sob
nuvens
densas e poligamas
a noite
emerge contigua
a cidade talhada em bronze
- suas ruas de cobre,
pedrarias e cetim;
quarteiroes inteiros de marfim -
desaparece
meu rosto gelado
se recosta
ao retalho envidracado
de ceu
pela janela obliqua
observo
a palida lua de dezembro
minguar
sob um espesso veu
a bordo,
no curso de sete longas horas
adormeco
por alguns breves momentos
mas logo acordo
com aeromocas turquesas
e escarlates
anunciando o desjejum,
despejando
na desordem da bandeja
fumegantes xicaras de cafe
e chocolate
sem cuidado algum
espio,
enfim,
ainda aninhada em
caxemira de Turin,
o estreito fio de sol
se esgueirar dourado
pela janela da manha
costurando um velha cidade:
espirais inclinadas e antigas
torres alemas
diante dos meus olhos
nublados
de sono e avela.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
sábado, 11 de dezembro de 2010
De Lilith a Ísis
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Desalento
Não há palavra que chegue.
Só oceano
descomunal.
'Acontece que na tua ausência
o mar é quem sonha
em mim
mar que faz de ti o leite
que a noite em mim
derrama...'
("Acontece que na tua ausência" - de Lee-Li Yang para Duarte Galvão)
"O vento sul
vai
abrindo sul-
cos na alma e
reabrindo flancos
no mar.
(...)
Desmedido nada é
tão mar
quanto nua
a alma.
Nada é
tão genuíno e
tão frágil
quanto
a vida.
("Poemas do vento sul" - De Duarte Galvão para Lee-Li Yang
Virgílio de Lemos - Fragmentos de um discurso heteronímico amoroso
Só oceano
descomunal.
'Acontece que na tua ausência
o mar é quem sonha
em mim
mar que faz de ti o leite
que a noite em mim
derrama...'
("Acontece que na tua ausência" - de Lee-Li Yang para Duarte Galvão)
"O vento sul
vai
abrindo sul-
cos na alma e
reabrindo flancos
no mar.
(...)
Desmedido nada é
tão mar
quanto nua
a alma.
Nada é
tão genuíno e
tão frágil
quanto
a vida.
("Poemas do vento sul" - De Duarte Galvão para Lee-Li Yang
Virgílio de Lemos - Fragmentos de um discurso heteronímico amoroso
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Cinema mudo

Ainda me lembro da ocasião em que Cora se decidiu. Seria atriz - ela me disse, contemplando embevecida os saltimbancos multicoloridos e acalentando com doçura, eu pensei, os luminosos prospectos de uma longa vida nos palcos ou nas telas, ainda antes de completar sete anos de idade.
- Quero fazer isso, mamãe! - ela disse impaciente, segurando firme a minha mão enquanto descíamos a escada do teatro da escola, entre diversos outros pais apressados e suas respectivas crias.
- Isso o quê? - eu perguntei, divertida com o seu ar de seriedade e a agitação úmida que percebi em sua voz.
- Isso! - e apontou o dedo trêmulo para os atores que, ainda fantasiados, abraçavam crianças na saída do teatro - algumas muito pequenas, assustadas e chorosas, suplicando aos pais com olhares de completo terror que viessem em seu socorro.
- Você quer ser atriz, Cora? - eu a encarei, mas ela já havia se soltado da minha mão, correndo desabalada em direção ao gato da peça, que dava piscadelas charmosas enquanto minha filha se agarrava contumaz em seus quadris felpudos e rajados, sem o menor constrangimento.
Penso que a partir daquele momento, ela passou a compartimentar com particular intensidade as imagens e os mais minuciosos gestos vistos em cena, guardando-os dentro de si. Não apenas dessa peça em especial, eu quero dizer, mas de todas as outras, mais até: de tudo o que ela assistia enquanto espectadora, platéia ou mesmo como simples figurante, transeunte, pois como era boa Cora em ficcionalizar as situações mais rocambolescas, partindo dos acontecimentos mais banais e corriqueiros. Sabia extrair - como fazia? - com precisão cirúrgica o núcleo dramático de uma conversa; recontava histórias, sempre acrescentando versões, desdobrando vozes inauditas.
Então nos anos que se seguiram começaram os cursos e as oficinas. E os espetáculos, os testes de elenco, os castings.
Eu assistia a lenta transformação que foi se operando na pequena. A primeira mudança que lhe notei foi um apagamento paulatino dos seus trejeitos infantis. Não foi sem espanto que observei a expressão original de Cora - tão profunda e meditativa - se esvaziar para em seguida ser preenchida por um espectro de diferentes gradações de olhares, de vozes, tons e gestuais, que passaram a se alternar. Compreendi naquele momento que minha filha estava experimentando.
Sentia seus grandes olhos castanhos, cingulados - os olhos da minha mãe - me examinando e, capturada em minha distração, eu sabia que ela me imitava em segredo, levando o pai às gargalhadas.
Ela experimentava. Diferentes personas, sotaques longínquos e tragédias gregas. Espelhos dobráveis e uma polifonia de vozes que ela orquestrava ainda tão pequena, como se soubesse o que estava fazendo. E sabia, ela me assegurou tempos depois:
- Eu sinto que há algo em mim. - e pausou, olhando subitamente as próprias mãos - Não sei explicar, mãe. Mas é um espaço vazio. E desse espaço vazio, sei que há lugar para algo falar, existir. Como se qualquer pessoa pudesse existir, falar em mim, através de mim...
- Falar, Cora? - eu indaguei, confusa - Mas do que é que você está falando?
Ela suspirou decepcionada:
- Você não entende.
Ofendida, eu retruquei, embora de fato não houvesse entendido naquele momento:
- Se você explicar melhor, talvez eu entenda.
Me lançou ela um olhar de holograma, vago e impreciso, como se desistisse de algo e falou bem baixo:
- Não tem nada para explicar.
Isso aos dezesseis. Nessa época, já podíamos assistir Cora retornar para casa pestanejante ou deslizando como uma vamp dos anos vinte ou mesmo errática, falando a língua verborreica e catártica do teatro do oprimido.
Difícil era prever.
Aos dezenove ela inaugurou a fase do cinema. Não teve dificuldade para se adaptar. Modulou o timbre da sua voz, aparou as arestas dos gestos mais arrojados, diluiu a imponência das passadas e a amplitude da sua respiração. Trocou sem dor as cenas, os atos pelos quadros e planos-sequência e quando estava prestes a completar vinte e um anos, começou a trabalhar em um papel que afirmou ser o papel de sua vida.
Tratava-se de um filme especial, sem dúvida. De fato, Cora esteve soberba do primeiro momento até o final. Não havia um diálogo sequer em todo o filme e os atores se comunicavam através de uma linguagem cifrada, pantomímica, cuja chave de compreensão era, no entanto, deixada ao alcance de nós, espectadores.
Não tenho certeza, contudo acredito que talvez por isso, pude perceber o momento exato em que se passou o silêncio derradeiro. Compreendi por fim, naquela cena final, quando Cora emprestava à sua personagem a potência expressiva de mil sóis, desvelando camadas e camadas de densidade humana difíceis de externar, o que é que falava por ela. Isto é, do que é que minha filha falava quando tentou me explicar o que a movia para a cena, para o palco.
Compreendi do que se tratava justamente no momento em que, o que quer que fosse, se calou. Foi com uma tristeza serena, porém não com surpresa que, depois daquele filme, escutei Cora declarar que jamais atuaria novamente.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Humor do dia: londrino
Com possibilidade de pancadas de chuva no fim do dia.
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Sério. Rita is stuck. Somewhere between the gaps of her mind, she minded to much.
A girl with kaleidoscope drizzling eyes - ela constatou, pesarosa.
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Sério. Rita is stuck. Somewhere between the gaps of her mind, she minded to much.
A girl with kaleidoscope drizzling eyes - ela constatou, pesarosa.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Do sincretismo religioso em minha infância
Cresci numa casa ladeada por flamboyants frondosos, com um grande quintal de mangueiras e abacateiros - e até uma pezinho de siriguela, se me lembro bem. No interior desta casa, mais precisamente no corredor estreito que levava aos quartos principais, minha vó cultivava dúzias e dúzias de santos católicos talhados em madeira mal pintada, pendendo numerosos em um altar doméstico aonde um séquito de velas dos mais diversos tamanhos e cores eram acesas noite e dia, com diligência e sem falta.
Eram figuras quase grotescas essas imagens - que muito me assustaram, e se me perguntam, assustam até hoje quinze, vinte anos depois.
Me lembro destas estatuetas escuras, espectrais e consigo até trazer à memória alguns de seus nomes e histórias. Histórias essas que minha avó tentava me esclarecer, mas que eu não demonstrava muito interesse na época para além da curiosidade infantil esperada para a minha idade.
Curioso, na verdade, é que mesmo às custas de algum esforço mnêmico, não me lembro de eu mesma ter assistido qualquer missa na minha infância ou mesmo tenho qualquer recordação de minha avó saindo de casa para este fim.
Ainda mais curiosas eram algumas das amigas dessa mesma avó, que a conduziam muitas vezes nas noites de sexta-feira completamente vestida de branco e com um largo turbante guardando os cabelos tingidos e ainda belos e que permaneciam elas mesmas silenciosas e enigmáticas, diante das minhas perguntas. E quando mordida, eu questionava por que não podia ir junto, elas me respondiam que não era lugar de criança e que quando eu crescesse entenderia. Essa mesmas amigas me recriminavam, já crescida, por ter cortado os meus cabelos, avisando que 'as minhas ciganas' não apreciariam nada, nada o fato. As mesmas amigas que sorriam com malícia matreira quando eu estranhava os pratos de frutas, flores e cerveja deixados em cantos estratégicos da casa e do quintal, incensando de jasmim acre e uvas azedas a cozinha e todo o jardim e que também deitavam as cartas para minha avó nos momentos mais aflitivos.
A verdade é que cresci e ainda não entendo algumas coisas.
Não entendo o dia em que fui levada para tomar 'um passe' num centro espírita kardecista, aos oito anos, por ocasião de uma malcriação minha. Não compreendo até hoje o que minha tia quis dizer quando afirmou que eu tive aos onze 'um princípio de incorporação por um espírito obsessor'. Lembro apenas das mãos e pé dormentes e a sensação aterrorizante de estar virando cambalhota sem sair do lugar.
Talvez não seja esclarecer muito, se eu ignorar o fato de um de meus tios ter sido alvo de forte chacota por parte dos outros irmãos - incluindo a minha mãe, que em breve se tornaria ironicamente uma simpatizante do budismo - quando perto da puberdade ele decidiu fazer parte da igreja messiânica Perfect Liberty. Meus tios contam que faziam revezamento entre si às gargalhadas para que não deixassem passar incólumes os rituais de 'saudação do sol' e as orações feitas em voz alta, na língua japonesa, dentro da casa de minha avó.
Não posso sequer explicar o meu profundo amor por mitologia grega, surgido aliás contemporâneo ao meu aprendizado de leitura, de forma que junto com os gibis da turma da mônica, aos seis anos eu lia os mitos de criação do universo e de todas as coisas, pegando os pesados volumes de mitologia da minha mãe - que eu mal conseguia segurar, diga-se de passagem - e quebrando a minha cabeça para decifrar as agruras de Psiquê e Eros e o rapto de Perséfone, que eu considerei aliás fascinante, ainda que bastante traumático.
Não posso deixar de rir das minhas tentativas de criar oferendas à deusa Deméter, pedindo aos sete anos de idade por fertilidade e fartura para a minha vida futura.
O que eu realmente gostaria é rastrear o momento em que deixei de acreditar. Ou pelo menos vislumbrar se, de fato, eu acreditei em algum momento.
Eram figuras quase grotescas essas imagens - que muito me assustaram, e se me perguntam, assustam até hoje quinze, vinte anos depois.
Me lembro destas estatuetas escuras, espectrais e consigo até trazer à memória alguns de seus nomes e histórias. Histórias essas que minha avó tentava me esclarecer, mas que eu não demonstrava muito interesse na época para além da curiosidade infantil esperada para a minha idade.
Curioso, na verdade, é que mesmo às custas de algum esforço mnêmico, não me lembro de eu mesma ter assistido qualquer missa na minha infância ou mesmo tenho qualquer recordação de minha avó saindo de casa para este fim.
Ainda mais curiosas eram algumas das amigas dessa mesma avó, que a conduziam muitas vezes nas noites de sexta-feira completamente vestida de branco e com um largo turbante guardando os cabelos tingidos e ainda belos e que permaneciam elas mesmas silenciosas e enigmáticas, diante das minhas perguntas. E quando mordida, eu questionava por que não podia ir junto, elas me respondiam que não era lugar de criança e que quando eu crescesse entenderia. Essa mesmas amigas me recriminavam, já crescida, por ter cortado os meus cabelos, avisando que 'as minhas ciganas' não apreciariam nada, nada o fato. As mesmas amigas que sorriam com malícia matreira quando eu estranhava os pratos de frutas, flores e cerveja deixados em cantos estratégicos da casa e do quintal, incensando de jasmim acre e uvas azedas a cozinha e todo o jardim e que também deitavam as cartas para minha avó nos momentos mais aflitivos.
A verdade é que cresci e ainda não entendo algumas coisas.
Não entendo o dia em que fui levada para tomar 'um passe' num centro espírita kardecista, aos oito anos, por ocasião de uma malcriação minha. Não compreendo até hoje o que minha tia quis dizer quando afirmou que eu tive aos onze 'um princípio de incorporação por um espírito obsessor'. Lembro apenas das mãos e pé dormentes e a sensação aterrorizante de estar virando cambalhota sem sair do lugar.
Talvez não seja esclarecer muito, se eu ignorar o fato de um de meus tios ter sido alvo de forte chacota por parte dos outros irmãos - incluindo a minha mãe, que em breve se tornaria ironicamente uma simpatizante do budismo - quando perto da puberdade ele decidiu fazer parte da igreja messiânica Perfect Liberty. Meus tios contam que faziam revezamento entre si às gargalhadas para que não deixassem passar incólumes os rituais de 'saudação do sol' e as orações feitas em voz alta, na língua japonesa, dentro da casa de minha avó.
Não posso sequer explicar o meu profundo amor por mitologia grega, surgido aliás contemporâneo ao meu aprendizado de leitura, de forma que junto com os gibis da turma da mônica, aos seis anos eu lia os mitos de criação do universo e de todas as coisas, pegando os pesados volumes de mitologia da minha mãe - que eu mal conseguia segurar, diga-se de passagem - e quebrando a minha cabeça para decifrar as agruras de Psiquê e Eros e o rapto de Perséfone, que eu considerei aliás fascinante, ainda que bastante traumático.
Não posso deixar de rir das minhas tentativas de criar oferendas à deusa Deméter, pedindo aos sete anos de idade por fertilidade e fartura para a minha vida futura.
O que eu realmente gostaria é rastrear o momento em que deixei de acreditar. Ou pelo menos vislumbrar se, de fato, eu acreditei em algum momento.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
hoje
as palavras feridas de morte
entregam os pontos
mais uma quinzena se passou
e centenas de frases abatidas
páginas e páginas de batalhas
perdidas
e nem sequer um conto
entregam os pontos
mais uma quinzena se passou
e centenas de frases abatidas
páginas e páginas de batalhas
perdidas
e nem sequer um conto
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