Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Manhãs perdidas

Saldo semanal:

- dois fracassos respeitáveis, não acalentáveis sequer pelo arcano XVII e XIX do tarô - e nem pelo Dois e Copas e nem pelo Cavaleiro de Copas;
- uma colônia bacteriana afastada definitivamente do nariz junto com o piercing de argola agourento;
- alguns km pedalados, andados, corridos e transportados;
- poucas, poucas páginas escritas;
- duas unhas quebradas;
- 4 horas negativas de sono;
- uma paixão avassaladora e súbita - por café;
- ausência completa de confiança e fé na vida e em mim mesma;
- assassinato da minha heterônima Ana Olívia Tomaz;
- dois centímetros a mais de cintura;















current status: ninando o monstro para ver se ele adormece.

sábado, 26 de maio de 2012

todo lirismo será castigado

Na medida em que ele revelava o que sabia dela, ela reconhecia que aquela radiografia de alma era, sim, precisa. Em toda a sua inteira derrisão.
Preferia, antes, que ele lhe tivesse adivinhado tão bem o caráter por amor e não por essa argúcia tão mal-disfarçada de desprezo.

Por seu temperamento trágico, ela sempre desejou ser lida em sua dimensão dúbia, oblíqua, em sua apoteose feminina de direito.
Não precisou esperar muito. Ele lhe assegurou com perfeita concisão: Você desaparece, você sabe.
Ela sabia.
Ele havia apreendido com tanta facilidade o seu fading fotossintético de cada dia.
No entanto, como era de se esperar, os olhos símios dele não capturaram, exceto por uma centelha de relance, a poesia dela, isto é certo. 
Os dedos grossos, hirsutos, tatearam por entre as várias ausências e pelos silêncios agressivos dela, mas deslizaram, ignorando o movimento furtivo que se operava nela, no negativo daqueles mesmos silêncios.

Fora lida, ela admitiu para si mesma - mas não fora declamada, nem ouvida em seu particular ritmo, em absoluto.
Ele ignorava que, para cada pausa sua 

havia um espasmo lírico.


uma mulher inconclusa
toda ela fumaça aquarelável
e fuga


,que a cada pulsão gorgolejante
ela  logo adiante sucumbia


um pulmão sempre inflado
- vela içada ao vento

e o outro
diafragmado em covardia


....................................................................

Não, todo lirismo será castigado, a não ser que seja publicado.
 
Ou, ao menos, introduzido dentre o círculo de poetas locais.
Ele era portador da sua própria voz - que ela negava a custa de toda a sua retórica interna e externa -  a voz que, convicta (e invicta), declarava que 

nenhum escapismo será netuniano, até segunda ordem.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Bílis negra na boca

Essa dor é real? Sim, e pungente. Uma descida em queda-livre nos elevadores-de-parque-turístico-do- inferno, sem dúvida. Sou boa nisso.
Não posso, contudo, deixar de rir. De mim mesma, eu acho.

Rio com uma crueldade que me é estranha, mas tão real quanto a dor. Reprimo uma gargalhada ao observar a distância. Eu, os olhos desaguados, raiados de sangue, o coraçãozinho em frangalhos, a alma pesarosa, presa por um fio.
E ainda: pingando tinta marrom pela casa, ao migrar pia à pia, na peleja inacreditável de tirar a tinta de cabelo casting com um fio de água, antes de um estrago, de um naufrágio maior.

O meu sofrimento, afinal, pode ser real e pungente, não?
Tão real que pôde me deixar aparentemente surda ao zelador, que interfona, avisando com todas as letras que 'desligaria a água do prédio para um conserto em um apartamento do quarto andar'.

A verdade é que me questiono se não há nada mais real que esgotar a água encanada de pia em pia, até não restar uma gota. Os pingos de tinta marrom no assoalho assinam a pungência de lágrimas mais potentes que as minhas, eu acredito.

Uma toalha irremediavelmente manchada encerra o impasse interno e diz mais do que eu sou capaz.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

semi-haicai ou hi-fi?


A um príncipe russo

Cinco goles de vodka ao seu lado
e tudo se desmancha, se liquefaz.
Pérolas negras de rímel sob meus olhos alagados.
Rio e choro, bebi demais.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Veias azuis

Elas mal aparecem, Elisa - disse a mãe com enfado na sala de espera.

São a princípio reticulares, mas ainda não estão propriamente doentes... É a tez clara da sua pele que permite que o esverdeado seja visto a olho nu.
Olhe aqui - a médica apontou um caminho curvilíneo, quase invisível na parte traseira da coxa leitosa de Elisa e prosseguiu pacientemente- elas têm um grande potencial para se reintegrar à circulação do corpo. Não seria bom retirá-las neste momento. O procedimento pode prejudicar ainda mais a circulação.
Você não devia se preocupar com elas nos próximos 6, 7 anos - recomendou.
Mas diante do desolamento da menina de dezoito anos que tinha diante de si, a doutora ainda sugeriu algumas aplicações leves, só para prevenir microvasos em algumas regiões.

Elisa recusou e se levantou lentamente da maca aonde fora examinada, olhos baixos e ombros curvados.
Vestiu a meia para varizes sugerida pela tia avó - a contragosto da mãe, que falhara assim como a médica, em identificar qualquer vaso de cor suspeita em todo o aparelho locomotor inferior da filha - e partiu para casa com a mãe.
Mal não faz, Liana - assegurou a tia na época. Ninguém nunca foi preso por prevenir este tipo de coisa. Deixa a menina se cuidar! Ela não é nada como você, que nem as pernas depilava nessa idade!

Elisa não era como a mãe. Embora a semelhança fosse alardeada pela família e por aqueles de fora, Elisa não a reconhecia.
Talvez não fossem os traços redondos, bem feitos da mãe, a sua compleição clara e carnuda que garantia uma beleza notável para além da idade ostentada que Elisa rejeitasse.
Ela reconhecia que a aparência de musa renascentista (como bem dissera um rapaz de sua faculdade), com os longos cabelos anelados e escuros, a carnação macia e branca, todos eram uma herança genética de Liana, sua mãe.

Mas não se tratava disso.
A recusa não era da semelhança, veja bem. Elisa tinha dificuldade mais primitiva, uma dificuldade de apropriação. Apropriação do próprio corpo.
Sempre uma estranheza, algo invasivo e súbito.
Algo sempre a espreita. Algo que parecia fugir ao controle. Fosse uma pinta que numa bela manhã parecia ter migrado do antebraço para o pulso, fosse uma simples dor de estômago na páscoa.
Há alguns anos fora examinada por uma série de especialistas pois se queixava de que, por maior que fosse a dor sentida, não havia lágrimas disponíveis. Os olhos estavam demasiado secos, ela dizia.
Eliminadas quaisquer anomalias nos dutos lacrimais, constatou-se, por fim, uma leve disfunção na tireóide.
Elisa chorou de satisfação quando esta suspeita foi confirmada.

E agora as veias. Azuis, azuis, ela via.
Elisa sabia que já carregava uma grande bacia hidrográfica, que descia das diminutas nádegas aos calcanhares.
Era uma questão de dias. Um dia após o outro e lentamente apareceriam. Elas estariam lá, centenas de veias azuladas, verde-jade, escorrendo sem sangue pelas suas pernas.

Compreendia a médica. Não havia nada que ela pudesse fazer, sem dúvida.
Mas não podia esperar que as veias morressem diante de seus olhos, podia?
Sempre se considerou prevenida, compreendia a fundo as intrincadas relações entre causa e conseqüência.
Não seria surpreendida por um mapa fluviário que insistia em se imprimir em suas pernas. Daqui a cinco, seis anos? Não importava os anos.

O plano era bem simples. Elisa acreditava a simplicidade sempre incrementava as chances de sucesso de qualquer empreendimento.
Estudaria por alguns meses anatomia e fisiologia. A solução seria remover todas as veias que oferecessem qualquer risco de emergir na superfície quase translúcida da sua pele.
O primeiro desafio era memorizar quais eram as veias e quais eram as artérias - estas sim, auto-suficientes e pulsantes.
Ademais, foi fácil.
Recortou um grande pedaço de lona para forrar o chão do quarto, esterilizou seus objetos cirúrgicos: algumas lâminas de barbear do pai guardadas no armário do banheiro; uma pinça de sobrancelha para içar as veias inúteis; agulhas e linhas para costurar a pele no caso da incisão ser mais funda do que o planejado.
Levou até uma garrafa de uísque do pai, para tolerar a dor, se preciso. Mas duvidou que fosse necessário.
Ainda não havia procurado um médico por esta razão, mas a verdade é que se sentia mais e mais anestesiada a cada dia.

O álcool não apenas foi desnecessário, mas não é exagero insinuar que todo o procedimento pareceu encher Elisa de prazer.
Não havia dúvidas, ela demonstrava saber exatamente o que estava fazendo.
As meias circulatórias tiveram também a sua função. Cobriram os roxos e os cortes cobertos de linhas negras bordadas em ponto-cruz - a única prenda que lhe ensinou a avó Josélia antes de morrer três anos antes.
O processo de cicatrização foi assim escondido dos olhos alheios pelas meias sim, mas não a placidez de espírito que envolveu Elisa nos meses que se seguiram.
Estava menos curvada e cabisbaixa, mais corada e viçosa, seu corpo não dava sequer notícias do sangue que perdera naquela tarde. Todos concordaram que ela parecia bem e menos obcecada consigo mesma.

Difícil confirmar se a extração das veias comprou de fat0 um longo período de suavidade e paz para a moça ou, se apenas se constituiu como a primeira das "correções", tal como a própria Elisa se referia a elas.

Naquele mesmo ano viajaram todos à praia no verão. As cicatrizes não foram um problema, posto que Elisa fora meticulosa e asseada nos cuidados.
Eram praticamente imperceptíveis.
Passeando com a mãe e a irmã pela cidadezinha litorânea num final de tarde do final de dezembro, pararam numa lojinha que vendia biquinis e cangas, além de outras bugigangas afins.
Ao se mirar no espelho, experimentando um biquini azul, Elisa foi surpreendida. Apalpou a lateral das costas com angústia. Sentiu algo, algo que excedia o seu rígido contrato corporal.

Havia uma costela a mais no seu peito esquerdo.