sexta-feira, 11 de novembro de 2016
"sobre o incidente de emagrecer 5kg e se tornar uma serpente mítica grega por alguns dias"
escrevo este poema
neste estado de cetose
química
que nada mais é do que
o termo médico
para quando o corpo
resolve devorar a si próprio
[como a serpente ouroboros
que engole a própria cauda
infinitamente non stop]
depois de um período de privação
de carboidratos
simples
ou complexos
[ou depressão anoréxica]
ou simplesmente
um jejum prolongado
aqui
entre estas doze paredes
e suas incontáveis quinas
arestas ângulos agudos
o b t u s o s
[eu contei todos esses dias]
não há amor
não há sombra
nem carboidratos
é a porra da terra devastada
do eliot
só há esta luz que penetra
tornando tudo nítido demais
as cores primárias demais
essa saturação insuportável
onde estão os fifty shades de
qualquer maldita cor que seja?
quem diria que a sutileza
se perdia
junto com os carboidratos?
'um nevoeiro mental' o médico disse
'é um dos sintomas
você vai ver'
significa que está funcionando
e em breve
esse peso também irá embora
[mas não]
eu vejo mesmo todos os contornos
não há nada difuso aqui
nem nevoeiro nem sombra
eu vejo todos os contornos
excessivamente
quero rasurá-los
mas eles se recompõem
quando eu não estou olhando
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
"devagar"
troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema
por outro
a pele
por outra
flor
escrita nas imediações
das catástrofes naturais
"paisagem com mulher ao fundo"
não ouso mesmo te revelar
do desejo insincero de ser outra:
pele e vísceras singradas,
sopro, soluço
- uma outra.
não sei mais o que esperar
do risco
e eu queria mesmo voltar a ser aquela
que sabe usar o silêncio como uma adaga
de cinco pontas e 22 cartas de baralho --
a mesma que você embebedou tantas e tantas vezes
com o consentimento das pessoas perigosamente enamoradas,
de pernas cruzadas, unhas precocemente descascadas,
cabelos em desalinho, bochechas rosadas,
essa outra.
porque, percebe, em torno de mim tudo sempre gritou 'provinciano'
em neon, piscando, mesmo que eu soubesse ser elegante
como uma concumbina chinesa com ascendente em imperatriz-to-be
embora eu ainda saiba usar de sofisticação a meu favor como se usa
uma nuvem de perfume caro com a naturalidade letal
que neutraliza os sapatos gastos comprados a prazo
mas não esconde uma vergonha íntima tão antiga
que já não se encontra nem a matriz
e tampouco o fim
e o que você chama de paisagem, meu amor
eu chamo mesmo de uma bela cicatriz
causada por outros e inúmeros impactos.
do desejo insincero de ser outra:
pele e vísceras singradas,
sopro, soluço
- uma outra.
não sei mais o que esperar
do risco
e eu queria mesmo voltar a ser aquela
que sabe usar o silêncio como uma adaga
de cinco pontas e 22 cartas de baralho --
a mesma que você embebedou tantas e tantas vezes
com o consentimento das pessoas perigosamente enamoradas,
de pernas cruzadas, unhas precocemente descascadas,
cabelos em desalinho, bochechas rosadas,
essa outra.
porque, percebe, em torno de mim tudo sempre gritou 'provinciano'
em neon, piscando, mesmo que eu soubesse ser elegante
como uma concumbina chinesa com ascendente em imperatriz-to-be
embora eu ainda saiba usar de sofisticação a meu favor como se usa
uma nuvem de perfume caro com a naturalidade letal
que neutraliza os sapatos gastos comprados a prazo
mas não esconde uma vergonha íntima tão antiga
que já não se encontra nem a matriz
e tampouco o fim
e o que você chama de paisagem, meu amor
eu chamo mesmo de uma bela cicatriz
causada por outros e inúmeros impactos.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
"a morte de katherine mansfield"
ana c. está farta:
da materialidade embrullhada do signo
da metalinguagem narcísica dos poetas
do texto de espelho em punho
revirando os óculos modernos
[ana, quero também
a página
apinhada de abajures
a legião antidiluviana
invadindo
pelas margens
mas sem
ocupar efetivamente
o coração
do texto]
mas ana c. deseja
sobretudo
esse enamoramento
letal
por
abismos
anacrônicos
e seu erro planejado de cálculo:
ancoragem ancorar ancorar
ancorar um navio no meio-fio
[o navio encalacrado no espaço]
****************
ou uma sequência interrupta
de naufrágios?
mas há que se considerar
a pausa perigosa
nos pulmões
a pausa perigosa nos pulmões
de katherine m.
como é possível, ana
traduzir bliss
se o estado de graça
há de desembocar
sempre
numa pausa?
tu trocas
a beleza desmedida
da 33a poética
[o desejo secreto
do poema]
pela serenidade
de quartzo
como têm
as saudáveis mulheres campestres
de mansfield com seus rostos lunares
seus braços fortes
o busto substancial
seus rebanhos de ovelha
[as mulheres de mansfield
prontas para a colheita]
as mulheres de mansfield
e a pausa perigosa
nos pulmões
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
''garota acidentalmente de vermelho"
eu tenho há dias uma garota
encalacrada
nas retinas:
uma garota
acidentalmente vestida de vermelho
da cabeça aos pés
um rastilho quase invisível
de pólvora
decantando a cada um
de seus passos andaluzos
ela é a minha garota
verdadeiramente plutônica
ela tem mais daddy issues do que eu
suas cartas de tarot
são lançadas displicentemente
no fundo da bolsa,
junto com sua necessaire
de maquiagem
e as chaves de casa
e os planos
de uma vida longa
e feliz
na medida do possível
- porque feliz feliz ninguém é
não o tempo todo
não como um todo
não por tudo
e sobretudo: não porque
a garota está acidentamente vestida
de vermelho sangue
ela tem ~acidentalmente~ no peito
um alvo
a prova de setas e tiros
mas a garota
a garota está propensa a acidentes
- disseram -
"acidentes"de natureza obscura
como em romances policiais
ou programas de mistério na tv a cabo
a garota está acidentalmente vestida de vermelho
ela tem 28 anos e um laudo de necrópsia
para decifrar
nem a esfinge da medicina forense
ou nenhum oráculo se atreveu a antecipar
sua morte
eu tenho uma garota
a c i d e n t a l m e n t e
presa às retinas
ela está vestida de vermelho
e isso não é um poema
isso não é uma notícia de jornal
é uma elegia:
a garota veste vermelho
e isso não é um acidente.
encalacrada
nas retinas:
uma garota
acidentalmente vestida de vermelho
da cabeça aos pés
um rastilho quase invisível
de pólvora
decantando a cada um
de seus passos andaluzos
ela é a minha garota
verdadeiramente plutônica
ela tem mais daddy issues do que eu
suas cartas de tarot
são lançadas displicentemente
no fundo da bolsa,
junto com sua necessaire
de maquiagem
e as chaves de casa
e os planos
de uma vida longa
e feliz
na medida do possível
- porque feliz feliz ninguém é
não o tempo todo
não como um todo
não por tudo
e sobretudo: não porque
a garota está acidentamente vestida
de vermelho sangue
ela tem ~acidentalmente~ no peito
um alvo
a prova de setas e tiros
mas a garota
a garota está propensa a acidentes
- disseram -
"acidentes"de natureza obscura
como em romances policiais
ou programas de mistério na tv a cabo
a garota está acidentalmente vestida de vermelho
ela tem 28 anos e um laudo de necrópsia
para decifrar
nem a esfinge da medicina forense
ou nenhum oráculo se atreveu a antecipar
sua morte
eu tenho uma garota
a c i d e n t a l m e n t e
presa às retinas
ela está vestida de vermelho
e isso não é um poema
isso não é uma notícia de jornal
é uma elegia:
a garota veste vermelho
e isso não é um acidente.
"missão dama de copas"
esse, meu bem, é sobre o acaso
que nos pôs aqui
nesse claro concubinato
vendo carnificinas onde não existem
crescendo tempestades domésticas
de estimação
em aquários calefados
a verdade é que acredito na cigana
nas linhas das suas das minhas mãos
e nos gêmeos profetizados -- eu & você
o garoto dos cascos
sonhei esta noite que éramos um casal
em pelo menos dois universos paralelos
[o que claramente denota um destino]
........
[o que denota
que o giz
riscado no quadro
era mesmo um pacto
de muito muito antes]
mas o fato
é que eu tenho uma coisa com gatos
é que tenho um nome secreto
que você desconhece
uma tremenda tolice - é claro,
~um nome de dança~
que recebi aos dezessete anos
quando eu fui odalisca
de beira de estrada
numa cidade litorânea
do interior do estado
e o mistério que fica mesmo
é como pode uma cidade
ter essa existência dupla:
ser litorânea
e ser interior
no seu estado
que nos pôs aqui
nesse claro concubinato
vendo carnificinas onde não existem
crescendo tempestades domésticas
de estimação
em aquários calefados
a verdade é que acredito na cigana
nas linhas das suas das minhas mãos
e nos gêmeos profetizados -- eu & você
o garoto dos cascos
sonhei esta noite que éramos um casal
em pelo menos dois universos paralelos
[o que claramente denota um destino]
........
[o que denota
que o giz
riscado no quadro
era mesmo um pacto
de muito muito antes]
mas o fato
é que eu tenho uma coisa com gatos
é que tenho um nome secreto
que você desconhece
uma tremenda tolice - é claro,
~um nome de dança~
que recebi aos dezessete anos
quando eu fui odalisca
de beira de estrada
numa cidade litorânea
do interior do estado
e o mistério que fica mesmo
é como pode uma cidade
ter essa existência dupla:
ser litorânea
e ser interior
no seu estado
sábado, 13 de agosto de 2016
"uma mulher sob influência"
queria escrever um poema sensorial, um sobrevoo rasante, ébrio, erótico,
com palavras que pudessem salvar algo disto aqui, mas o poema ele fracassa.
o poema fracassa justo onde eu preciso ser salva, justo onde eu, como gena,
mabel, como outras, como todas as mulheres que levantam os braços e rodopiam
com ou sem roupa, pelas ruas ou entre paredes, em silêncio ou aos berros,
justo onde enlouqueço numa sazonalidade que não omito
mas não controlo.
queria escrever um poema que colasse no corpo como um drink açucarado que seca
sobre as pernas no dia seguinte após ter sido derramado numa noitada sem que fosse
sequer percebido. mas o poema fracassa porque esta loucura
porque esta loucura tem o formato de dunas que se movem
lentíssimamente durante a noite, rearranjando uma nova paisagem estática
ainda que movente a cada dia.
o poema ele não se curva
ele é tão domesticável quanto uma onça
fumando charutos cubanos.
mas se você superar isto e seguir adiante, o poema te oferece uma delicadeza selvagem
como a de um gato que brinca monotonamente com um balão de gás já meio murcho,
rolando-o pelo chão com as patas e unhas, mordiscando de leve, sem o destruir.
queria mesmo que o poema tivesse uma qualidade profética,
que inaugurasse um universo paralelo
mas o poema é bidimensional; ele tem a velocidade
de gotas descendo espáduas octagenárias, incorrendo
em cada vinco, hesitando nos profundos sulcos,
ensaiando um desvio
a cada acidente epidérmico
causado pelos anos.
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