Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita
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sábado, 21 de maio de 2011

Le diable

Uma bela curadoria do escritor Daniel Pellizari (@cabrapreta) em:

http://toutpourlamour.tumblr.com/post/5181122302

quarta-feira, 11 de maio de 2011

ditos e [entre]ouvidos por aí (parte 1)

i- dos olhos meus

cansada e com fome, encerro a minha jornada de quarta-feira no supermercado mais próximo de casa, ávida por um lanche que me enchesse além do estômago, os olhos.
a pressa, sempre maior em mim do que a sofisticação me obriga a ir para o caixa com apenas alguns pãezinhos de sal quentinhos, recém saídos do forno.
a caixa, uma mulher inusitada, jovem e robusta, de cabelos moicanos bem curtos e alguns piercings pendurados no rosto, sorri para mim enquanto pesa os pães transpirando dentro do saco. De repente, me encara com uma atenção inédita e pergunta:

- esses olhos são seus mesmo?

o que responder? me lembrei da chapeuzinho, do lobo e bobices do tipo. pensei em dizer algo espirituoso. achei melhor não.
acabei balbuciando, surpresa:

- sim...? - de quem mais seriam, eu pensei aturdida.

eis que ela os mira mais profundamente ainda e prossegue:

- parecem de gato - e faz uma pausa quase dramática - eles brilham no escuro, sabia?

não, não sabia.
paguei e saí.
com os olhos que nem sabia que tinha.

ii - das metamorfoses diárias

meu tio conta que andando uma vez com meu priminho - uma criança bastante agitada de cinco anos - pelo shopping center de sua cidade, foi de súbito impedido de prosseguir ao perceber que o filho não andava mais ao seu lado.
não era a primeira vez que o perdia de vista, ele contou.
parou e olhou ao redor. lá estava ele. atrás de si, rolando no chão emporcalhado do primeiro piso. e também não era a primeira vez, ele acrescentou.
apreensivo que se tratasse de mais uma birra, ele tentou cortá-la pela raiz, buscando o menino pelo braço, fazendo-o se levantar.
ao que meu primo, resiste e retruca, impaciente:

- peraí, pai. só mais um pouquinho... - é que eu vou me transformar num tigre.

iii- dos acenos distantes

presenciei na semana passada um encontro entre desconhecidos, um homem e uma mulher que há muito não se viam. um quase encontro talvez, pois entre ambos havia a distância uma rua e duas calçadas. e algumas árvores.
o rapaz, bem mais jovem que a moça em questão retribuiu ao aceno simpático dela depois de alguns instantes. como que para justificar talvez a sutil demora ele lhe gritou por sobre os ombros, pois do outro lado da rua ela já se afastava:

- eu quase não te reconheci, hein! - me lembro do exato momento em que pensei que esse comentário poderia tranquilamente invadir as tênues fronteiras do tato social.

quando ele não esperava mais um resposta - e eu tampouco -, já cruzando a esquina, ela acrescenta alto suficiente para que ele e eu ouçamos:

- É, eu sou assim mesmo... uma camaleoa!

presença de espírito, babe. de onde eu venho, é assim que eles chamam.

terça-feira, 10 de maio de 2011

.....inversossimilhança.....

esta noite sonhei com a serpente dourada
que abocanha a própria cauda

no estreito estreitinho
umbigo do sonho, estanco um grito

constato
com os olhos debruçados para dentro
o fiapo devastado de linguagem

que se inclina sobre si mesmo


a única verdade revelada
[não há verdade, Rita]
é a não-dita


o atributo de tudo quanto é verde, verde

em espiral infinita

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Outono excessivo

na geografia impossível em que me situo,

um fio de luz brilha na deriva solvente do escuro






e meus continentes movem-se de lugar

O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes

deliciosos excertos flaubertianos:

1846

Entre os que se fazem ao mar há navegadores que descobrem novos mundos, somando continentes à terra e estrelas aos céus: eles são os mestres, os grandes, os eternamente brilhantes. Depois já os que cospem terror por suas portinholas, que saqueiam, enriquecem e engordam. Outros saem à procura de ouro e seda sob céus estrangeiros. Outros, ainda, pescam salmão para o gourmet ou bacalhau para o pobre. Eu sou o obscuro e paciente pescador de pérolas, que mergulha nas águas mais profundas e volta com as mãos vazias e o rosto azulado.
Alguma atração fatal me arrasta para os abismos do pensamento, para aqueles recantos mais íntimos que nunca cessam de fascinar o forte. Hei de passar a vida apenas contemplando o oceano da arte, onde outros viajam ou combatem; e, de vez em quando, hei de me entreter mergulhando em busca daquelas conchas verdes e amarelas que ninguém há de querer. Assim, guardá-las-ei para mim e com elas recobrirei as paredes da minha tapera.

1846

Sou apenas um lagarto literário aquecendo-me o dia inteiro ao grande sol da Beleza. Isso é tudo.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Ontem

como se aguardasse uma tempestade, ela saiu recobrindo todos os espelhos da casa com as antigas toalhas bordadas de sua avó.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Dos personagens de cinema

Quando adolescente quis muito ser uma personagem de Tim Burton, gótica, cheia de constrastes e irreal.
Obviamente não cheguei nem perto.

Em seguida flertei com a Nouvelle Vague e suas mulheres multifacetadas e encantadoras. Também não me coube o papel.
Quis ser voluptuosa e felliniana; neuroticamente inteligente e cômica sob o olhar de Woody Allen. Mas me faltaram os peitos e o espírito.

Desejei ainda o charme onírico e a loucura cafona de Lynch, mas a minha loucura era real demais. A beleza um quê demoníaca de Pollanski exerceu um certo apelo, porém carrego comigo uma covardia que é incompatível com os abismos de alma nela implicados.

Fugi de Bergman enquanto pude. Mas ele estava lá. Eu estava lá, na verdade. Enquadrada.
Não adiantou tentar escapar.
O desnudamento das minhas vísceras, o esgarçamento dos meus limites. Retratados.
E se essa constatação não me causa qualquer prazer, digo alto e claro: troco todas as minhas camadas psicológicas e disposição metafísica, toda a minha intensidade emocional pela simplicidade de uma comédia romântica.
Uma heroína com um simples final feliz.