Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

segunda-feira, 30 de março de 2015

"fechado para obra"

meteoritos no banheiro
machados rasuras
escombros à direita
paisagem com mar
ao fundo

no eixo
das pedras
meu rio
lambe
tuas rochas
feito espelho

"o primeiro assassinato"

você, o minúsculo ser, 
que deveria ter saído
por onde nunca deveria
ter entrado - 
aquela brecha, aquele
declive de assoalho.
por que não saiu?

de ti, resta apenas
alguma célula
entre o fogão 
e o armário;
algum suave indício
de sua breve existência
de camundongo,
você, com seu robusto
corpinho de roedor
ainda em desenvolvimento,
pelagem cinzenta baixa, 
obrigou-me a alcançar
uma velocidade sórdida
de que não me supunha 
capaz.

de ti resta
o pequeno corpo
terminando de respirar
            na calçada,
em mim - o golpe.
por que não saiu
quando teve chance,
pequeno estafermo?
sonoros equívocos
te custaram tanto - o pouco
                           que tinhas.
permanecem em mim 
                      o golpe,
os azulejos quebrados,
                  meteoritos
no chão do quarto:
provas irrefutáveis
               do crime.

"dos rumores que se instalam"

     não posso dizer que
  ignoro com seriedade
a consciência do medo
                nas gengivas
e a eletricidade que alimenta
o corpo venoso brutal
da vergonha porcamente
equilibrada nos joelhos.
          como é possível
que a despeito de tudo
         as gentes sejam?
que sejam com pavor,
e dentes caninos a mostra,
                 mas que sejam.
a mim, é impossível
deslizar com graça
por essa existência
de pequenos naufrágios
de impossibilidades rotundas
de quebra-mares.
ouço um fino assovio
              que assegura
o cativeiro de muitas feras
nos porões deste navio
        e sei dos rumores
instalados, pesando sobre
grossas cordas e velas içadas:
o coração batendo vivo
no fundo desta caixa.

sexta-feira, 20 de março de 2015

"tantra lessons na cozinha - no 1"





I -

        o aprendizado do 
lançamento de dardos:
                       o tempo
                       discorre 
sobre as boas estações,
        todas as melhores intenções,
   os furiosos arremedos em ponta
                                          de faca;
                                          o tempo
                            incorre em erros
          -  essa nuvem, por exemplo,
             não vai clarear.

II - 

primeiro
os talheres,
esses não quebram nunca
 por mais que os pássaros
                              pousem
                                  no fio
         e os gatos permitam,
         deus do céu,
         que eu cruze o portal
         do teu peito,
   há uma tragédia
   envolvendo  metais
   que não se vergam :
   uma brutal surpresa
   para quem confunde
   um afogamento 
                      de eras 
          com mergulhos
       rasos e torcicolos 
       existenciais.
       
[        onde estão 
as velhas carpideiras?   ]


III-

        aqui, 
senhores,
             o céu
   se precipita:
   o seu amor, 
  não o cante,
     decante-o,
       deixe-o ir
   como quem 
    convalesce
de uma longa
          espera,
- febre terçã -
e tem certeza
      da beleza
     aterradora
      dos olhos
 que insistem
nos coágulos

terça-feira, 17 de março de 2015

breve nota sobre o fogo



esta noite, torno-me 
antiga no mundo.
invoco o teu nome,
enxame de quadris

                         estreitos,
mar no início, fim e meio
em minha     caixa miúda 
        povoada  de emails.
essa pequena conjuração
ao teu nome de fogo: 
contemporânea,  con 
            tudo  milenar
que te traz    de novo
          como aparição 
              altissonante
holograma de carne
que vai de um ponto
                 ao outro,
do meu primeiro   sonho
                 à cosmogonia
do  s o m   e do  monstro. 
nesta noite,
nada se perde, 
aspiram-se homens 
          tão perdidos
que criam
pátrias nocivas 
em si mesmos;
que cres c e m     guelras 
                      sob a pele
e bocas em   seus dorsos;
        que sobrevivem
aos francos  tropeços
e cantam         por aí.

imploro por uma  clave
                          de sol
:  um dreno  prodigioso 
            para   secar
permanente  mente
 a minha respiração
             - um sopro.

esta noite, torno-me
um pouco 
a parte de você 
 que tenho  sido,
que tem sorvido
   o sexo  oculto,
      mas intacto
chamuscado 
em  lótus aberto
          direto
da atmosfera 
     silenciosa
para  tuas mãos.


sexta-feira, 13 de março de 2015

"Dissolução" [hexagrama 59] ou "não há mais sapatos na escada"



para um morcego numa sexta-feira 13


é tempo de descansar os braços
e deitar-se sobre a toalha
vem, uma nova temporada
aproxima-se. os animais
                         retornam
                          de sua longa viagem
                              de sombra e vento
vem chegando a nevasca lenta
              com pés de nevoeiro
                                 voltados
                            para dentro

não há mais sapatos na escada.
como tudo haveria de passar, o amor 
passou, como tudo haveria de passar
                     o amor passou por aqui,
   mas não há mais sapatos na escada:
o que tenho entre os dedos enregelados
        é do tamanho de um punho escuro
                                   sem recuperação.

é tempo de abandonar os braços
e deitar-se sobre a toalha, sem sequer um
movimento.          vem uma nova temporada
que mata, mata e os animais retornam 
pouco a pouco    com suas leves patas
                   e seus insondáveis planos.

segunda-feira, 9 de março de 2015

"supernova"


              tenho contido
             entre os dedos
             uma resolução 
cabisbaixa ante o sono
eis que tenho evitado 
meus próprios olhos
em reflexos 
vidros polidos
cobrindo espelhos 
como se faz após uma morte
                    ou na iminência 
               de  tempestade
                 de raios 
      palavras setas
  galáxias em colapso 

em templos esvaziados  
                  panteões 
em abandono dorsal
um desterro nuclear



é preciso sobretudo saudar
        a colossal quantidade
        de massa 

   concentrada 
em um minúsculo ponto
                    no universo -
nada escapa
à tua força gravitacional
           nem mesmo a luz
nem o início 
      o sentido de todo amor  
            e do mundo inteiro
nem os artistas e os estetas
     os anjos com trombetas



isso tudo indica
que sofremos de
qualidades extintas    aladas 
estrelas em último    estágio
                         de evolução
é bem verdade que
                nêutrons
[tuas palavras agônicas]
não nos                  salvarão
pois        deste sistema binário
                      fechado fecundo
em órbitas    circulares
não se sai com graça
nem de graça



          perceba
   há um preço
 se  uma força 
         aplicada
  a uma massa
  de um corpo
em        r e p o u s o

  é  d e r i v a
tudo há de ser
  impermanência 
    :  m a r 
 do início
 ao   f i m

[ do  fim  ao
   i  n  í c i o ]
    dos tempos

quinta-feira, 5 de março de 2015

"demônio-meridiano"

beibe, meu fuso-horário
está errado, e ainda tenho
neve embargando os trilhos.
adormeço quando estás
acordando e sinto a vida
despertar enquanto pendem
pesadas suas pestanas de
índio sulamericano. quem sabe
o nosso moderno feitiço de áquila
urbano não encara um final melhor
do que esse daguerreótipo de euforia?
meu fuso-horário em permanente 
         descompasso, as estações
por aqui estão alinhadas com outros
hemisférios: a neve doce afunilando
os trilhos e um jet lag amoroso que
de tão incurável, fez-se congênito, pior:
hereditário. deixei passar o último
comboio de retorno solar. fui comunicada
que a translação tem coberto umas quatro,
cinco ruas apenas, os bairros arredores e o bairro
peixoto.               [quando é que foi que inverti 
                                   os meridianos?]
beibe, tem algo errado com o meu fuso-horário,
eu como nos horários certos e durmo como 
um anjo: oito horas a invejar os bebês contemporâneos
com TDAH. programo relógios para me darem sus-
tos em momentos diversos, mas tenho intervalos
amnésicos e sei que ando por aí, desacordada,
praguejando em línguas mortas. tem um problema
com o meu fuso-horário, um problema grave.
tenho milhas geográficas e uma vasta quilometragem
nos sapatos: nítida certeza de um cansaço ancestral
                                        de eras e círculos fechados.
beibe. meu. fuso-horário.
               está. quebrado.
eu salto continentes em cantorias, atravesso oceanos
                      a nado borboleta, mas permaneço aqui
na decalagem, esperando o resto do mundo acordar.