Desencaixotando Rita

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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

"sereia blooming blues"



porque é preciso
exercitar a violência
que só uma ideia incorpórea
imprime
ao corpo
-- ricochete que vai de trás
para a frente
em mar aberto, ferida
que espuma pela boca sal
e gritos e gritos     e gritos

no fundo, a vida depende
da coragem de arrancar 
um sorriso tímido dos astros
com um pé de cabra
investigando a malha beligerante
                               na marra:
qual era mesmo o teu formato?
qual a velocidade com que
crescem os ossos?
onde ficou aquela que partiu
antes, antes de todos?

   [que partam todos os raios 
          que partam todos 
   e que ainda assim eu fique
   que eu fique - só e inteiriça 
que seja pernas ou rabo ou nado 
        inspire respire amém ]


para descobrir tarde demais que
a coisa mais triste do mundo
                                 é a pele

que a coisa mais triste do mundo
        não deixa sequer cicatriz



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

"sobre eventos adâmicos"

a uma costela
























cansei de fissuras
e capilares intradérmicos
: essa existência
de apêndice
içado
do coração do mundo
não alcança a antimusa
verídica
que se equilibra invertida
no avesso de meus passos.

é que eu
quase não sinto

essa costela
que você tão generoso
                        retirou

do teu tórax cerimonioso
para esculpir um quadril
que violasse as regras
dos homens e do fogo.

é que eu quase não sinto
                        o amor --
teu arco, teu movimento
solar
no meu ventre tão recente;

                         o amor
que eu quase não sinto
evolar no sobrevoo plano,
e
u
   q u a s e,

         eu quase não sinto.






Imagem: Bruce Mozert, 1938.

sábado, 12 de setembro de 2015

"delírio de ruína"


com o pensamento em 'ilhados', de ismar tirelli neto


gostaria, meus caros, de exibir neurotransmissores
sorridentes pela manhã, 
polvilhados com granola e frutas da estação,
mas é que me doem excessivamente os dentes, 
as juntas, 
e os sentimentos de reconhecimento
espatifam-se como pratos.
é que dói esse ligeiro rastro de pó
pelos trilhos e tacos 
até o desolamento dos meus sapatos 
à meia-luz, quase escondidos embaixo da cama.

para quem atina aos poetas
desavisadamente:

não há saídas de emergência aqui.
senhores, não há.
o fogo existe, mas
não é esperado,  
há um plano do qual não se fala
e a verdade é que pode-se estar sob a impressão
da impossibilidade do amor
por uma sombra,

contudo é recomendado não pensar muito sobre isso.


o vento que nos atinge nessas ilhas
é agourento.
não há ipês redentores nas calçadas,
não se recobre de folhas amarelas o chão,
esse vento sacode as ruas e vielas, os postes de luz
- os poste de luz bem sabem o que os espera. 
esse vento diabólico recria 
um quarteirão inteiro 
à minha própria imagem 
- este quarto desolado, de iluminação mortiça,
de umidade descendo licorosamente 
pelas paredes,
é um pequeno teatro
de morcegos e títeres emparelhados
representando com alguma dificuldade
as suas próprias vidas.

e o que temos aqui, prezados? 
farelos de self girando como átomos, 
sem a fortuita disciplina de uma molécula,
e tudo,

tudo decanta tão fundo,
por um sentido outro,
que não este,
que 
não me lembro
de escrever sobre a água
: ela que permitiria
acima de tudo,

o nascimento,
a escansão suave
                do grito.



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

"as meninas astrólogas"

para Ana B. Domingues



















as meninas astrólogas não consultam o personare
têm tábuas de esmeralda, efemérides bulindo
embaixo do travesseiro junto com o celular
e o arcano XIX para dar sorte e magnetismo
com o boy e outras magyas do reino dos céus.
descobrem três cabeças arrancadas na hidra
 e o diabo da vênus mal aspectada, a lua 
fora de curso, a lua fora de curso...
"aquilo que está acima, aquilo que está abaixo"
- as meninas astrólogas sabem o que está 
acima dos seus pescocinhos de cisne, conhecem 
o tigre embaixo da cama e o que fazer, o que fazer
em caso de súbita despressurização.
as meninas astrólogas mandam selfies explicando 
os mudrás para amigas em crise, oferecem 
a restauração dos meridianos do corpo, oferecem 
 sinastrias, mapas combinados   e        revoluções,
sobretudo        revoluções.
a meninas astrólogas se preocupam excessivamente
com a lua fora de curso e o movimento retrógrado
de mercúrio, contam nos dedos os dias que faltam
para dias melhores, contam os dias para a chegada 
dos dias e para a virada da lua em touro, com banquetes
e sacrifícios virginais. as meninas astrólogas,
as meninas astrólogas são, na verdade, bacantes
anacrônicas com seus cálices transbordantes e 
suas certezas infinitas sobre o infinito do universo.




quinta-feira, 27 de agosto de 2015

"diário de plutão"














no núcleo profundamente azul 
                   do poema
é difícil manter 
os planos 
        sensoriais
em seus devidos          lugares.
não sabemos se esta casa 
com pé direito infinito
-- essa ruína delicada
 que você inventou --

        é mesmo segura.

espreito entre crateras
un fuego aplainado, 
uma arquitetura cálida
         de vulcões
sobre planícies geladas

e a verdade é que
não se dissipa
não se dissipa nunca
o que o amor causa ao poeta

[o obscurecimento da luz
no aprendizado da treva]

essa licença excepcional
para escrever barbaridades,
escuridões, amenas desculpas
para pequenos assassinatos.
é tarde: 
para iniciar a noite
de fúrias e os copos descartáveis.
é imensamente tarde
para enviar os convites, as cadeiras,
as flores e a beleza desmesurada
dos ínícios no fundo
me atemoriza.

.....................................................

"os diários são perversos
até que algo seja perdido,
até que o mistério te trespasse
como um arpão
e você estale, crepitando
o suave espanto: o desejo,
o desejo fremido
por aquilo que se aquieta lento
                           no torvelinho 
 de um planeta muito recente."






sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"hexagrama 29"


:
suturar a falha sísmica
que te compreende 
em cada golpe; 
anestesias (uns goles a mais,
um a menos,
não importa). inscrever a alegria, 
              o terror, 
liberar os galgos
no perímetro insubordinado 
da tua caixa torácica,
                  pois você
você me ataca 
         onde sou 
dolorosamente permeável;  
frequenta lugares perigosos
no meu peito
e te inauguro de escuro:

teu delírio a seiva o suco.

sucumbo de exaustão
aos pulinhos,
respirando o fogo
em       i n t e r v a l o s
de compasso opressivo.
               a noite, 
nos teus ombros,
é clareira aberta,
  geografia finita
ao susto que antecipa
a caça, a carnificina. 
conheço de cor
 o sonho do deus
            que habita 
            o teu grão.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

"mulher com vazio descansando" ou "branco com céu à esquerda"



me diga por favor
que não se trata de um desastre,
não importam os sonhos,
as enchentes e ventanias,
os copos transbordantes, o peito
                                          aceso.



estou toda
dobradiças e umbrais
desde a manhã,
tingida em branco cru, paisagem
com céu convoluto à esquerda.

mas isso não é um desastre,
                                é certo.
apenas indica 
que padecemos de 
qualidades extintas
como as dos pássaros
demasiadamente gordos
com seus ossos pneumáticos
incapazes de alçar voo

e desse amor indefensável
por coisas perigosas
: um ponto de ancoragem 
                ínfimo
entre a tua pele
e o meu desejo.

imagem: "mulher com vazio descansando", de Pablo Gargallo