Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita
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segunda-feira, 19 de maio de 2014

"orientações a um cavaleiro no ano do cavalo"

não há retorno
          deste ponto da estrada


da minha língua
ouve-se o retinir
metálico do teu dorso
desperto de montaria
e o eco vagido de cabritos
degolados

não há retorno
           deste ponto:

tome
aquelas
rotas de viagem
        repletas de penugem

para
      onde jurei
      nunca mais
voltar

sábado, 10 de maio de 2014

Juniper

essa criatura cancelada
cruzará um continente amanhã
[abrindo uma grota
na mulher calada sentada à beira
da península do livro]
tingirá com cores de chumbo
a vontade de passear por campos
de pólvora
e abrirá a outra,
[aquela que se move plumosa,
a voz melíflua enchendo
as páginas até a margem]
com chave
de fenda
e
tesouras retinindo


não cabem condolências no momento
apenas aves

e giros
suaves
em torno do címbalo

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Dois poemas para Rita

Por Leonardo Marona




"não é a sua gata"

não é a sua gata, sou eu
o urso polar que você salva
dos predadores com bravura,
sou eu este urso com os pelos
congelados e os olhos inundados
da substância licorosa do amor.
as infecções são o nosso laço,
nossos rins, anéis ácidos de casamento.
o mar por qual navegaste em sonho
era verde pálido como o mar de inverno.
máquinas de abater montanhas situavam
a nossa mais rara permissão de abate.
sugar pie, não é a sua gata, sou eu
o urso polar que você salva
dos predadores com bravura,
ritmados e mais perto do acerto,
seguem os versos batidos a calo,
é preciso uma máquina de abater,
a força para erguer um urso polar,
a sereia põe suas brânquias a prêmio.
no fim brincaremos com baleias e golfinhos.

(meados de abril, sem data definida)



"declaração de amor no dia do trabalho"

silenciam nas ruas as dores do meu ventre.
participo em cálculos de uma infecção cardeal.
minha garganta é estreita para o acúmulo de teus olhos.
sonho com maçãs e mulheres de três metros e sumo.
há uma perda que precisamos assumir para dar início.
somos a onda arrasada por um quilômetro de pedra.
preciso dessa pontuação, do contrário seria feliz.
seu eu soubesse ao menos tocar trompete e usasse um lindo chapéu.
no teu segredo envolverei uma banheira com uma árvore falante.
as alturas recentes apenas atestam um adorável problema.
as tripas dissolvem a química do mais novo despertar.
são confusas as combinações desse constante prazer.
foges pelas águas com quatro patas, foges do tiroteio.
nos cruzamos em naufrágio e haveremos de, juntos, chegar à ilha.
e as granadas do baixo ventre germinarão em duplos.
considere isso uma carta de amor escrita no dia do trabalho.


(Rio, 1 de maio, 2014)






terça-feira, 6 de maio de 2014

incidente de bodas

beibe,
meu paletó de bolinhas azuis
escolheu dependurar-se no cabide
mais honesto do seu armário;
os sapatos quadrados de flapper
esconderam-se debaixo das suas
inúteis gavetas de cuecas,

e já avisaram: não partirão.

ainda é cedo, meu bem,
mas não temos recursos,
tampouco a resistência
dos laicos vãos para
combater a cólera
dos objetos -

antevejo um anel incognoscível
[ainda pouco visível a olho nu]
cingir-se derradeiramente
no meu dedo esquerdo 

- o dedo que conduz ao coração.

aquela coroa de hortênsias
pende, suspensa no ar,
com véu, auréola sorrateira,
prestes a deitar sobre mim
chuvas de arroz e riscos
de tinta azul e raios
                 e raios
                   e raios
. as sutis monções que desem-
bocam no sul
de um país imaginário
nos trazem bênçãos: elas vêm
em tríades de cobre, chumbo

e outros metais nobres
que a-pa-re-ce-rão
intocáveis, imensuráveis,
em nome dos objetos
sólidos e dos que nunca o serão

virão também aqueles que representam
        os noivos e noivas gasosos
                 que outrora mergulharam 
                        de livre escolha
                               ao olho ígneo do furacão.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Aula de francês com Lucrécio.

Como reverter um coup de foudre? - ela pergunta, exasperada.

Não é reversível, docinho - ele responde sorrindo.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O que você diria a Rita? -bot






Eu quero mais terra e fogo,

mas os sonhos continuam marítimos


Quero uma redundância

mais dispersa que duna














escandida em intervalos,

Quizás, quizás, quizás, quizás, quizás.













She was born under the ibises









sempre soube:
a verdade, ela mora no segundo andar.

perdi o meu anel de saturno ainda pequena,
brincando no mar.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Contos de verão

Quarenta graus aqui na tijuca.
Vi agora há pouco no termômetro quando atravessei a praça para comprar sorvete de doce de leite com torta alemã. Já houve dias piores, pensei. 
Não sei se foi o gosto apressado do sorvete derretendo no calor intenso ou uma memória corporal despertada pelas longas gotas de suor escorrendo pelo meio das costas, mas eu me lembrei de outros janeiros, de outras paisagens.
Me lembrei de uma infância passada dentro da água. E com ela, vem o estranhamento que quase sempre acompanha a memória de coisas líquidas no meu caso, principalmente quando me dou conta da minha precária familiaridade atual com o mar e as quedas d'água, água doce ou salgada. Já fui fascinada por tudo o que é marinho e submerso, mas agora, mesmo nas poucas vezes em que me lanço na água, vejo os meus movimentos parcos e pesados, a resistência invencível e retorno sempre à superfície, pelas leis do empuxo e do medo. 
Sim, o medo. Eu me lembro sim de sentir medo, mas não da água gelada ou dos peixes que beliscavam a minha pele quando eu ficava completamente imóvel, apenas flutuando, quase sem respirar. Mas algo do fundo me assustava, a pressão da água sobre a cabeça me forçava a interromper o mergulho e eu voltava rápido para respirar.

O verão costumava ser a minha estação preferida. Férias, natal, aniversário, primos, praia e sorvete. Um crescente irresistível para a minha expectativa de criança de cidade pequena, ainda que litorânea. A casa cheia, os almoços longos e tardios, os sorveteiros na porta de casa e o vento zumbindo pelas telas de mosquito e venezianas azuis. Todos os dias de janeiro, uma rotina doce se desenrolava: um relógio interno infalível que me punha de pé antes do resto da casa para tomar às pressas um leite com nescau e pão com manteiga já de biquíni e me lambuzar de filtro solar e hipoglós e partir para a lagoa. Atravessava a rua olhando "atentamente para os dois lados", como fora ensinada, na ponta dos pés para evitar os frutinhos pontiagudos das casuarinas pela areia e dava início ao que parece ser o único ritual que eu daria conta de criar na minha vida. 
Primeiro a temperatura. Nada se comparava à água ainda gelada do começo da manhã  e eu me ajustava rapidamente, como se pecilotérmica. Depois a caça das cochas em espiral, que eu chamava de "castelinhos", para levar para as aulas de arte do colégio, depois que  acabassem as férias. Por último, mais tarde, já com os primos e tios acordados, alimentados e devidamente protegidos do sol, dávamos início a tentativas tenazes de capturar alguns peixes. Quase nunca conseguíamos apanhar algum, mas quando um peixe mais velho ou doente deixava-se prender pelas nossas armadilhas de sacolas plásticas e redes, fazíamos a festa e prometíamos amar e cuidar dele pelo resto de sua curta vida. Não entendíamos porque ele sempre estava morto ou explodia antes do final do dia, pois trocávamos a água com diligência e o alimentávamos com migalhas de pão. Nunca havia nos ocorrido que peixes de água salgada não sobreviviam exatamente bem na água da bica, mesmo que num balde grande e espaçoso. Ainda levaria alguns anos para que entendêssemos melhor as leis da osmose.
Havia um grande intervalo que começava quando o sol ficava quente demais para as crianças e éramos obrigados a sair da água, criando uma espera interminável pelo almoço, que preenchíamos enquanto secávamos as roupas de banho na varanda, lambendo o sal que restava no corpo e brincando de fazer exóticos ensopados com as papoulas do jardim da minha avó. Depois do almoço provavelmente já estávamos suficientemente secos para assistir desenhos animados no sofá plastificado - uma artimanha típica das casas de veraneio - espiando com o rabo do olho o relógio de parede apontar para o quatro, quando o sol estaria baixo de novo para finalmente voltarmos para a lagoa. O final da tarde trazia sempre alguns concursos, ou de cambalhotas, bananeiras no fundo da lagoa, ou de castelos de areia, que eu quase sempre vencia ou ainda, nas semanas de lua cheia, quando o avô criava uma competição para o neto que primeiro avistasse a lua despontando no horizonte, na direção da praia oceânica. O prêmio era um sorvete de duas bolas no bar do Jesus, atrás de casa. Mas todos nós ganhávamos sorvetes de qualquer forma, o que estranhamente não desencorajava qualquer espírito esportivo nosso. Já enrugados e com os lábios partindo-se de sal, alguém vinha da casa para nos buscar, pois era hora de tomar banho e lanchar. E novamente as disputas das crianças pela ordem do chuveiro e a aposta de quem ficaria pronto primeiro para assistir os seriados japoneses de luta que já iriam começar.

A memória é essa coisa estranha, fio que revela mais emaranhados do que novelo. 
Já sabia intuitivamente que sorvete se ligava em mim à ideia de lar e água salgada, mas não tinha certeza do motivo da minha recusa ao mar desde então. Fico sob a impressão de que interditei um oceano perdido e que vou passar a minha vida tentando reconstruí-lo, até finalmente poder me mover na água com leveza e graça de novo.