Como reverter um coup de foudre? - ela pergunta, exasperada.
Não é reversível, docinho - ele responde sorrindo.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
O que você diria a Rita? -bot
Eu quero mais terra e fogo,
mas os sonhos continuam marítimos
Quero uma redundância
mais dispersa que duna
escandida em intervalos,
Quizás, quizás, quizás, quizás, quizás.
She was born under the ibises
sempre soube:
a verdade, ela mora no segundo andar.
perdi o meu anel de saturno ainda pequena,
brincando no mar.
sábado, 11 de janeiro de 2014
Contos de verão
Quarenta graus aqui na tijuca.
Vi agora há pouco no termômetro quando atravessei a praça para comprar sorvete de doce de leite com torta alemã. Já houve dias piores, pensei.
Não sei se foi o gosto apressado do sorvete derretendo no calor intenso ou uma memória corporal despertada pelas longas gotas de suor escorrendo pelo meio das costas, mas eu me lembrei de outros janeiros, de outras paisagens.
Me lembrei de uma infância passada dentro da água. E com ela, vem o estranhamento que quase sempre acompanha a memória de coisas líquidas no meu caso, principalmente quando me dou conta da minha precária familiaridade atual com o mar e as quedas d'água, água doce ou salgada. Já fui fascinada por tudo o que é marinho e submerso, mas agora, mesmo nas poucas vezes em que me lanço na água, vejo os meus movimentos parcos e pesados, a resistência invencível e retorno sempre à superfície, pelas leis do empuxo e do medo.
Sim, o medo. Eu me lembro sim de sentir medo, mas não da água gelada ou dos peixes que beliscavam a minha pele quando eu ficava completamente imóvel, apenas flutuando, quase sem respirar. Mas algo do fundo me assustava, a pressão da água sobre a cabeça me forçava a interromper o mergulho e eu voltava rápido para respirar.
O verão costumava ser a minha estação preferida. Férias, natal, aniversário, primos, praia e sorvete. Um crescente irresistível para a minha expectativa de criança de cidade pequena, ainda que litorânea. A casa cheia, os almoços longos e tardios, os sorveteiros na porta de casa e o vento zumbindo pelas telas de mosquito e venezianas azuis. Todos os dias de janeiro, uma rotina doce se desenrolava: um relógio interno infalível que me punha de pé antes do resto da casa para tomar às pressas um leite com nescau e pão com manteiga já de biquíni e me lambuzar de filtro solar e hipoglós e partir para a lagoa. Atravessava a rua olhando "atentamente para os dois lados", como fora ensinada, na ponta dos pés para evitar os frutinhos pontiagudos das casuarinas pela areia e dava início ao que parece ser o único ritual que eu daria conta de criar na minha vida.
Primeiro a temperatura. Nada se comparava à água ainda gelada do começo da manhã e eu me ajustava rapidamente, como se pecilotérmica. Depois a caça das cochas em espiral, que eu chamava de "castelinhos", para levar para as aulas de arte do colégio, depois que acabassem as férias. Por último, mais tarde, já com os primos e tios acordados, alimentados e devidamente protegidos do sol, dávamos início a tentativas tenazes de capturar alguns peixes. Quase nunca conseguíamos apanhar algum, mas quando um peixe mais velho ou doente deixava-se prender pelas nossas armadilhas de sacolas plásticas e redes, fazíamos a festa e prometíamos amar e cuidar dele pelo resto de sua curta vida. Não entendíamos porque ele sempre estava morto ou explodia antes do final do dia, pois trocávamos a água com diligência e o alimentávamos com migalhas de pão. Nunca havia nos ocorrido que peixes de água salgada não sobreviviam exatamente bem na água da bica, mesmo que num balde grande e espaçoso. Ainda levaria alguns anos para que entendêssemos melhor as leis da osmose.
Havia um grande intervalo que começava quando o sol ficava quente demais para as crianças e éramos obrigados a sair da água, criando uma espera interminável pelo almoço, que preenchíamos enquanto secávamos as roupas de banho na varanda, lambendo o sal que restava no corpo e brincando de fazer exóticos ensopados com as papoulas do jardim da minha avó. Depois do almoço provavelmente já estávamos suficientemente secos para assistir desenhos animados no sofá plastificado - uma artimanha típica das casas de veraneio - espiando com o rabo do olho o relógio de parede apontar para o quatro, quando o sol estaria baixo de novo para finalmente voltarmos para a lagoa. O final da tarde trazia sempre alguns concursos, ou de cambalhotas, bananeiras no fundo da lagoa, ou de castelos de areia, que eu quase sempre vencia ou ainda, nas semanas de lua cheia, quando o avô criava uma competição para o neto que primeiro avistasse a lua despontando no horizonte, na direção da praia oceânica. O prêmio era um sorvete de duas bolas no bar do Jesus, atrás de casa. Mas todos nós ganhávamos sorvetes de qualquer forma, o que estranhamente não desencorajava qualquer espírito esportivo nosso. Já enrugados e com os lábios partindo-se de sal, alguém vinha da casa para nos buscar, pois era hora de tomar banho e lanchar. E novamente as disputas das crianças pela ordem do chuveiro e a aposta de quem ficaria pronto primeiro para assistir os seriados japoneses de luta que já iriam começar.
A memória é essa coisa estranha, fio que revela mais emaranhados do que novelo.
Já sabia intuitivamente que sorvete se ligava em mim à ideia de lar e água salgada, mas não tinha certeza do motivo da minha recusa ao mar desde então. Fico sob a impressão de que interditei um oceano perdido e que vou passar a minha vida tentando reconstruí-lo, até finalmente poder me mover na água com leveza e graça de novo.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Os homens de Austen
Reproduzo um diálogo com minha mãe, quando em seu aniversário assistíamos a Emma pela ducentésima vez.
- O Mr. Knightely é uma delícia, né?
- Sim - eu suspiro e acrescento:
- Acho que talvez ele seja o meu personagem masculino favorito da Jane Austen.
- Não, ele é delicioso, mas o meu é o Captain Wentworth, com certeza! Aquele homem alto, com as mãos grandes - replica minha mãe, entusiasmada.
Pondero por um instante e pareço meio duvidosa, até para mim mesma:
- É, mas eu nunca fui fã dos personagens militares. Nem dos officers e coronéis de Meryton, em Orgulho e Preconceito, nem da pródiga Marinha, em Persuasão.
Minha mãe faz uma pequena pausa:
- Sim, florzinha, mas veja bem, não queria ter que dizer isso, mas o Mr. Knightely é um latifundiário.
Desconcertada, de repente me dou conta que Edward Ferrars é um clérigo e o Mr. Darcy é parte da mais alta oligarquia inglesa do século XIX.
O silêncio cúmplice encerra a discussão. Tentamos dissipar a estranheza voltando ao filme e retomamos justo na cena em que Emma explica ao Mr. Knightely que Harriet, sua recém-amiga, merece coisa muito melhor do que do que seu inquilino, o fazendeiro Mr. Martin.
- O Mr. Knightely é uma delícia, né?
- Sim - eu suspiro e acrescento:
- Acho que talvez ele seja o meu personagem masculino favorito da Jane Austen.
- Não, ele é delicioso, mas o meu é o Captain Wentworth, com certeza! Aquele homem alto, com as mãos grandes - replica minha mãe, entusiasmada.
Pondero por um instante e pareço meio duvidosa, até para mim mesma:
- É, mas eu nunca fui fã dos personagens militares. Nem dos officers e coronéis de Meryton, em Orgulho e Preconceito, nem da pródiga Marinha, em Persuasão.
Minha mãe faz uma pequena pausa:
- Sim, florzinha, mas veja bem, não queria ter que dizer isso, mas o Mr. Knightely é um latifundiário.
Desconcertada, de repente me dou conta que Edward Ferrars é um clérigo e o Mr. Darcy é parte da mais alta oligarquia inglesa do século XIX.
O silêncio cúmplice encerra a discussão. Tentamos dissipar a estranheza voltando ao filme e retomamos justo na cena em que Emma explica ao Mr. Knightely que Harriet, sua recém-amiga, merece coisa muito melhor do que do que seu inquilino, o fazendeiro Mr. Martin.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Elena - O peso e a leveza da água
Semanas se passaram e eu prometi escrever sobre Elena.
Mais uma semana se passou e eu prometi tomar coragem, voltar no cinema e assistir novamente. Para criar impressões mais precisas, menos diluídas pelo choro convulsivo da sessão.
Os óculos tiveram que ser retirados. Embaçavam.
Eram limpos, mas embaçavam outra vez.
Mas não consegui voltar.
O medo era ter outra experiência completamente estarrecedora e quase incapacitante de emoções em torvelinho, despertas - não querendo ser adormecidas à força por nenhum motivo deste mundo.
A verdade é que não consegui de parar de chorar nem para sair do cinema.
Constrangedor.
Para voltar para casa e não conseguir tirar o filme da cabeça.
Elena all over and over.
Os dias seguintes foram de pesquisas sobre a diretora/personagem/atriz Petra Costa e sua irmã mais velha, a atriz Elena Andrade. Elena.
Eu me apaixonei quase de imediato pela expressividade e a beleza trágica de Elena. Seus movimentos etéreos, em torno de um eixo imaginário me deixaram paralisada já nos primeiros instantes do filme.
Eu pressenti um perigo. Estava para cruzar o limiar onde uma experiência estética está prestes a se tornar algo mais.
E cá estou eu.
Eu, eu tenho um filme entalado na garganta. E Elena aderida aos tecidos finos e escavados da minha retina. Preciso fazer algo a respeito.
É difícil realizar a real dimensão da dor da tríade matrilinear de
personagens, Petra, Elena e sua mãe, Li An.
É assustador como as três se entremeiam no documentário, se misturam e parecem tornar-se um único
personagem, algum arquétipo feminino trágico e terrível, uma heroína grega e clássica. Universal. Qualquer coisa entre Ofélia, Electra, Circe e heroínas sem nome.
A ferida parece antiga, ancestral e é legada às descendentes, que precisam fazer algo a respeito. Depurar a dor em arte, dissolver-se para esquecer.
Mas é realmente possível esquecer?
Elena, de Petra Costa, me parece mais bem-sucedido na tarefa de propor uma sutil diferenciação entre as personagens, mãe e irmãs. Uma tentativa de escapar a uma maldição.
Eu mesma não consigo esquecer Elena.
Não me surpreende a dificuldade daqueles que a conheceram.
A intensidade do seu desejo e o seu compromisso com uma ética maior do que a vida me entristecem e me comovem mais do que sou capaz de dizer.
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Muitos são os elementos que contribuem para o documentário ser uma experiência avassaladora. Os materiais de arquivo, a escolha das cores e texturas granuladas para a fotografia, a trilha sonora e a belíssima (essa sim de impacto arrasador para mim) desembocadura líquida do filme.
A água é um fio condutor, que desestabiliza e acolhe, um abrigo/abismo para onde tudo se dirige.
A verdade é que, assim como Petra, a existência das sereias sempre me pareceu inquestionável.
A construção narrativa utiliza os recursos que estavam ao alcance da diretora: suas próprias memórias, materiais audiovisuais de arquivo sobre a irmã, textos, entrevistas, diários e cartas gravadas em fitas. Esses mesmos recursos travam conosco o desafio que é primordialmente de Petra Costa: encontrar os vestígios de Elena, seu corpo, seu peso e sua imagem perdida para sempre. Para assisti-la partir.
Um dos momentos mais agudos desta tentativa - vã, ao meu ver - é quando a autópsia de Elena denuncia o peso de seu coração. 300g.
Será possível que o coração de Elena pesasse somente trezentos gramas?
Mais me parecem toneladas e toneladas.
Esse peso me parece congruente com a leveza de seus movimentos no palco ou sob o olhar amador de sua câmera. O paradoxo do peso e da leveza pode ser uma experiência letal, sabemos.
Se a memória se dissipa e se perde na água, é a água também que, por outro lado, guarda todas as memórias do mundo. E lá ficam, encapsuladas, como ostras, esperando ser recontadas.
A verdade é que, assim como Petra, a existência das sereias sempre me pareceu inquestionável.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
O dia em que o céu rachou.
Sonhos apocalípticos nunca me foram raros.
Sempre sonhei com tornados, vulcões, zumbis, enchentes e tsunamis, mas geralmente os sonhos em si não me diziam muita coisa, exceto pela força das imagens, que me aterrorizavam já desperta, me prevenindo sobre o fato de eu ter uma imaginação dramática e dada a catástrofes.
Pois bem, noite passada foi uma noite atípica. De insônia, entrecortada por alguns breves momentos de cochilo - aparentemente não tão breves que não acobertassem alguns sonhos, como eu viria a realizar esta manhã.
Quando acordei, por volta das 5h30, fui acalentada por uma sensação de que, a despeito da cabeça em chamas e do coração desassossegado, em galopes, tudo ia bem. Fiquei intrigada por um momento, para em seguida ser tomada pela avalanche cíclica dos mesmos pensamentos que tiraram o meu sono, em primeiro lugar. A minha própria ladainha interna, infernal.
Após passar pelas diferentes etapas do desespero, seguidas vezes, até o despertador finalmente tocar, levantei para tomar banho, já que a geladeira estava vazia e qualquer esperança de bem-estar físico ou alívio da fome teria que esperar até a padaria, quando eu estivesse de saída para o trabalho.
Enquanto aplico o xampu aos cabelos já sem lavar há dias, pequenos flashes do sonho começam a tomar forma e encadear-se em uma narrativa. A primeira reação que esboço ao reconhecer o seu conteúdo absurdo, como é comum em todos os sonhos, é dar uma risada moderada, quase surpreendida.
Tudo começava com uma festa glamourosa ao amanhecer, em um cais à beira-mar, justamente para comemorar o fato de eu ter ganho uma corrida de skate [!] naquela madrugada, contrariando todas a expectativas, inclusive as minhas.
Segurando as taças de champanhe, eu, minha família e amigos observávamos poeticamente o nascer do sol, quando bruscamente uma sombra se interpõe e o que parece ser um eclipse, com velocidade meteórica se desencadeia diante de nós, escurecendo tudo.
Fascinada, mas com um pouco de medo, assim como todos ao meu redor, eu observo alguns hologramas aparecerem no céu, enquanto este próprio parecia partir-se em dois diante dos nossos olhos.
Uma linha de fogo, quase como a divisão de duas placas tectônicas - caso eu alguma vez tivesse visto alguma - cinde finalmente o firmamento e pequenos vídeos educativos são projetados no céu, para explicar o sentido dos hologramas. O primeiro, que mostrava o planeta Terra em forma quadrada, esclarecia que o universo não existia realmente e que a terra era uma caixa, com começo, meio e fim. E arestas.
O segundo holograma nos desvendava a ilusão da lua, que nada mais era do que a projeção dos nossos desejos. Também não existia.
Em seguida, diversas setas, também hologramas, aparecem no céu apontando para um ponto específico do horizonte e somos informados que todas as respostas para todas as perguntas do mundo serão encontradas lá, naquele ponto.
Exclamações de choque são ouvidas e minha mãe me assegura, trêmula, que já desconfiava de tudo aquilo, pois fazia muito sentido. Neste exato momento, o céu se reconstitui inteiro e o poster de 'O grande Gatsby' aparece também como holograma, notificando que tudo aquilo fazia parte de uma intervenção da equipe de publicidade e produção do filme.
Pasmos por um momento, nos recompomos e rimos de tudo, com algum desconforto.
O sonho estava prestes a terminar, quando eu afirmo em voz alta, enigmaticamente, para todos ouvirem:
- Eu sabia que não podia ser verdade! - e acrescento:
- As setas apontavam para a direção errada. Eu sempre soube que o sentido da vida estava na direção oposta...
E aponto para um ponto diametralmente oposto ao lugar do horizonte onde os hologramas sinalizavam a presença da verdade.
Começo a despertar, enquanto espero os créditos finais surgirem para encerrar o sonho. Mas nada aparece.
Eu retiro o xampu e desejo nunca ter enveredado pela psicanálise, ainda que de maneira mafiosa, em um dos descaminhos caóticos da minha vida. A tentação de desenovelar este sonho é grande, mas não tenho certeza se quero saber o que ele significa.
Pintura de Tomie Ohtake
Sempre sonhei com tornados, vulcões, zumbis, enchentes e tsunamis, mas geralmente os sonhos em si não me diziam muita coisa, exceto pela força das imagens, que me aterrorizavam já desperta, me prevenindo sobre o fato de eu ter uma imaginação dramática e dada a catástrofes.
Pois bem, noite passada foi uma noite atípica. De insônia, entrecortada por alguns breves momentos de cochilo - aparentemente não tão breves que não acobertassem alguns sonhos, como eu viria a realizar esta manhã.
Quando acordei, por volta das 5h30, fui acalentada por uma sensação de que, a despeito da cabeça em chamas e do coração desassossegado, em galopes, tudo ia bem. Fiquei intrigada por um momento, para em seguida ser tomada pela avalanche cíclica dos mesmos pensamentos que tiraram o meu sono, em primeiro lugar. A minha própria ladainha interna, infernal.
Após passar pelas diferentes etapas do desespero, seguidas vezes, até o despertador finalmente tocar, levantei para tomar banho, já que a geladeira estava vazia e qualquer esperança de bem-estar físico ou alívio da fome teria que esperar até a padaria, quando eu estivesse de saída para o trabalho.
Enquanto aplico o xampu aos cabelos já sem lavar há dias, pequenos flashes do sonho começam a tomar forma e encadear-se em uma narrativa. A primeira reação que esboço ao reconhecer o seu conteúdo absurdo, como é comum em todos os sonhos, é dar uma risada moderada, quase surpreendida.
Tudo começava com uma festa glamourosa ao amanhecer, em um cais à beira-mar, justamente para comemorar o fato de eu ter ganho uma corrida de skate [!] naquela madrugada, contrariando todas a expectativas, inclusive as minhas.
Segurando as taças de champanhe, eu, minha família e amigos observávamos poeticamente o nascer do sol, quando bruscamente uma sombra se interpõe e o que parece ser um eclipse, com velocidade meteórica se desencadeia diante de nós, escurecendo tudo.
Fascinada, mas com um pouco de medo, assim como todos ao meu redor, eu observo alguns hologramas aparecerem no céu, enquanto este próprio parecia partir-se em dois diante dos nossos olhos.
Uma linha de fogo, quase como a divisão de duas placas tectônicas - caso eu alguma vez tivesse visto alguma - cinde finalmente o firmamento e pequenos vídeos educativos são projetados no céu, para explicar o sentido dos hologramas. O primeiro, que mostrava o planeta Terra em forma quadrada, esclarecia que o universo não existia realmente e que a terra era uma caixa, com começo, meio e fim. E arestas.
O segundo holograma nos desvendava a ilusão da lua, que nada mais era do que a projeção dos nossos desejos. Também não existia.
Em seguida, diversas setas, também hologramas, aparecem no céu apontando para um ponto específico do horizonte e somos informados que todas as respostas para todas as perguntas do mundo serão encontradas lá, naquele ponto.
Exclamações de choque são ouvidas e minha mãe me assegura, trêmula, que já desconfiava de tudo aquilo, pois fazia muito sentido. Neste exato momento, o céu se reconstitui inteiro e o poster de 'O grande Gatsby' aparece também como holograma, notificando que tudo aquilo fazia parte de uma intervenção da equipe de publicidade e produção do filme.
Pasmos por um momento, nos recompomos e rimos de tudo, com algum desconforto.
O sonho estava prestes a terminar, quando eu afirmo em voz alta, enigmaticamente, para todos ouvirem:
- Eu sabia que não podia ser verdade! - e acrescento:
- As setas apontavam para a direção errada. Eu sempre soube que o sentido da vida estava na direção oposta...
E aponto para um ponto diametralmente oposto ao lugar do horizonte onde os hologramas sinalizavam a presença da verdade.
Começo a despertar, enquanto espero os créditos finais surgirem para encerrar o sonho. Mas nada aparece.
Eu retiro o xampu e desejo nunca ter enveredado pela psicanálise, ainda que de maneira mafiosa, em um dos descaminhos caóticos da minha vida. A tentação de desenovelar este sonho é grande, mas não tenho certeza se quero saber o que ele significa.
Pintura de Tomie Ohtake
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
[i]Resoluções do ano novo da serpente
O primeiro returno de saturno a gente nunca esquece.
Foram vinte e oito anos de auto-aversão moderada a grave. Engraçado pensar nisso agora, porque não havia me dado conta da real extensão do meu self-disgust até bem recentemente.
Foi preciso aceitar as pequenas coisas mais inaceitáveis, os maiores medos e chafurdar, dar um mergulho de cabeça na perspectiva do fracasso - real ou iminente - para encontrar algum senso, mesmo que pequeno de amor por mim mesma.
E uma vez engatilhado o processo, não há meios de interrompê-lo. Há, sim, sem dúvida, os retrocessos.
Aliás, sou ótima com eles. Acabei de me ver entremeada em um deles, bem interessante - e doloroso, como não podia deixar de ser. Bem ao meu estilo netuniano de sempre, sem consciência, com muita culpa e escapismos exemplares.
Lua em peixes conjunta à lua natal. Um delícia, só que não.
E aqueles que se perdem em cardumes difusos, falsos sensos de si - paradoxalmente reais até que se prove o contrário - mares profundos e torvelinhos emocionais (mas não vão à praia em circunstância alguma) e só encontram algum retalho de si em copos de vodka com limão ou em versos (graças aos extintos deuses do olimpo), me entendem. ou não.
Aula-magna-de-desconhecimento-completo-e-perplexo-daquilo-que-se-é.
Foi isso. Um carnaval às avessas. Um-dinheiro-gasto-que-não-podia-gastar com fantasias lindas e um furor hipomaníaco com linhas, agulhas, fitas dupla-face, banana e capacidades recém-descobertas de transformar estrelas de lantejoulas douradas em bicos de angry birds, costurar vestidos e transformar um bule de porcelana em uma bolsa de confetes.
Apenas para obliterar, mascarar (esse sim o meu verdadeiro talento carnavalesco) a foliã que eu não sou.
Durante esses anos carreguei uma velhice em mim, envergonhada e reservada como a capricorniana que não aceitei ser. Constrangida por me sentir uneasy em multidões e completamente fora do meu elemento em lugares dos quais não pudesse fugir caso quisesse.
Essa velhice sempre teve suas contrapartidas reais e simbólicas. A seriedade excessiva mesmo na primeira infância, os primeiros cabelos brancos aos doze anos e os olhos empoçados aos vinte e dois.
O desconforto e a necessidade de ser qualquer coisa, exceto aquilo. Não é fácil se sentir com sessenta anos aos oito. Mas eles tentaram me tranquilizar. Professores, amigos, mãe e até astrólogos. "Quando você crescer vai se sentir melhor", "você tem a alma velha, mas isso não é necessariamente ruim", "capricornianos são assim mesmo, rejuvenescem com os anos"...
Trinquei os dentes e aceitei o desafio. Tentaria me divertir à força ao longo dos anos que viriam, e a diversão teria que ser aquilo que eu despejaria goela abaixo, de preferência com algumas doses de álcool batidas e acrescidas de gelo; seria quem eu quisesse ser, mesmo que para isso eu tivesse que perder de vista o que eu tivesse de melhor.
E me diverti. E honestamente não consigo mais saber a diferença entre o que foi genuíno e o que foi fingimento. Estou aprendendo a me acostumar com esse característica minha e chegando lentamente à conclusão de que não importa muito
"Um estoque de espelhos dobráveis e máscaras". Quando um se vai, já há outro preparado, nadadora medley em posição para o revezamento.
Descobri coisas interessantes a meu respeito nesta travessia que acreditei ser de mim a não-mim - e que agora tenho a impressão que se deu em sentido contrário, para a minha surpresa.
A primeira descoberta é que sou invariavelmente uma péssima atriz, mas tenho várias máscaras e a única pessoa que eu consigo efetivamente enganar é a mim mesma. E isso tem um preço alto.
Reconhecer o meu ridículo foi importante esses dias. A imagem que não consigo esquecer, uma mulher surtada, semi-eufórica, olhando para as vinte e cinco fantasias em cima da cama, sem ter tomado café ou almoçado direito. Sem sequer parar para se perguntar que tipo de carnaval queria ter.
Foram vinte e oito anos de auto-aversão moderada a grave. Engraçado pensar nisso agora, porque não havia me dado conta da real extensão do meu self-disgust até bem recentemente.
Foi preciso aceitar as pequenas coisas mais inaceitáveis, os maiores medos e chafurdar, dar um mergulho de cabeça na perspectiva do fracasso - real ou iminente - para encontrar algum senso, mesmo que pequeno de amor por mim mesma.
E uma vez engatilhado o processo, não há meios de interrompê-lo. Há, sim, sem dúvida, os retrocessos.
Aliás, sou ótima com eles. Acabei de me ver entremeada em um deles, bem interessante - e doloroso, como não podia deixar de ser. Bem ao meu estilo netuniano de sempre, sem consciência, com muita culpa e escapismos exemplares.
Lua em peixes conjunta à lua natal. Um delícia, só que não.
E aqueles que se perdem em cardumes difusos, falsos sensos de si - paradoxalmente reais até que se prove o contrário - mares profundos e torvelinhos emocionais (mas não vão à praia em circunstância alguma) e só encontram algum retalho de si em copos de vodka com limão ou em versos (graças aos extintos deuses do olimpo), me entendem. ou não.
Aula-magna-de-desconhecimento-completo-e-perplexo-daquilo-que-se-é.
Foi isso. Um carnaval às avessas. Um-dinheiro-gasto-que-não-podia-gastar com fantasias lindas e um furor hipomaníaco com linhas, agulhas, fitas dupla-face, banana e capacidades recém-descobertas de transformar estrelas de lantejoulas douradas em bicos de angry birds, costurar vestidos e transformar um bule de porcelana em uma bolsa de confetes.
Apenas para obliterar, mascarar (esse sim o meu verdadeiro talento carnavalesco) a foliã que eu não sou.
Durante esses anos carreguei uma velhice em mim, envergonhada e reservada como a capricorniana que não aceitei ser. Constrangida por me sentir uneasy em multidões e completamente fora do meu elemento em lugares dos quais não pudesse fugir caso quisesse.
Essa velhice sempre teve suas contrapartidas reais e simbólicas. A seriedade excessiva mesmo na primeira infância, os primeiros cabelos brancos aos doze anos e os olhos empoçados aos vinte e dois.
O desconforto e a necessidade de ser qualquer coisa, exceto aquilo. Não é fácil se sentir com sessenta anos aos oito. Mas eles tentaram me tranquilizar. Professores, amigos, mãe e até astrólogos. "Quando você crescer vai se sentir melhor", "você tem a alma velha, mas isso não é necessariamente ruim", "capricornianos são assim mesmo, rejuvenescem com os anos"...
Trinquei os dentes e aceitei o desafio. Tentaria me divertir à força ao longo dos anos que viriam, e a diversão teria que ser aquilo que eu despejaria goela abaixo, de preferência com algumas doses de álcool batidas e acrescidas de gelo; seria quem eu quisesse ser, mesmo que para isso eu tivesse que perder de vista o que eu tivesse de melhor.
E me diverti. E honestamente não consigo mais saber a diferença entre o que foi genuíno e o que foi fingimento. Estou aprendendo a me acostumar com esse característica minha e chegando lentamente à conclusão de que não importa muito
"Um estoque de espelhos dobráveis e máscaras". Quando um se vai, já há outro preparado, nadadora medley em posição para o revezamento.
Descobri coisas interessantes a meu respeito nesta travessia que acreditei ser de mim a não-mim - e que agora tenho a impressão que se deu em sentido contrário, para a minha surpresa.
A primeira descoberta é que sou invariavelmente uma péssima atriz, mas tenho várias máscaras e a única pessoa que eu consigo efetivamente enganar é a mim mesma. E isso tem um preço alto.
Reconhecer o meu ridículo foi importante esses dias. A imagem que não consigo esquecer, uma mulher surtada, semi-eufórica, olhando para as vinte e cinco fantasias em cima da cama, sem ter tomado café ou almoçado direito. Sem sequer parar para se perguntar que tipo de carnaval queria ter.
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