Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

[i]Resoluções do ano novo da serpente

O primeiro returno de saturno a gente nunca esquece.

Foram vinte e oito anos de auto-aversão moderada a grave. Engraçado pensar nisso agora, porque não havia me dado conta da real extensão do meu self-disgust até bem recentemente.
Foi preciso aceitar as pequenas coisas mais inaceitáveis, os maiores medos e chafurdar, dar um mergulho de cabeça na perspectiva do fracasso - real ou iminente - para encontrar algum senso, mesmo que pequeno de amor por mim mesma.

E uma vez engatilhado o processo, não há meios de interrompê-lo. Há, sim, sem dúvida, os retrocessos.
Aliás, sou ótima com eles. Acabei de me ver entremeada em um deles, bem interessante - e doloroso, como não podia deixar de ser. Bem ao meu estilo netuniano de sempre, sem consciência, com muita culpa e escapismos exemplares.
Lua em peixes conjunta à lua natal. Um delícia, só que não.
E aqueles que se perdem em cardumes difusos, falsos sensos de si - paradoxalmente reais até que se prove o contrário - mares profundos e torvelinhos emocionais (mas não vão à praia em circunstância alguma) e só encontram algum retalho de si em copos de vodka com limão ou em versos (graças aos extintos deuses do olimpo), me entendem. ou não.

Aula-magna-de-desconhecimento-completo-e-perplexo-daquilo-que-se-é.
Foi isso. Um carnaval às avessas. Um-dinheiro-gasto-que-não-podia-gastar com fantasias lindas e um furor hipomaníaco com linhas, agulhas, fitas dupla-face, banana e capacidades recém-descobertas de transformar estrelas de lantejoulas douradas em bicos de angry birds, costurar vestidos e transformar um bule de porcelana em uma bolsa de confetes.
Apenas para obliterar, mascarar (esse sim o meu verdadeiro talento carnavalesco) a foliã que eu não sou.

Durante esses anos carreguei uma velhice em mim, envergonhada e reservada como a capricorniana que não aceitei ser. Constrangida por me sentir uneasy em multidões e completamente fora do meu elemento em lugares dos quais não pudesse fugir caso quisesse.
Essa velhice sempre teve suas contrapartidas reais e simbólicas. A seriedade excessiva mesmo na primeira infância, os primeiros cabelos brancos aos doze anos e os olhos empoçados aos vinte e dois.

O desconforto e a necessidade de ser qualquer coisa, exceto aquilo. Não é fácil se sentir com sessenta anos aos oito. Mas eles tentaram me tranquilizar. Professores, amigos, mãe e até astrólogos. "Quando você crescer vai se sentir melhor", "você tem a alma velha, mas isso não é necessariamente ruim", "capricornianos são assim mesmo, rejuvenescem com os anos"...

Trinquei os dentes e aceitei o desafio. Tentaria me divertir à força ao longo dos anos que viriam, e a diversão teria que ser aquilo que eu despejaria goela abaixo, de preferência com algumas doses de álcool batidas e acrescidas de gelo; seria quem eu quisesse ser, mesmo que para isso eu tivesse que perder de vista o que eu tivesse de melhor.

E me diverti. E honestamente não consigo mais saber a diferença entre o que foi genuíno e o que foi fingimento. Estou aprendendo a me acostumar com esse característica minha e chegando lentamente à conclusão de que não importa muito
"Um estoque de espelhos dobráveis e máscaras". Quando um se vai, já há outro preparado, nadadora medley em posição para o revezamento.

Descobri coisas interessantes a meu respeito nesta travessia que acreditei ser de mim a não-mim - e que agora tenho a impressão que se deu em sentido contrário, para a minha surpresa.
A primeira descoberta é que sou invariavelmente uma péssima atriz, mas tenho várias máscaras e a única pessoa que eu consigo efetivamente enganar é a mim mesma. E isso tem um preço alto.

Reconhecer o meu ridículo foi importante esses dias. A imagem que não consigo esquecer, uma mulher surtada, semi-eufórica, olhando para as vinte e cinco fantasias em cima da cama, sem ter tomado café ou almoçado direito. Sem sequer parar para se perguntar que tipo de carnaval queria ter.