

Foi uma chegada tensa. Me sinto
très insegura. Não sei se isso inclusive vai melhorar. O que eu vou fazer, aliás, é algo que eu deveria ter feito há ages ago: me localizar quanto o metrô, ver as estações e as conexões de linha que eu preciso fazer.
Material:
- Mapa de Paris
-Guia do viajante independente
- Bilhetes de trem

Ainda estou em estado de choque.
E nem contei do meu desespero inicial com o banheiro. Então, vamos lá.
Só fui ao banheiro uma vez no vôo, o que foi necessário e suficiente, graças ao fato de eu pouco ter bebido durante a viagem.
Eu já tinha uma noção prévia de que teria que esperar um tanto para fazer o check in no hotel.
Depois de toda a atrapalhação quarto/chave/faxineira/malas-entaladas-no-corredor, eu entrei, tranquei esfuziante a porta e corri para o banheiro - ou pelo menos o que eu achava que seria o banheiro - e me deparei com uma pia (com água quente e fria, sabonetinhos, xampuzinhos), toalhas, chuveiro e... nenhum vaso sanitário.
No auge do meu desespero, eu tentei futucar o aquecedor com a esperança de checar se ele não magicamente poderia se transmutar em uma privada portátil.
Então, conformada, eu me resignei à idéia de que teria de tirar as calças e mijar no chuveiro toda vez que sentisse vontade.
No entanto, eu me dei a liberdade de pensar que seria azar demais no mesmo dia.
Olhei bem o quarto e resolvi abrir como quem não quer nada a porta que a princípio eu julguei se tratar de um closet.
Ali estava. O vaso sanitário.
E eu fui uma pessoa feliz de novo. Muito feliz."

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Me explicaram que do olho do furacão não se escreve, não se dá notícias. Escreve-se, por outro lado, ao lado dos escombros, na paisagem devastada.

sábado, 21 de maio de 2011

Discordâncias elementares




gênero - feminino.
com todas as interrogações que lhe cabem.

grau - excessivo.
do diminutivo ao superlativo, sigo sempre bordejando as zonas fronteiriças entre o ínfimo e o invasivo.

número - divergência absoluta.
certeza precoce de que nunca fui uma,
não me conjugo no singular.
mais de uma. duas ou três?
não.

apenas mais uma. ovelha/loba pacata
no rebanho desgovernado,
a saltar.






Le diable

Uma bela curadoria do escritor Daniel Pellizari (@cabrapreta) em:

http://toutpourlamour.tumblr.com/post/5181122302

quarta-feira, 11 de maio de 2011

ditos e [entre]ouvidos por aí (parte 1)

i- dos olhos meus

cansada e com fome, encerro a minha jornada de quarta-feira no supermercado mais próximo de casa, ávida por um lanche que me enchesse além do estômago, os olhos.
a pressa, sempre maior em mim do que a sofisticação me obriga a ir para o caixa com apenas alguns pãezinhos de sal quentinhos, recém saídos do forno.
a caixa, uma mulher inusitada, jovem e robusta, de cabelos moicanos bem curtos e alguns piercings pendurados no rosto, sorri para mim enquanto pesa os pães transpirando dentro do saco. De repente, me encara com uma atenção inédita e pergunta:

- esses olhos são seus mesmo?

o que responder? me lembrei da chapeuzinho, do lobo e bobices do tipo. pensei em dizer algo espirituoso. achei melhor não.
acabei balbuciando, surpresa:

- sim...? - de quem mais seriam, eu pensei aturdida.

eis que ela os mira mais profundamente ainda e prossegue:

- parecem de gato - e faz uma pausa quase dramática - eles brilham no escuro, sabia?

não, não sabia.
paguei e saí.
com os olhos que nem sabia que tinha.

ii - das metamorfoses diárias

meu tio conta que andando uma vez com meu priminho - uma criança bastante agitada de cinco anos - pelo shopping center de sua cidade, foi de súbito impedido de prosseguir ao perceber que o filho não andava mais ao seu lado.
não era a primeira vez que o perdia de vista, ele contou.
parou e olhou ao redor. lá estava ele. atrás de si, rolando no chão emporcalhado do primeiro piso. e também não era a primeira vez, ele acrescentou.
apreensivo que se tratasse de mais uma birra, ele tentou cortá-la pela raiz, buscando o menino pelo braço, fazendo-o se levantar.
ao que meu primo, resiste e retruca, impaciente:

- peraí, pai. só mais um pouquinho... - é que eu vou me transformar num tigre.

iii- dos acenos distantes

presenciei na semana passada um encontro entre desconhecidos, um homem e uma mulher que há muito não se viam. um quase encontro talvez, pois entre ambos havia a distância uma rua e duas calçadas. e algumas árvores.
o rapaz, bem mais jovem que a moça em questão retribuiu ao aceno simpático dela depois de alguns instantes. como que para justificar talvez a sutil demora ele lhe gritou por sobre os ombros, pois do outro lado da rua ela já se afastava:

- eu quase não te reconheci, hein! - me lembro do exato momento em que pensei que esse comentário poderia tranquilamente invadir as tênues fronteiras do tato social.

quando ele não esperava mais um resposta - e eu tampouco -, já cruzando a esquina, ela acrescenta alto suficiente para que ele e eu ouçamos:

- É, eu sou assim mesmo... uma camaleoa!

presença de espírito, babe. de onde eu venho, é assim que eles chamam.

terça-feira, 10 de maio de 2011

.....inversossimilhança.....

esta noite sonhei com a serpente dourada
que abocanha a própria cauda

no estreito estreitinho
umbigo do sonho, estanco um grito

constato
com os olhos debruçados para dentro
o fiapo devastado de linguagem

que se inclina sobre si mesmo


a única verdade revelada
[não há verdade, Rita]
é a não-dita


o atributo de tudo quanto é verde, verde

em espiral infinita