Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

segunda-feira, 30 de junho de 2014

caranguejos de julho não andam para frente

aceitar a loucura serena,
o magma que brota
da síndrome das pernas inquietas.

[aquilo que não se pode ter, não se pode,
não se pode ter.
o que não tem volta,
e o lugar para onde sempre
se retorna,
tendo jurado nunca mais voltar]

há qualquer coisa de prodigioso
nos dentes trincados,
patas contritas e
nesta decisão vital tomada
em círculos.

sim, os gorgolejos esquivos
não evitam a catástrofe brutal
de uma vida ridícula;
não antecipam, ainda, a tragédia
de se conseguir exatamente
aquilo que se deseja.








sexta-feira, 27 de junho de 2014

a vida submarina das estátuas



se faz
de feixes de luz
em rochas
calcárias

e
ausências infantis
sob vastos
oceanos

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sobre o motivo dos aplicativos de tarefas e produtividade não darem certo comigo

a  tarefa
primordial
do dia
é irisar
os poemas
até a abrandar
a brasa

"a virada do ano chinês"

há quem contabilize
a passagem lenta dos anos
a quatro patas e dentes

[você sabe que sou dessas]

aprendi
que, fracionado pelo calendário lunar,
meu caldeirão de alças de jade
estampa milênios
de copas e espadas no peito - ainda que
um trigrama, um royal flush,
[ou outro trovão insolúvel]
não revolvam o nosso problema.

o fato é que coelhos ao molho pardo
não apetecem
ao apetite de meus morcegos;

e você continua resmungando
outros cardápios, frases azinhavres,
enquanto embalo galos de Chagall
e danço nua com tigres
hindus no ano do metal e do fogo.

me acusará de supersticiosa, percebe,
pois sabe que
consulto, nas primeiras
horas azuis da manhã,
o livro das moedas e varetas
e choro, despetalando tertúlias,
madressilvas,
que encurvam
as tuas escápulas em escarpas,
situando
teus cascos orientais de cavalo
em cordilheiras distantes
tibetanas, emudecendo-me de vez
o som do sobrevoo breve gutural,
que permanecerá bem,
ainda bem,
ainda na minha garganta,
por muitos longos anos.







terça-feira, 10 de junho de 2014

Ritinha Temporal*

[você],
que arrebata vertiginosa
morcegos do incêndio,
figura em espelhos baços,
com a mochila cheia de empáfia
e rimas brancas,
arruinou a minha vida
[por delicadeza].
ainda guardo no armário
seus estilhaços,
seu vestido de raposa,
a trança holandesa
na gaveta.
encaixotei por medo
a nossa criança estrelada
de mãos gretadas
sob a cama, mas eis que
um bater de asas, de repente
a reconstrói
inteira em fragmentos.
ouço o teu caráter difícil
de ciclone litorâneo
encrespando a superfície
dos cílios, a chuva de vento
a sacudir venezianas, abafando
seus gritos
entre os travesseiros.

*dedicado à personagem de José Louzeiro, Ritinha Temporal, que marcou a minha infância com morcegos, e uma estética protogótica audaciosa de uma típica plutoniana.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

ninando o monstro

pequenas amostras suaves
de inferno, preciosos cascos

me embalam
no ritmo da cantilena antiga
[tão minha conhecida]
de atabaques e alambiques
de pinga sintética

a melodia se repete
num crescente, frenesi
que promete fundo, mas
para retornar sempre ao mesmo ponto,

à mesma pausa,
imobilidade mórbida.
para onde jurei nunca mais voltar

um pedido educado:

que ninguém afirme nunca
que a loucura é outra coisa,
senão uma profunda ironia
do retorno, uma inevitabilidade circular
que ignoramos para seguir em frente
e de volta
e de novo.