Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

"nota sobre um inferno astral em quase dezembro" ou "prove que não sou um robô"

hoje falo por mim,
                 eu 
                 [gargalhadas]
que suo gotas constrangidas
ao ouvir minha própria voz 
                        ao telefone
    como a de um estranho
falo por tudo aquilo que fala
por intermédio de um vermelho
        terroso violento atroz
                  como em
modigliani, como no abstracionismo russo
                                          que mata poetas 
                                em linhas geométricas

e por todos
aqueles que golpeiam os telhados
como gatos revolucionários

                         por toda e qualquer
                       sensação existencial 
[na fronteira anatômico-imaginária
entre boca do estômago e pulmões]
por todo sentimento filosófico-existencial
de terreno baldio 
inviolável
selvagem como um poodle abandonado
                                                no parque
                         como uma abelha rainha 
                         presa    por um barbante


inauguro hoje com a ponta dos pés
             essa hospedagem ambígua 
   na casa número doze do zodíaco
onde é preciso prestar contas
                à esfinge moderna
                          com senhas 
              de letras e números
            e enigmas insolúveis

   "prove que você não é um robô"
            [   ] não sou um robô





prove 
que 
não 
sou 
um 
robô

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

"dos vulcões em miniatura"

   o poema está sempre na iminência
                    de uma parada perigosa
 enganchando-se à maneira do amor
                    ao fazer eclodir na pele



aquilo que inflama
        aceso

             e que





   com um estampido
                          logo
                   apaga-se

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

"notas sobre vida sem cata-rina"

eu chego em casa com a roupa de baixo amarrotada, um desalinho tão contundente e já tão meu, que só posso supor que vem de dentro, o figurino que se adere ao personagem indobrável, amorfo, eu.
a maquiagem de ontem disputando espaço facial com a maquiagem de anteontem. esses atavismos de delineador líquido e sombra verde água, uma sereia desaguada no meu rosto. algum rímel em sítios inapropriados. pele pegajosa, corpo lambido por um lagarto morno, climático. e o seu corpo, eu tenho ainda a impressão do tato que ele permitia à minha pele, a temperatura inapreensível, o corpo que não encontro mais nas garrafas, nem nos pratos, nem no balcão, sentado de pernas descuidadamente cruzadas, flertando com o barman, para o meu desespero.
eu me sento na cama chutando para atrás da cômoda os sapatos, ainda tonta dos quase dois litros de vodca, digerindo (mal) um kafta e uns tomates recheados no almoço (não me lembro mais da sua receita de arroz a piamontesa). tenho uma escultura capilar indicando a curva normal da umidade relativa do ar dos últimos dias e me lembro dos seus cabelos irrepreensíveis: a desordem mais perfeita de cachos no travesseiro e a primeira luz penetrando pela nesga da cortina para revelar a penugem alourada no contorno do teu rosto convulso adormecido, uma recessividade adorável que resistia nos teus genes, apesar da densa cabeleira escura, muito escura. sempre me perguntei o motivo de tua expressão tão tensa ao dormir, os demônios meridianos do teu sono. Me pergunto se a tua pequena cria também revolve os dedos dos pés até se acalmar, antes de fechar os olhos.
lembro com uma pequena fisgada de ressentimento do seu glamour embriagado, mesmo transpirando álcool por todos os poros, por dias a fio -- um metabolismo que nunca irei compreender -- você ainda parecia uma personagem trágica e incandescente no meu próprio filme e eu, um guaxinim com envelhecimento precoce.
você, o meu travesseiro para sempre intocado.


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'ca-ta-ri-na', cataruska, cata-lina, como eu faço para te avisar que a nossa casa (você pode nunca mais cruzar essa porta ou tocar, admirada, os azulejos hidráulicos que escolheu e me obrigou a comprar no cemitério dos azulejos na baixa da égua manca, a casa será sua, oncinha, sempre) tem sido palco de um estranho fenômeno. já tem meses que abelhas escolhem este apartamento para morrer. primeiro achei que fosse um evento qualquer, isolado. mas todos os dias surgem outras e mais algumas, entram pela janela da sala, pelo vão aberto da cozinha, deitam-se sobre o assoalho e morrem. no começo, eu catava seus corpos pequenos, listrados, e os punha numa caixinha sobre a mesa da sala, mas são tantas agora que as deixo como caem, no chão mesmo, como um mausoléu. E ando pelos cômodos, desviando destes corpúsculos, como num balé fúnebre que me lembra você.