Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

sexta-feira, 24 de julho de 2015

"mulher com vazio descansando" ou "branco com céu à esquerda"



me diga por favor
que não se trata de um desastre,
não importam os sonhos,
as enchentes e ventanias,
os copos transbordantes, o peito
                                          aceso.



estou toda
dobradiças e umbrais
desde a manhã,
tingida em branco cru, paisagem
com céu convoluto à esquerda.

mas isso não é um desastre,
                                é certo.
apenas indica 
que padecemos de 
qualidades extintas
como as dos pássaros
demasiadamente gordos
com seus ossos pneumáticos
incapazes de alçar voo

e desse amor indefensável
por coisas perigosas
: um ponto de ancoragem 
                ínfimo
entre a tua pele
e o meu desejo.

imagem: "mulher com vazio descansando", de Pablo Gargallo

quinta-feira, 2 de julho de 2015

"evil twin"

para a tua lua em gêmeos





me assusta a capacidade não domesticada
que tens de acender outros olhos; a parte
escura da tua língua estala ao meu lado
e o corpo relembra dolorido
a forma dos teus cascos
no dorso encoberto dos novilhos.
esse núcleo duro que te consiste
me aliena em diferentes criaturinhas afônicas
e eu cato tuas guimbas para que não sofras
represálias e não te possuo, não te possuo
nem um pouco, sequer conheço a origem 
do súbito suor nas tuas têmporas e os gestos
agudamente cirúrgicos - o aguilhão no teu discurso
apontando para mim.
como computar o que se subtrai? - sem que 
o apagamento encubra os olhos, a brasa docilizada
cessa e não te possuo, não te possuo sequer 
na memória dos dedos que seguram molhados
o copo de vodca no início dos tempos e o cigarro
que não se fuma nunca: esses pulmões que mal
se abriram gelados para o primeiro fôlego.

"pizarnik"





















o mar não tem dono em terra
            apenas até que
            abras o poema
e persistas: abras o poema,
até que o último náutilo pise
em tábua flutuante
               -  abre o poema.

                porque o mar
não tem dorso em terra
até que abras o poema.
porque não te possuo,
não te possuo nunca
até que abras o poema
e embora eu não te possua
é preciso que estejas aberta,
                                     


                        e o poema
fundamentalmente incompleto.
e a fenda a te percorrer inteira
como uma incisão de autópsia
e que dentro da fenda, onde
o coração fraqueja, você
                       estremeça
e ainda assim, abra o poema
até que seja outro,
que seja asa ou
secreção sem corpo.