Desencaixotando Rita

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sexta-feira, 11 de julho de 2014

"invernal"

tenho cultivado entre dedos
enregelados
um desejo mineral
de imobilidade

como têm
as primeiras
rochas calcárias

uma existência
exaustiva
de liquens sobre superfícies
erodidas dia após dia, gota
sobre gota hirsuta

[a consciência
do grão se faz lentamente

impermeável sobre mim]

devasta
paragens

de um verão incompleto
e talha fendas interiores
adormecidas como bestas
uma vez queridas

segunda-feira, 30 de junho de 2014

caranguejos de julho não andam para frente

aceitar a loucura serena,
o magma que brota
da síndrome das pernas inquietas.

[aquilo que não se pode ter, não se pode,
não se pode ter.
o que não tem volta,
e o lugar para onde sempre
se retorna,
tendo jurado nunca mais voltar]

há qualquer coisa de prodigioso
nos dentes trincados,
patas contritas e
nesta decisão vital tomada
em círculos.

sim, os gorgolejos esquivos
não evitam a catástrofe brutal
de uma vida ridícula;
não antecipam, ainda, a tragédia
de se conseguir exatamente
aquilo que se deseja.








sexta-feira, 27 de junho de 2014

a vida submarina das estátuas



se faz
de feixes de luz
em rochas
calcárias

e
ausências infantis
sob vastos
oceanos

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sobre o motivo dos aplicativos de tarefas e produtividade não darem certo comigo

a  tarefa
primordial
do dia
é irisar
os poemas
até a abrandar
a brasa

"a virada do ano chinês"

há quem contabilize
a passagem lenta dos anos
a quatro patas e dentes

[você sabe que sou dessas]

aprendi
que, fracionado pelo calendário lunar,
meu caldeirão de alças de jade
estampa milênios
de copas e espadas no peito - ainda que
um trigrama, um royal flush,
[ou outro trovão insolúvel]
não revolvam o nosso problema.

o fato é que coelhos ao molho pardo
não apetecem
ao apetite de meus morcegos;

e você continua resmungando
outros cardápios, frases azinhavres,
enquanto embalo galos de Chagall
e danço nua com tigres
hindus no ano do metal e do fogo.

me acusará de supersticiosa, percebe,
pois sabe que
consulto, nas primeiras
horas azuis da manhã,
o livro das moedas e varetas
e choro, despetalando tertúlias,
madressilvas,
que encurvam
as tuas escápulas em escarpas,
situando
teus cascos orientais de cavalo
em cordilheiras distantes
tibetanas, emudecendo-me de vez
o som do sobrevoo breve gutural,
que permanecerá bem,
ainda bem,
ainda na minha garganta,
por muitos longos anos.







terça-feira, 10 de junho de 2014

Ritinha Temporal*

[você],
que arrebata vertiginosa
morcegos do incêndio,
figura em espelhos baços,
com a mochila cheia de empáfia
e rimas brancas,
arruinou a minha vida
[por delicadeza].
ainda guardo no armário
seus estilhaços,
seu vestido de raposa,
a trança holandesa
na gaveta.
encaixotei por medo
a nossa criança estrelada
de mãos gretadas
sob a cama, mas eis que
um bater de asas, de repente
a reconstrói
inteira em fragmentos.
ouço o teu caráter difícil
de ciclone litorâneo
encrespando a superfície
dos cílios, a chuva de vento
a sacudir venezianas, abafando
seus gritos
entre os travesseiros.

*dedicado à personagem de José Louzeiro, Ritinha Temporal, que marcou a minha infância com morcegos, e uma estética protogótica audaciosa de uma típica plutoniana.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

ninando o monstro

pequenas amostras suaves
de inferno, preciosos cascos

me embalam
no ritmo da cantilena antiga
[tão minha conhecida]
de atabaques e alambiques
de pinga sintética

a melodia se repete
num crescente, frenesi
que promete fundo, mas
para retornar sempre ao mesmo ponto,

à mesma pausa,
imobilidade mórbida.
para onde jurei nunca mais voltar

um pedido educado:

que ninguém afirme nunca
que a loucura é outra coisa,
senão uma profunda ironia
do retorno, uma inevitabilidade circular
que ignoramos para seguir em frente
e de volta
e de novo.