quinta-feira, 10 de setembro de 2015
"as meninas astrólogas"
as meninas astrólogas não consultam o personare
têm tábuas de esmeralda, efemérides bulindo
embaixo do travesseiro junto com o celular
e o arcano XIX para dar sorte e magnetismo
com o boy e outras magyas do reino dos céus.
descobrem três cabeças arrancadas na hidra
e o diabo da vênus mal aspectada, a lua
fora de curso, a lua fora de curso...
"aquilo que está acima, aquilo que está abaixo"
- as meninas astrólogas sabem o que está
acima dos seus pescocinhos de cisne, conhecem
o tigre embaixo da cama e o que fazer, o que fazer
em caso de súbita despressurização.
as meninas astrólogas mandam selfies explicando
os mudrás para amigas em crise, oferecem
a restauração dos meridianos do corpo, oferecem
sinastrias, mapas combinados e revoluções,
sobretudo revoluções.
a meninas astrólogas se preocupam excessivamente
com a lua fora de curso e o movimento retrógrado
de mercúrio, contam nos dedos os dias que faltam
para dias melhores, contam os dias para a chegada
dos dias e para a virada da lua em touro, com banquetes
e sacrifícios virginais. as meninas astrólogas,
as meninas astrólogas são, na verdade, bacantes
anacrônicas com seus cálices transbordantes e
suas certezas infinitas sobre o infinito do universo.
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
"diário de plutão"
no núcleo profundamente azul
do poema
é difícil manter
os planos
sensoriais
em seus devidos lugares.
não sabemos se esta casa
com pé direito infinito
-- essa ruína delicada
que você inventou --
é mesmo segura.
espreito entre crateras
un fuego aplainado,
uma arquitetura cálida
de vulcões
sobre planícies geladas
e a verdade é que
não se dissipa
não se dissipa nunca
o que o amor causa ao poeta
[o obscurecimento da luz
no aprendizado da treva]
essa licença excepcional
para escrever barbaridades,
escuridões, amenas desculpas
para pequenos assassinatos.
é tarde:
para iniciar a noite
de fúrias e os copos descartáveis.
é imensamente tarde
para enviar os convites, as cadeiras,
as flores e a beleza desmesurada
dos ínícios no fundo
me atemoriza.
.....................................................
"os diários são perversos
até que algo seja perdido,
até que o mistério te trespasse
como um arpão
e você estale, crepitando
o suave espanto: o desejo,
o desejo fremido
por aquilo que se aquieta lento
no torvelinho
de um planeta muito recente."
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
"hexagrama 29"
:
suturar a falha sísmica
que te compreende
em cada golpe;
anestesias (uns goles a mais,
um a menos,
não importa). inscrever a alegria,
o terror,
liberar os galgos
no perímetro insubordinado
da tua caixa torácica,
pois você
você me ataca
onde sou
dolorosamente permeável;
frequenta lugares perigosos
no meu peito
e te inauguro de escuro:
teu delírio a seiva o suco.
sucumbo de exaustão
aos pulinhos,
respirando o fogo
em i n t e r v a l o s
de compasso opressivo.
a noite,
nos teus ombros,
é clareira aberta,
geografia finita
ao susto que antecipa
a caça, a carnificina.
conheço de cor
o sonho do deus
que habita
o teu grão.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
"mulher com vazio descansando" ou "branco com céu à esquerda"
me diga por favor
que não se trata de um desastre,
não importam os sonhos,
as enchentes e ventanias,
os copos transbordantes, o peito
aceso.
estou toda
dobradiças e umbrais
desde a manhã,
tingida em branco cru, paisagem
com céu convoluto à esquerda.
mas isso não é um desastre,
é certo.
apenas indica
que padecemos de
qualidades extintas
como as dos pássaros
demasiadamente gordos
com seus ossos pneumáticos
incapazes de alçar voo
e desse amor indefensável
por coisas perigosas
: um ponto de ancoragem
ínfimo
entre a tua pele
e o meu desejo.
imagem: "mulher com vazio descansando", de Pablo Gargallo
quinta-feira, 2 de julho de 2015
"evil twin"
para a tua lua em gêmeos
me assusta a capacidade não domesticada
que tens de acender outros olhos; a parte
escura da tua língua estala ao meu lado
e o corpo relembra dolorido
a forma dos teus cascos
no dorso encoberto dos novilhos.
esse núcleo duro que te consiste
me aliena em diferentes criaturinhas afônicas
e eu cato tuas guimbas para que não sofras
represálias e não te possuo, não te possuo
nem um pouco, sequer conheço a origem
do súbito suor nas tuas têmporas e os gestos
agudamente cirúrgicos - o aguilhão no teu discurso
apontando para mim.
como computar o que se subtrai? - sem que
o apagamento encubra os olhos, a brasa docilizada
cessa e não te possuo, não te possuo sequer
na memória dos dedos que seguram molhados
o copo de vodca no início dos tempos e o cigarro
que não se fuma nunca: esses pulmões que mal
se abriram gelados para o primeiro fôlego.
"pizarnik"
o mar não tem dono em terra
apenas até que
abras o poema
e persistas: abras o poema,
até que o último náutilo pise
em tábua flutuante
- abre o poema.
porque o mar
não tem dorso em terra
até que abras o poema.
porque não te possuo,
não te possuo nunca
até que abras o poema
e embora eu não te possua
é preciso que estejas aberta,
e o poema
fundamentalmente incompleto.
e a fenda a te percorrer inteira
como uma incisão de autópsia
e que dentro da fenda, onde
o coração fraqueja, você
estremeça
e ainda assim, abra o poema
até que seja outro,
que seja asa ou
secreção sem corpo.
terça-feira, 16 de junho de 2015
"on being seasick at dryland"
dentre todos
os sólidos vapores
que habita, saiba
: não é verdadeiro
em absoluto que
quem
planta v e n t o
há de colher
tempestade
: o golpe no flanco
vem da água
[ não ]
da cicatriz
vacilante da margem.
essa beleza perigosa
que orbita
[[ em camadas concêntricas ]]
não tem pouso
em orla,
apenas
em queda, profundeza
estelar
de cauda.
-- contudo há um gesto metálico,
uma vivência de península
que instaura um silêncio
de pura calma, que produz prurido.
umbigo de garça
a religar os colapsos, para acender
teus olhos com passadas
sincopadas
de mar e névoa.
os sólidos vapores
que habita, saiba
: não é verdadeiro
em absoluto que
quem
planta v e n t o
há de colher
tempestade
: o golpe no flanco
vem da água
[ não ]
da cicatriz
vacilante da margem.
essa beleza perigosa
que orbita
[[ em camadas concêntricas ]]
não tem pouso
em orla,
apenas
em queda, profundeza
estelar
de cauda.
-- contudo há um gesto metálico,
uma vivência de península
que instaura um silêncio
de pura calma, que produz prurido.
umbigo de garça
a religar os colapsos, para acender
teus olhos com passadas
sincopadas
de mar e névoa.
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