Desencaixotando Rita

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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"get lost, kiddo" - Anna Olivia Thomas


"se manda, garotinha",
você diz, entre poças,
entre roupas e esgarçamentos,
enquanto arrumo
às pressas uma mala de mão,
trêmula, sem calcinhas ou
um único item sequer
de necessidade
ou intenção.

"get lost, kiddo",
he says to his antimuse,
and she fades deeply into
the wall as she 
was meant to do 
ever since he met her 
among the reeds,
[shapeless and destituted]
to the course of virgil's 
doomed love and far
and far and beyond it too .

"se manda, garotinha"
é a frase que sentencia
um sufocamento,
um potencial assassinato
literário. cai a ortónima
que amas, cariño muñequito

e a heterónima
que sobrevive
não fala uma só palavra
da sua língua, camarada.
a moça que sobrevive,
sobrevive embaixo d'água,
tem sangue nos lábios
e dentes afiados, é
uma dama de espadas
que vive no lume crestado
em bordas cinzeladas
de vulcões adormecidos,

cuidado,
cuidado.



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

a vida nos vulcões


dizer-te que a tua proposta
de cirurgia é válida, meu amor:
seccionar a simbiose brutal
dos teus excessos e dos meus 
me parece menos absurdo
que este hálito dionisíaco, que não se dissipa,
que não se dissipa e me precede, exasperada, 
em dobradiças matinais,
quando vens, agitando os braços, italiano
e compacto, sobretudo quando vens, meu amor, 
coiceando alho-poró por toda a sala,
ungido por um urano qualquer desembestado,  
até o ponto inabalável de fulgor,  
um netuno mergulhado em chamas azuis inflamáveis,
invertidas como o arcano dependurado do tarot.

no fundo pode ser simples, querido,
este quinhão trêmulo de carne acesa
no desvão das coxas ensina
a todos que acalentam silenciosamente 
um grande tóxico terror íntimo,

o mistério impronunciável do amor.


terça-feira, 22 de julho de 2014

vênus em uso

conhecerá os ângulos
úmidos
de cada morte miúda
a cada vez, a cada vez,
a
cada
vez,
a cada vez conhecerá a fundo
o estrecimento do núcleo lúbrico
que me parte ao meio
em duas:
a pura delicadeza em fúria;
das nossas pelves conjuntas
escorrerão sucos acidulados
em giros escarpados, sonoros,
até o fim,

e que não haja fim, até que
haja fim, até
que eu diga que houve tudo,
menos fim.

sábado, 19 de julho de 2014

pequenos monstrinhos de olhos verdes de cigana oblíqua e dissimulada

a tarefa
de soçobrar a brasa
na fricção do sonho
é doce
e monstruosa.
fujo, finjo, escapo
aos saltinhos,
corrompida,
por ruas aladas,
engulo plumas, sugo a sujeira
dos dentes
com a língua forcada.
há,
sem dúvida,
nesta carta
que seguro
um punho

aberto
de céu puro
todo e completa
mente seu.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

"carta a um morcego-leão por ocasião de um casamento" [às 3h40 da manhã]

Te escrevo a mão, prestes a entrar, pé ante pé, nesta casa de gelosias e biombos imaginários, pois sei que uma vez dentro, surgirei com mais uma, essas que já me são tantas - heteronímicas e pérfidas, doces ou covardes - incontáveis, craqueladas, até agora. Somos duplos e múltiplos, como peixes, meu amor.

          A sua respiração já me frequenta há tempos,
          à distância, antes até mesmo de nos encontrarmos
                   [pela primeira, pela segunda vez?]
          e me vejo obrigada a reorganizar o meu corpo
          ao teu ritmo sonar, à tua pulsão,
                                você, que é tocado pelo fogo

e que secou minhas lágrimas como se nunca tivesse existido
                                                                         água neste poço.


Ainda não sei bem o que fazer de ti, o arqueiro inflável de setas perigosas. Clown ébrio, exu insondável.
Não sei como me manter a salvo de tua sorte jupiteriana e do cortejo bacante dissimulado de caçadoras argentinas, dançarinas de mastro e esguias valquírias, 
                                                                           que andam no teu rastro.
       
Desconheço a extensão de todos os teus nomes, dos meus e dos que virão. O signo do duplo é a nossa casa e nessa casa só se entra uma vez.

Há meses que as moedas se avizinham e anunciam um andarilho. Ouço teus cascos ao fundo.
O baralho deita sobre a toalha da mesa o jogo do prestidigitador, um mago de dedos rápidos e palavras afáveis, carregando livros sobre os ombros e versos sob a pele de lobo.Sim, os oráculos delineam o contorno 
de um marido. É isso o que você é? - me diga

e eu prometo contar-te dos filhos gêmeos que profetizei na noite 

em que pusemos os olhos um no outro.

sábado, 12 de julho de 2014

<>

o resto é paisagem.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

"invernal"

tenho cultivado entre dedos
enregelados
um desejo mineral
de imobilidade

como têm
as primeiras
rochas calcárias

uma existência
exaustiva
de liquens sobre superfícies
erodidas dia após dia, gota
sobre gota hirsuta

[a consciência
do grão se faz lentamente

impermeável sobre mim]

devasta
paragens

de um verão incompleto
e talha fendas interiores
adormecidas como bestas
uma vez queridas