Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Poema aeroplano

sob
nuvens
densas e poligamas
a noite
emerge contigua

a cidade talhada em bronze
- suas ruas de cobre,
pedrarias e cetim;
quarteiroes inteiros de marfim -

desaparece

meu rosto gelado
se recosta
ao retalho envidracado

de ceu

pela janela obliqua
observo
a palida lua de dezembro
minguar
sob um espesso veu

a bordo,

no curso de sete longas horas
adormeco
por alguns breves momentos

mas logo acordo
com aeromocas turquesas
e escarlates
anunciando o desjejum,
despejando
na desordem da bandeja
fumegantes xicaras de cafe
e chocolate
sem cuidado algum

espio,

enfim,
ainda aninhada em
caxemira de Turin,

o estreito fio de sol
se esgueirar dourado
pela janela da manha

costurando um velha cidade:
espirais inclinadas e antigas
torres alemas
diante dos meus olhos
nublados
de sono e avela.

sábado, 11 de dezembro de 2010

De Lilith a Ísis


supremo trabalho

- doce e esmerado -

de reunir os quatorze
pedaços de um homem
osíris esquartejado

e criar um deus.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Desalento

Não há palavra que chegue.
Só oceano

descomunal.















'Acontece que na tua ausência
o mar é quem sonha
em mim
mar que faz de ti o leite
que a noite em mim
derrama...'

("Acontece que na tua ausência" - de Lee-Li Yang para Duarte Galvão)

"O vento sul
vai
abrindo sul-
cos na alma e
reabrindo flancos
no mar.

(...)

Desmedido nada é
tão mar
quanto nua
a alma.
Nada é
tão genuíno e
tão frágil
quanto
a vida.

("Poemas do vento sul" - De Duarte Galvão para Lee-Li Yang

Virgílio de Lemos - Fragmentos de um discurso heteronímico amoroso

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Cinema mudo



Ainda me lembro da ocasião em que Cora se decidiu. Seria atriz - ela me disse, contemplando embevecida os saltimbancos multicoloridos e acalentando com doçura, eu pensei, os luminosos prospectos de uma longa vida nos palcos ou nas telas, ainda antes de completar sete anos de idade.
- Quero fazer isso, mamãe! - ela disse impaciente, segurando firme a minha mão enquanto descíamos a escada do teatro da escola, entre diversos outros pais apressados e suas respectivas crias.
- Isso o quê? - eu perguntei, divertida com o seu ar de seriedade e a agitação úmida que percebi em sua voz.
- Isso! - e apontou o dedo trêmulo para os atores que, ainda fantasiados, abraçavam crianças na saída do teatro - algumas muito pequenas, assustadas e chorosas, suplicando aos pais com olhares de completo terror que viessem em seu socorro.
- Você quer ser atriz, Cora? - eu a encarei, mas ela já havia se soltado da minha mão, correndo desabalada em direção ao gato da peça, que dava piscadelas charmosas enquanto minha filha se agarrava contumaz em seus quadris felpudos e rajados, sem o menor constrangimento.
Penso que a partir daquele momento, ela passou a compartimentar com particular intensidade as imagens e os mais minuciosos gestos vistos em cena, guardando-os dentro de si. Não apenas dessa peça em especial, eu quero dizer, mas de todas as outras, mais até: de tudo o que ela assistia enquanto espectadora, platéia ou mesmo como simples figurante, transeunte, pois como era boa Cora em ficcionalizar as situações mais rocambolescas, partindo dos acontecimentos mais banais e corriqueiros. Sabia extrair - como fazia? - com precisão cirúrgica o núcleo dramático de uma conversa; recontava histórias, sempre acrescentando versões, desdobrando vozes inauditas.
Então nos anos que se seguiram começaram os cursos e as oficinas. E os espetáculos, os testes de elenco, os castings.
Eu assistia a lenta transformação que foi se operando na pequena. A primeira mudança que lhe notei foi um apagamento paulatino dos seus trejeitos infantis. Não foi sem espanto que observei a expressão original de Cora - tão profunda e meditativa - se esvaziar para em seguida ser preenchida por um espectro de diferentes gradações de olhares, de vozes, tons e gestuais, que passaram a se alternar. Compreendi naquele momento que minha filha estava experimentando.
Sentia seus grandes olhos castanhos, cingulados - os olhos da minha mãe - me examinando e, capturada em minha distração, eu sabia que ela me imitava em segredo, levando o pai às gargalhadas.
Ela experimentava. Diferentes personas, sotaques longínquos e tragédias gregas. Espelhos dobráveis e uma polifonia de vozes que ela orquestrava ainda tão pequena, como se soubesse o que estava fazendo. E sabia, ela me assegurou tempos depois:
- Eu sinto que há algo em mim. - e pausou, olhando subitamente as próprias mãos - Não sei explicar, mãe. Mas é um espaço vazio. E desse espaço vazio, sei que há lugar para algo falar, existir. Como se qualquer pessoa pudesse existir, falar em mim, através de mim...
- Falar, Cora? - eu indaguei, confusa - Mas do que é que você está falando?
Ela suspirou decepcionada:
- Você não entende.
Ofendida, eu retruquei, embora de fato não houvesse entendido naquele momento:
- Se você explicar melhor, talvez eu entenda.
Me lançou ela um olhar de holograma, vago e impreciso, como se desistisse de algo e falou bem baixo:
- Não tem nada para explicar.
Isso aos dezesseis. Nessa época, já podíamos assistir Cora retornar para casa pestanejante ou deslizando como uma vamp dos anos vinte ou mesmo errática, falando a língua verborreica e catártica do teatro do oprimido.
Difícil era prever.
Aos dezenove ela inaugurou a fase do cinema. Não teve dificuldade para se adaptar. Modulou o timbre da sua voz, aparou as arestas dos gestos mais arrojados, diluiu a imponência das passadas e a amplitude da sua respiração. Trocou sem dor as cenas, os atos pelos quadros e planos-sequência e quando estava prestes a completar vinte e um anos, começou a trabalhar em um papel que afirmou ser o papel de sua vida.
Tratava-se de um filme especial, sem dúvida. De fato, Cora esteve soberba do primeiro momento até o final. Não havia um diálogo sequer em todo o filme e os atores se comunicavam através de uma linguagem cifrada, pantomímica, cuja chave de compreensão era, no entanto, deixada ao alcance de nós, espectadores.
Não tenho certeza, contudo acredito que talvez por isso, pude perceber o momento exato em que se passou o silêncio derradeiro. Compreendi por fim, naquela cena final, quando Cora emprestava à sua personagem a potência expressiva de mil sóis, desvelando camadas e camadas de densidade humana difíceis de externar, o que é que falava por ela. Isto é, do que é que minha filha falava quando tentou me explicar o que a movia para a cena, para o palco.
Compreendi do que se tratava justamente no momento em que, o que quer que fosse, se calou. Foi com uma tristeza serena, porém não com surpresa que, depois daquele filme, escutei Cora declarar que jamais atuaria novamente.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Humor do dia: londrino

Com possibilidade de pancadas de chuva no fim do dia.


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Sério. Rita is stuck. Somewhere between the gaps of her mind, she minded to much.

A girl with kaleidoscope drizzling eyes - ela constatou, pesarosa.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Do sincretismo religioso em minha infância

Cresci numa casa ladeada por flamboyants frondosos, com um grande quintal de mangueiras e abacateiros - e até uma pezinho de siriguela, se me lembro bem. No interior desta casa, mais precisamente no corredor estreito que levava aos quartos principais, minha vó cultivava dúzias e dúzias de santos católicos talhados em madeira mal pintada, pendendo numerosos em um altar doméstico aonde um séquito de velas dos mais diversos tamanhos e cores eram acesas noite e dia, com diligência e sem falta.
Eram figuras quase grotescas essas imagens - que muito me assustaram, e se me perguntam, assustam até hoje quinze, vinte anos depois.
Me lembro destas estatuetas escuras, espectrais e consigo até trazer à memória alguns de seus nomes e histórias. Histórias essas que minha avó tentava me esclarecer, mas que eu não demonstrava muito interesse na época para além da curiosidade infantil esperada para a minha idade.
Curioso, na verdade, é que mesmo às custas de algum esforço mnêmico, não me lembro de eu mesma ter assistido qualquer missa na minha infância ou mesmo tenho qualquer recordação de minha avó saindo de casa para este fim.
Ainda mais curiosas eram algumas das amigas dessa mesma avó, que a conduziam muitas vezes nas noites de sexta-feira completamente vestida de branco e com um largo turbante guardando os cabelos tingidos e ainda belos e que permaneciam elas mesmas silenciosas e enigmáticas, diante das minhas perguntas. E quando mordida, eu questionava por que não podia ir junto, elas me respondiam que não era lugar de criança e que quando eu crescesse entenderia. Essa mesmas amigas me recriminavam, já crescida, por ter cortado os meus cabelos, avisando que 'as minhas ciganas' não apreciariam nada, nada o fato. As mesmas amigas que sorriam com malícia matreira quando eu estranhava os pratos de frutas, flores e cerveja deixados em cantos estratégicos da casa e do quintal, incensando de jasmim acre e uvas azedas a cozinha e todo o jardim e que também deitavam as cartas para minha avó nos momentos mais aflitivos.
A verdade é que cresci e ainda não entendo algumas coisas.
Não entendo o dia em que fui levada para tomar 'um passe' num centro espírita kardecista, aos oito anos, por ocasião de uma malcriação minha. Não compreendo até hoje o que minha tia quis dizer quando afirmou que eu tive aos onze 'um princípio de incorporação por um espírito obsessor'. Lembro apenas das mãos e pé dormentes e a sensação aterrorizante de estar virando cambalhota sem sair do lugar.
Talvez não seja esclarecer muito, se eu ignorar o fato de um de meus tios ter sido alvo de forte chacota por parte dos outros irmãos - incluindo a minha mãe, que em breve se tornaria ironicamente uma simpatizante do budismo - quando perto da puberdade ele decidiu fazer parte da igreja messiânica Perfect Liberty. Meus tios contam que faziam revezamento entre si às gargalhadas para que não deixassem passar incólumes os rituais de 'saudação do sol' e as orações feitas em voz alta, na língua japonesa, dentro da casa de minha avó.
Não posso sequer explicar o meu profundo amor por mitologia grega, surgido aliás contemporâneo ao meu aprendizado de leitura, de forma que junto com os gibis da turma da mônica, aos seis anos eu lia os mitos de criação do universo e de todas as coisas, pegando os pesados volumes de mitologia da minha mãe - que eu mal conseguia segurar, diga-se de passagem - e quebrando a minha cabeça para decifrar as agruras de Psiquê e Eros e o rapto de Perséfone, que eu considerei aliás fascinante, ainda que bastante traumático.
Não posso deixar de rir das minhas tentativas de criar oferendas à deusa Deméter, pedindo aos sete anos de idade por fertilidade e fartura para a minha vida futura.

O que eu realmente gostaria é rastrear o momento em que deixei de acreditar. Ou pelo menos vislumbrar se, de fato, eu acreditei em algum momento.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

hoje

as palavras feridas de morte
entregam os pontos

mais uma quinzena se passou
e centenas de frases abatidas
páginas e páginas de batalhas

perdidas
e nem sequer um conto

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Jaula

balizada pelos limites do meu próprio corpo, congelo, estática em gesto infinito e inconcluído. espero, pousada no centro espiralar de uma incerteza magmática, tal qual a pantera de Rilke. apenas que não há uma vontade titânica a permanecer imobilizada. há somente a cratera, a grota brutal de que me aproximo, fronteiriça. os limites que testo e o rímel borrado que risca certeiro o meu rosto, que por sua vez desagüa feito poço, em cascatas dissolutas e desoladas de creme anti-rugas.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ao homem das mãos de trapézio

A você,
entrego o ouro inconfessável

o enigma de uma existência

nos braços arqueados e largos
aonde, com os dedos
deléveis tatuagens esbocei

eu pouso.

nas mãos de trapézio selvagem

me jogo

faço do átimo o meu picadeiro,
do silêncio, a respiração,
o instante certeiro

e sob a tutela atroz do seu olhar
me desnudo toda em pestanas
sem entremeios

o tigre ou a dama?
- você se pergunta
e se decide pelo primeiro -

na escuridão circense dos prodígios
tudo enfim se esclarece

eu o esclareço

vinte e cinco anos de eclipse
não podem, não podem ser desfeitos

você descobre, homem das mãos macias
e abismais
que eu fui promessa,
como muitas mais

que fui promessa não-cumprida,
como muitas mais.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Fome

Os dentes dela a baterem-se em duelo impõem uma contenção à língua que espreita, viperina, aguardando a aproximação de sua presa. Os olhos semi-cerrados, febris, pendem sobre os seus ângulos de tigresa e o peito em brasa sobe, encrespando-se de muda antecipação.
De súbito, ela salta - premida de desejo, resfolegando suavemente em uma elegância voraz de que só ela mesma é capaz.

enfim, a sobremesa.

.






"Direi que o rosa e o azul pastel fogem
à oposição do outro e do mesmo
e reforçam o enigma dos limites."

Virgílio de Lemos

22/10/2010

chuvas de incontida acrimônia
palavras solfejadas, despejadas
sem qualquer cerimônia

empoçam no meu quintal

das respostas atravessadas,
não-ditas e ainda assim
arrependidas, uma frase minha
se estilhaça afinal

não o alcança, por você ela passa

e congela no ar

ela permanece
estática e insular

em meio a silêncios medianos
e corrompidos pela peste

A distância é glacial, ártica, polar

das pontas dos meus dedos escapam
selos extraviados, espessos
e os beijos envelopados, eu guardo
e os esqueço

os dentes trincados calam forte o desejo
de dizer, de ouvir

de atravessar uma ponte
anoitecer com você

apenas dormir





quinta-feira, 14 de outubro de 2010

histeria cotidiana no fim de tarde

em tempos de surto pré-prova de mestrado, as palavras se fecham feito ostras.
não pronuncio. nada. há dias.

desestoquei um mundo delas nos últimos meses. e fugiram assustadas.
não as culpo.

mudas, elas ficaram.

me lembram as histéricas de freud. belas e indiferentes, convertendo tudo no corpo.
palavrinhas erotizadas percorrendo as bordas incontornáveis do corpo.
paralisando um braço aqui, criando uma tosse nervosa acolá.
invertendo a própria língua. e desviando o olhar.

eaminhalínguaenrola. nada.
não pro-nun-ci-o.

o coração pulsando no estômago. o estômago escalando os nós da garganta à procura de ar. algo. algo definitivamente fora do lugar.
a voz, um fiapo. um bal-bu-ci-o.

agora me lembro sim. de umas palavras.
a mais dissimulada manifestação de histeria que já passou por mim. foi no ano passado.
era um embuste. meu, diga-se de passagem. havia um convite. assim, meio enviesado. enganchado entre os versos, à minha própria revelia. a escapulir. sim. arremessado por mim, e cuja autoria não reivindico. e ainda desminto. favor, não insistir.

aí vai.

só um minuto.

aí vai [enrubescida], a celebração. a prova cabal da minha própria histeria e desfaçatez. o convite sorrateiro que eu fiz e não reconheci. o verdadeiro motivo da minha viuvez. as palavras que torceram o seu sentido. aquelas danadas. lá vem de novo a emboscada.
era uma vez...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A solidão dos números primos



Dirigido por Saverio Costanzo, o longa italiano "A solidão dos números primos" é, na verdade, uma adaptação do livro homônimo do jovem escritor Paolo Giordano, de apenas 28 anos e já ganhador de dois dos prêmios literários de maior peso na Itália: o Stregga e o Campiello (recebeu menção honrosa).
O filme, que teve exibição em algumas salas no festival do Rio, tem previsão para ser lançado ainda em 2010 e
tem a atriz Alba Rohrwacher escalada para viver a personagem Alice adulta e o ator Riccardo Scarmarcio para encarnar o atormentado Mattia. O roteiro do longa-metragem foi adaptado em parceria com o próprio Giordano. Ao lado, a foto do escritor.


O filme traz um narrativa entrecortada, com várias elipses temporais e flashbacks, e que aos poucos, vão dando contorno à história de Alice, uma jovem desengonçada e manca, com um passado traumático e de Mattia, um brilhante rapaz, que guarda consigo um segredo pernicioso. Os dois personagens se encontram e se desencontram ao longo dos quadros, e seguem suas vidas por caminhos áridos, por vezes tortuosos e auto-destrutivos.

O ritmo da primeira metade transcorre de maneira mais fluida, pois o retrato que é feito pelo diretor sobre o difícil universo infantil no qual se inserem Mattia e Alice é bastante comovente. As cores são belas, os atores jovens e mirins bem expressivos e a câmera tem uma precisão epidérmica, aproximando-se na tentativa de captar as nuances das densas relações familiares e dos conflitos subjetivos que estão em jogo.

O terço final de "A solidão..." peca por uma quebra de ritmo: as sequências se tornam mais longas e arrastadas e os personagens perdem um pouco da carga expressiva que os marcara até então. Mattia e Alice parecem um tanto anestesiados diante do rumo descarrilado de suas existências. Ela, uma fotógrafa com um casamento desfeito, perigosamente anoréxica e ele, um físico premiado, sem qualquer espécie de vida pessoal.

Dois números primos divisíveis apenas por um e por eles próprios.














segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Tempo de desencaixotar I

Abrindo o meu fotolog semi-falecido, acho este texto de 02 de novembro de 2007.

Um texto manco, típico daquela época de prosear poeticamente. Não sei se estou bem curada disso não, aliás.

[Só me dei conta que doisdenovembro é dia dos mortos agorinha. Enfim]:

Ela levanta de uma noite de hálito quente, um contínuo abafado.
Acorda suada, e para além dos lençóis grudados, da camisola que abrasiva, invasiva se encosta, enroscando-se contra o corpo, ela acorda e, de fato se levanta.
Ela levanta, mas ainda não, ela tropeça, manca e as paredes tonteiam-se. O mundo ainda não tomou o lugar devido de sempre.
Há algo fora do lugar; as paredes não estão firmes, ondulam e se curvam, como numa mesura.
E esse chão? Esse chão não estava aqui ontem - ela pensa.
Ontem havia chão. E hoje, o que há senão uma horizontalidade estranha e árida, tacos, apenas tacos. Um tanto sujos os tacos, e frestas, e talvez algumas pulgas, e restos.

Os móveis. Os móveis não estão no lugar - ela tateia com mãos longas e inábeis por entre o que até então lhe era familiar.
E nesse exato momento, momento de escova de dentes e água no rosto, momento em que um banho frio se insinua como um bálsamo inócuo, mas ainda, quem sabe, uma espécie de alívio, o espelho sugere um sorriso branco, espumoso e olhos apertados. E olheiras profundas.
Então ela descobre que hoje a tristeza marcou território, marcou os olhos e encurvou os ombros.

Apenas isso, acordou triste.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Em defesa do desvio do olhar






às vezes
é perigoso olhar.




Em nome das mulheres pretensamente tímidas (eu mesma, um exemplar que enrubesce vez por outra), defendo a arte da esquiva do olhar.
Mulheres tímidas sim, que recebem bem o calor de olhos pousados sobre si, que ousam até, a passos cautelosos sempre, e que dissimulam a própria irreverência escopofílica com os desvios, as sinuosidades ofídicas de um olhar que se refrata em viés. Que escapa ao outro.

Falo, veja bem, de um direito inalienável de ser arredia aos olhos alheios.

Justifico.

Existe poucas maneiras tão potentes de capturar, enredar algo ou mesmo alguém quanto através do olhar. Há quem destrua, há quem seja demolido por um desses, ouvi falar.

Mas nem tanto, nem tão pouco. Não falo de feitiçaria ou magnetismo.
Falo mesmo do desvio, não da fuga. O que me refiro é o olhar que mira, que contempla, que se assusta e que se ausenta, por decisão.

Aqueles que sabem do que falo, sabem que há sempre o perigo do desmascaramento, quando se trata dos olhos. Um olhar ao mesmo tempo pode desvelar ou encobrir, pode contar histórias e desnudar as palavras mais encapeladas, peça por peça, em seu traje completo a passeio.

Ser olhada sempre esconde o risco





de retribuir o olhar.






Créditos das imagens: Tara McPherson

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

sobre uma vivência de penúria extraordinária

na companhia de uma gata no cio adormecida (sem metáforas), a verdade é que contemplando possibilidades lúgubres aqui no abafamento tijucano do meu quarto e soslaiando a perspectiva de um fim de semana falido [é sempre preocupante quando ainda na quarta-feira se constata o precoce desaparecimento do dinheiro], eu chego a algumas conclusões.

é preciso procurar algumas alternativas. explorar diferentes potenciais. arriscar, sabe? nem só de psicólogas mafiosas e psicanalistas de araque [como fui gentilmente chamada essa semana] se fazem as ritas. afinal, são precisamente tais momentos penosos, momentos cruciais e edificantes, de nos confrontar com as limitações mais frustrantes, que conhecemos os trunfos, os ases na manga. os recursos pessoais ocultos.

creio que quanto a isso, não se trata do momento de cultivar aquela modéstia saudável, isto é, aparar as arestas do ego em benefício de uma aceitação social superficial. em absoluto. acredito que estou me dirigindo à crista do turning point da minha própria vida. é hora então de assumir as minhas [im]potencialidades e não-vocações seriamente. chega de negligenciar ou minorizá-las; é chegada a vez de encará-las de frente e investigar suas reais oportunidades de lucro.

vejamos.

fazendo um levantamento das minhas habilidades latentes (e também as mal-aproveitadas), confesso ter me surpreendido. são bem mais numerosas do que eu supunha.

bem, descobri que organização e senso prático, infelizmente, não constam entre elas. portanto, toda a idéia era: 1) mapear esses talentos inutilizados e 2) buscar-lhes uma aplicação rentável em seguida.

missão nº 1 cumprida. eis o resultado da minha auto-investigação:

[por uma licença poética/didática não fiz distinção entre as habilidades, os talentos e as facilidades. ah, a missão nº 2 foi cumprida na medida do possível, dadas as tensas configurações do mercado no momento]

- é possível perceber, evidentemente, que possuo qualidades investigativas inequívocas. penso, portanto, que estou apta a ingressar no mundo detetivesco. apesar de não contar com experiência, a verdade é que tenho vasto conhecimento sobre a literatura e dramaturgia da área, sobretudo autores como Christie e Conan Doyle e também peças midiáticas como CSI, Without a trace e Cold Case. além, é claro de ter desenvolvido a capacidade de compreensão da mente criminosa e perversa durante longos cinco anos de faculdade de psicologia.

- sou uma dubladora habilidosa. com ênfase em cabritos, ovelhas, gatos (filhotes, gatas no cio e felinos irascíveis) e fanhos. com este último grupo, já realizei trabalhos de intérprete e tradutora.

- sou uma razoável intérprete de purrtugueish de Purrtugal. com sotaque anasalado do Porto.

- tenho amplo domínio da arte da quirologia e quiromancia, de forma que há quase dez anos decifro mãos de amigos, desconhecidos em aeroportos e também namorados, em momentos etílicos ou descontraídos.

- jogo tarô e cartas de baralho há quase doze anos. interpreto mapas astrais e tenho conhecimentos rudimentares de sinastria amorosa. atenção: NÃO trago pessoa amada em três dias.

- a dança exótica e burlesca não está fora de cogitação, pois tenho dois anos de dança do ventre e na adolescência ainda, fui iniciada por uma sacerdotisa nas artes pompoarísticas.

- graças a uma estranha fascinação pela Romênia [por algum misterioso motivo que ainda desconheço], adquiri um extenso conhecimento sobre a vida de sua família real. ênfase na vida das princesas Jleana e Vitória Melita.

- e para terminar, corôo esta lista com a minha mais recente descoberta. um novo e interessante nicho de práticas artísticas. me refiro à declamação de poemas em enfermarias psiquiátricas. extremamente rentável, diga-se de passagem.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

...

migrando para a superfície das coisas



eu busco o tom exato,
o timbre preciso




que me faça vibrar

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A boa dormida

Encapsulada

na couraça quase impenetrável
da minha pele,
em lenta,
lentíssima voragem,

rolo colinas de lençóis amarelos de algodão.



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Da minha janela cerrada espreitam mil sons.



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Na horizontalidade oca de travesseiro, ouço tudo
ouço sobretudo aquilo que não vejo

cigarras obesas e morcegas grávidas silvam
e arpejam...
e cospem caroços de goiabas azedas
no entreabrir-se do meu portão.

Ouço o fervilhante murmúrio
de uma cerimônia oriental de casamento

com grilos da sorte
a celebrar

os bons augúrios
aos pinotes

esticando as bordas do momento.

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Entremeada
em microfibras,
em crisálida
de almofadas
e edredon

inspiro
e ouço o doce balbucio
das crianças da vizinhança

a ressonar em leves suspiros
de leite e baunilha,
toda a infantil pujança

dos sonhos preciosos
que precisarão de

mais de uma vida para recordar.

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E no instante de mergulhar,
no preciso momento
em que esgarço com um bocejo

o tecido benfazejo do sono,

ouço ainda

a pele
respirar

aliviada


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e algo meio que brota

do nada

em direção
ao sol da manhã

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sábado, 4 de setembro de 2010

Presente

para você



que insiste
em me convencer
que está
de partida



deixei
algo



no fundo falso
da sua mala desaparecida


despachei
dobrado em confins
de clara renda


e atado por
laços imaginários
de grossa seda


o beijo de despedida



ele vem com
sabor e cheiro,
e textura



e também um pouco
de tempero





sem esquecer



o guia
de sobrevivência
gravitacional




ele salta, portanto



em caso
de despressurização
ou de saudade letal





percebe?
eu o programei
para colar-se



à sua boca



e servir de bote,
de fôlego






se houver risco





ou





perigo de morte




terça-feira, 31 de agosto de 2010

Pequenos [a]casos austerianos

I- Veja bem, eu tenho um pseudônimo. E hoje, no melhor estilo Paul Auster, decidi - coisinha inquieta que sou - investigá-lo. Ou melhor, investigá-la.
Digitei os caracteres e pronto. Lancei no google.
Metade perplexa e metade aliviada, encontrei-a.
Várias respostas. Nome e sobrenome no espaço virtual. Profissão e formação acadêmica completa. Até a foto.

Eis que agora, um pouco ansiosa, eu não posso deixar de aguardar o momento de ser encontrada também.





II- De todas as coisas que eu não quis ser, de uma, nunca, por mais que tentasse (na maioria das vezes nem isso) consegui me desvencilhar.
Fui teimosa desde o momento em que decidi nascer à revelia da minha própria mãe, um mês antes do previsto e três dias depois de sua indisgestão natalina.
Assenti, por fim, em coroar numa noite escaldante de dezembro, às custas de uma enfermeira mordida por minha mãe e com a 'ajuda' de um fórceps. E ainda vim ao mundo em hora indefinida, no momento impreciso em que um dia se torna outro, de forma que me registrar não foi tarefa fácil. Nasci na hora zero e no minuto zero.

Sim, fui teimosa esses dias ainda, quando insisti com um interlocutor feroz (ainda que bem-intencionado) entre dores agudas em todos os ossos do meu rosto congestionado, que embora todo o quadro indicasse uma forte sinusite, eu consultaria não um otorrino, que seria a opção mais coerente, mas um clínico geral, inofensivo aos meus ouvidos como eu acreditei até o último momento.
Foram quatro as tentativas de marcar uma consulta. Aparentemente todos os clínicos do meu convênio resolveram por bem descansar seus brancos e imaculados sapatos nas soleiras de suas respectivas casas de praia, pois de quatro, três haviam saído de férias.
Consegui agendar um horário ingrato, bem cedo pela manhã, com uma médica desconhecida, dra. Silvana Corinto. Perto da minha casa, pensei, buscando um certo consolo para o fato de que teria que madrugar para conseguir ser atendida ainda naquela semana.
Anotei o endereço direitinho na minha agenda - um hábito que tenho cultivado nos últimos tempos a fim de parecer organizada pelo menos a mim mesma - e no dia marcado, segui para a consulta, muito, muito cedo.
O prédio era conhecido, já passara em frente diversas vezes, e eu apertei tranquilamente o andar no elevador panorâmico do edifício comercial. Sala 903. Nada difícil de encontrar, pois o prédio embora grande tinha placas bem nítidas sinalizando as direções em cada andar. Sala 903 à direita, as setas me assinalavam.
E lá estava eu diante da sala 903, apalermada, encarando por alguns longos instantes uma placa médica que insistia em dizer:

Dr. João Carlos Venâncio - Otorrinolaringologista - CRM: xxxxxxxxx

Nenhum sinal de Dra. Silvana Corinto. Nem no andar, nem no prédio.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Das preferências




A lua

Artigo 1 - A minha? Peixes, é claro.
O que significa que se eu não derramar algumas lágrimas sofridas e incontidas em foro íntimo e sonhar com lagos especulares; praias azul-turquesa; golfinhos, tubarões e sereias, de vez em quando (algumas saudáveis vezes por mês), fico doente. Literalmente.
Artigo 2 - Ah, sim, prefiro o escapismo ao sufocamento. Portanto, não é de todo improvável que os senhores encontrem a minha pessoa em estado ébrio de consciência em bares e festas, como qualquer nativa lunar típica de água.

Parágrafo único: É sempre grande a possibilidade de eu uivar nas noites de lua cheia, a minha lua.

Os animais domésticos

Artigo 1: Gatos são a realeza incontestável na minha casa. Peixes também são bem-vindos. Confesso que por sadismo conjectural, considero ainda experimentar colocá-los juntos para brincar um dia.
Artigo 2: Cachorros são muito queridos também. Mas na casa dos outros.

Parágrafo único: passarinhos engaiolados são entediantes.

Os chocolates:

Artigo único: Sacrílega (como já fui chamada) ou não, chocolate branco é MUITO melhor.

Parágrafo único: Talento branco com passas e grãos, da garoto, é o melhor chocolate do universo. Não tem belga, suíço ou o que seja que lhe barre (e olha o pseudo-chiste). Nham.

Os transportes coletivos

Artigo 1: Metrô é detestável. Ser ensardinhado numa lata-falante-que-avisa-a-próxima-estação não pode, eu acredito, compensar uma suposta rapidez de trajeto. Janelas que desembocam no nada subterrâneo me enchem de uma tristeza sem nome.
Artigo 2: Arrisco sempre um engarrafamento pela mera chance de olhar pela janela. Ônibus sacolejantes me fazem pensar por intermédio de bruscos solavancos e precipitam importantes decisões na minha vida.
Artigo 3: Aviões que quebram em pleno vôo são traumáticos.

Parágrafo único: Pegar o ônibus errado é deveras tenso, contudo pode ser ser uma experiência libertadora.

Os sabores

Artigo 1: Nunca fui muito afeita aos sabores muito doces. Dói os ouvidos, minha mãe já dizia.
Sempre tive um forte pelas pimentas e mostardas, que azedam e tornam as insignificâncias gustativas mais palatáveis e picantes. Curry é o meu imperador no presente momento.
Mostarda boa é a que abre os poros do rosto. E pimenta arretada é aquela que deita duas lágrimas discretas de puro regozijo no canto do rosto. Uma celebração do fogo na culinária, isso sim.
E queijo é uma unanimidade na minha vida.

Parágrafo único: Temperos exóticos são muito queridos também. Exceto noz-moscada, que é indicada com muita, muita moderação.

Amores


Não há artigos ou preposições.

Uso o plural, pois não tenho indicativos. Tenho apenas um imperativo: se não for italiano e dramático; mafioso e sangrento e banhado em lágrimas, não tem sentido.
Se não for, não uma tempestade, mas um ciclone em um copo de água, não vale os caracteres das mensagens do meu celular.

Pode até virar uma calmaria, plácida e agradável, pode.Mas se eu não houver por algum momento, em alguma fase da existência deste amor, jurado, de pés juntos, ajoelhada no milho, que eu seria capaz de morrer de chorar por causa de uma briga, de uma palavra dúbia ou de um olhar que olhou e deixou escapar o que viu... de que vale?

O anti-parágrafo único: De marasmo e afetos mornos, desenxabidos, não se constroem caravelas para o infinito.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Sinusite no engarrafamento

Na porta semi-aberta
das minhas vias aéreas congestionadas
o suspiro de chaleirinha morna cansada

denuncia mais algumas horas a fio

Antecipo aconchegada
e enovelada
em complexos atavios

a promessa de uma presença

e estremeço
ao contato frio
e úmido

da sua lembrança.

O seu rosto marcado
esse eu mesma teço
em minha memória

e enredo-o entre tranças
e versos alinhavados

como quem pode.

como quem deixa
um frasco cair

e algo em seguida
esparrama, eclode

e a presença se faz
mais que promessa

materializa
uma pressa

que emana de você.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Recado dado






Divertido ler isso hoje:

"As serpentes mais espertas - mesmo as amadoras - sabem que precisam trocar de pele para se tornarem maiores."








Fica a dica.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

17/08/2010

Ah, a doce agonia das páginas não-escritas me paralisa.
Mãos cálidas e pacientes me laçam, atando com silêncios de cetim as palavras que eu não digo, as frases que eu não escrevo.
Essas páginas hoje não me assombram mais. Me equilibro lânguida nas tétricas dicotomias do sim e do não.
Vou me tornando especialista nas tais catástrofes serenas. Aprendo a esperar.
Aprendo?
Espero aprender.

Esta agonia do prestes, tão fecunda e encerrada em si mesma, me paralisa e me liberta.

Espero, pousada sobre o dorso escuro da noite, a minha própria partícula de noite cintilar.

O crisântemo morreu de morte natural


Uma morte insidiosa - qualquer morte natural, se pensar bem - deixa-se observar apenas por um olhar minucioso, quase microscópico.
A verdade é que aquele crisântemo branco, tão branco quanto o branco dos meus olhos, com todo aquele ingênuo e latente desejo de margarida alcoviteira possuía sim uma beleza suave, ainda que fatalisticamente fadada ao fim.
Era falsa então aquela maciez acetinada das pétalas? - me perguntei. A altivez dos galhos pequeninos - tão erguidos, cheios de viço - um fingimento?
Não - eu mesma respondi a mim mesma na medida em que formulei a questão. Tão falsos quanto os caules desfolhados que agora miro, portanto.
Não. A única realidade que me chega neste momento é uma realidade regida por um império, um império da transfiguração.
Não há, em absoluto, nada que permaneça o mesmo na linha do tempo. A ação deste move montanhas relutantes de seu lugar; demove qualquer idéia fixa da mais intransigente das cabeças.
É, a verdade é que nos submetemos todos ao domínio deste imperativo invisível. Erodidos até a medula pelas chuvas torrenciais da alma, não notamos a mudança lenta.
O crisântemo, reparem, morria com lentidão nestas três últimas semanas, diantes dos meus olhos cegos. Com sua resignação de vaso, ele já enrugava suas nervurinhas tenras e caule juvenil a olhos não-vistos.

A morte, percebe?, se esconde em cada fissura e capilar, em cada galho retorcido, envelhecido. Mesmo a pétala recém-nascida e o sorriso jovial da criança carregam-na inoculada.
Cada ruga indesejada, envilecida por nós mesmos - aquelas que escondo com a cosmética tríade imprescindível do pó, base e corretivo - oculta algo que, sem dúvida, é necessário ocultar.
Mas está lá, para quem quiser [e puder] ver.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Em caso de cachaça ou ruína

Atrasada para a escola, a menina Beatriz correu ao quintal ainda de tênis desamarrados e cabelos em desalinho para acudir tia Abigail, que a altos brados proferia o estranho anúncio:
- Madeeeeeeeeira!
Foi apenas o tempo de chegar na soleira da porta da cozinha de vó Inês. Tia Abigail tombava ao lado das hortaliças com a retumbância dos jacarandás centenários.
Muito impressionada, a menina demorou a entender as palavras impacientes da avó:
- Está de fogo essa desavergonhada!
Mais velha e mais cínica, porém, a não-mais-menina-Beatriz ponderou. Seria bom se, como sua tia, ela pudesse conservar ao longo de sua vida, um traço que fosse de humor, em caso de cachaça ou mesmo de ruína. Em caso de vida ou morte.
Ou no caso, quem sabe, de precisar ela desmoronar - como toda mulher que conhecia - uma vez ou outra.

terça-feira, 20 de julho de 2010

(dis)tensão pré-morte

Ela acordou com as bochechas coradas e a pele descansada. Músculos relaxados.
O frescor indizível de uma sentença de morte. Só os desenganados dormem desta maneira, ela refletiu. Uma piedosa concessão; último golpe de misericórdia do seu próprio corpo em colapso, talvez.
Levantou-se para o seu último dia de trabalho. Vestiu o vestido mais bonito, azul-escuro. Não tão curto. Pôs no rosto a maquiagem de sempre, leve, adequada para o escritório e esticou os dentes no sorriso mais atrevido de que era capaz. A empáfia derradeira dos que sabem que encontrarão a morte cruzando a esquina.
Despediu-se do marido, que também se aprontava para o trabalho. Com um beijo doce e mordaz, ela pensou em dizer: não a veria jamais.
Despediu-se sem dor, todavia. Não havia mais dor. Ainda a sorrir, ela considerou que contra todas as evidências, estava tornando-se uma atriz.
A caminho do ponto de ônibus, os passos firmes. Os saltos quadrados delinearam o seu último rastro neste mundo.
Com a mão direita suspensa no ar, ela interrompeu o gesto de sinal para o ônibus. E um momento de hesitação. O coração em gorgolejos descompassados de repente parou. O gole sôfrego de ar que ela engoliu ainda sorrindo não mentia. O fôlego final da sua vida.

sábado, 17 de julho de 2010

O caso da mangueira ardilosa*



Era uma vez um apartamento muito engraçado. Podia-se até fazer xixi, mas sob o risco de encontrar um lápis no vaso. Pois era isso. Havia um lápis itinerante na tubulação de nosso banheiro. Aparecia e desaparecia a seu belprazer.
Nunca soubemos o motivo de sua estadia errante em nossa casa. Tampouco como fôra parar lá.
Durante cerca de dois meses, um dos quartos abrigou um armário invisível. Demorou aproximadamente sete semanas para que ele pudesse finalmente se materializar. Foram semanas de intrincados rituais comandados pelo mago-montador Valdir e, depois de conjurar um sortilégio tijucano durante quase seis horas num sábado ensolarado de maio, o difícil armário, por fim, ergueu-se defronte à cama de molas e abriu suas portas.
Compreendemos naquele momento que alguns móveis precisam de um certo tempo. Não adianta apressar.
o apartamento tinha teto e paredes, sim, de fato tinha; sofá também tinha e até mesa, o que não tinha era fogão.
Quer dizer, até tinha. Mas veja bem, era um fogão de fachada. Alguns eletrodomésticos são assim, uma farsa. Era o caso.
A verdade era que o fogão de nossa casa era nada menos que um apoio para o filtro de água e não, nem me fale de água. Digo nossa casa, porque éramos três as habitantes dessa estranha casa: eu, a mulher de terra; Mar, a mulher de água e a panterinha albina-de-olhos-azuis-celestes, também de água.
Notem que água predomina. E não sem efeito, como viríamos a descobrir, pois a água era o elemento dominante daquele apartamento. Estávamos todas submetidas, sem saber, a uma poderosa entidade doméstica - uma entidade de natureza líquida - encarnada pelo que parecia ser uma inofensiva mangueira. Especificamente a mangueira da máquina de lavar.
O fato é que alguns meses se passaram antes que a verdade viesse à tona. Foi preciso que a casa inundasse três vezes para que enfim desconfiássemos da astúcia daquela mangueira.
Explico.
Em três diferentes ocasiões, o mero pretexto de lavar a nossa roupa serviu aos malignos desígnios desta mangueira. De alguma maneira que ignoramos, ela conseguiu desvencilhar-se do tanque e alagar não apenas a área, como também a cozinha, o corredor, uma parte da sala e do quarto pequenino. Isso em diminutos intervalos de tempo, menores talvez que um quarto de hora.
O único comôdo que permaneceu incólume aos avanços da Água foi o meu quarto - o único quarto-terra da casa.
Meses depois, reconhecemos que demoramos um tanto a desmascarar a ardilosa mangueira. Contudo, feito isso, iniciamos um processo de telurização da casa, para torná-la habitável de novo.

Ainda não sabemos o que virá disso, mas estamos todas grandemente esperançosas de viver em uma casa menos pantanosa.

*todos os fatos relatados acima são verídicos.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Retrato da dona do blog quando [quase] jovem




Cada vez mais porosa e intercambiável.
E de fato, reproduzo em mimese inexorável o mesmo movimento de fuga. O mesmíssimo.
A fuga em asterisco, o chuvisco clandestino (em mim tem chovido o dia inteiro, sabia?) e desintegração dos limites já rarefeitos. A falência do meu próprio destino.
A mesma menina corada fugindo dos palcos. Fugindo de quem? Os holofotes e spots não refletem o que têm de refletir, eu garanto. Um engodo, isso sim.
Eu? Não reflito. Sou impetuosa e impulsiva, omito.
Esponjosa que sou, absorvo tudo.
E cuspo. Não engulo.

Definitivamente não engulo.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Poison Ivies

Todas as mulheres da minha família têm um aguilhão de escorpião em algum lugar recôndito de seus discursos.

Me pergunto aonde estaria o meu.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Aprendizado do fogo

A moça ao lado hoje acordou um pouco piromaníaca.
Com vontade de passear por aí com um rastro de pólvora atrás de si,
borrifando lufadas de gasolina pelas ruas.

Faiscante,

em curto-circuito.
A deitar pelo chão pequeninas centelhas elétricas que,
como chuviscos de final de tarde,

mal deixam vestígios aonde caem.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A única língua que não falo

Em plenos 25 anos e 1/2, constato que falo com mais ou menos fluência pelo menos três línguas. E mais 1/5 de língua não-fluente, talvez.
Vejamos.
Tem a língua da minha mãe - o português ora cálido, ora afiado, que ela me ensinou bem.
Em seguida vem o inglês cantado do meu pai. Inglês com a entonação galopante dos cavalos do Kentucky, alternado com o português tão arrebitado de Recife que ele fala e que me divertiu imensamente desde que eu me lembro.
Aí tem, é claro, a língua do sarcasmo, que minha mãe jura que aprendi antes mesmo de me pôr a engatinhar.

E o francês, que me é 4/5 (ou mais até) completo desconhecido. Mas que exerce uma certa atração, eu admito.
Acho curiosa a redondeza maleável, às vezes pastosa dessa língua. Uma circularidade enganosa, que faz pausas bruscas, ásperas, arranhando a garganta e surpreendendo os que confiam na suposta beleza inofensiva dos seus fonemas anasalados.

Contudo, armada com todas as ferramentas lingüísticas disponíveis, nesses vinte cinco anos e 1/2, constato algo aterrador.

Não entendo uma palavra que você diz.

terça-feira, 22 de junho de 2010

She's gonna get married!



Minha sistah vai se casar!!!

E como não poderia deixar de faltar, aí vão seus últimos momentos de solteira - divetidíssimos, inclusive, neste último sábado 19/06.
O Boteco Salvação jamais será o mesmo. "Xandão" - o garçon mais hilário ever - que o diga!



Entre mojitos, doritos, apitos e balões de corações teve muita gente que se queimou feio no "eu nunca"...

Um porre de respeito, né, neguinha? =D




#Um brinde ao cu! \o/

Ah, Julia, adivinha aí: "Não te conheço bem, mas fui na tua CARA duas vezes e achei LINDA!!"

Enfim, desejo toda a felicidade do mundo aos noivos! E domingo estaremos todas de novo lá...

http://www.youtube.com/watch?v=N4QSqVtcsQM

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Estado de sítio

Alerta:

O terreno que diviso
encobre
perigos invisíveis

entre línguas de pólvora
e disparos fumegantes,

avisto

um campo minado
ao longe

uma dúvida espatifa-se

abismada

não tenho certeza
se sou

a bomba

ou



a andarilha desavisada.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Repulsa ao sexo (Repulsion, 1965) - dir. Roman Polanski




Se Psicose (Hitchcock, 1960) é um dos meus dos meus filmes preferidos da adolescência (acho que assisti pela primeira vez aos doze, treze anos), tendo exercido juntamente com outros filmes do diretor uma influência estética talvez definitiva, e mesmo um curioso fascínio com respeito à temática psicológica no cinema, posso dizer, no entanto, que ele NÃO É o meu favorito dentro do tema.
Querelas diagnósticas à parte, aliás, hoje me questiono se Norman Bates não era no fim das contas um perverso. A dissociação histérica grave também me passou pela cabeça. Fica a dúvida, enfim.
Mas na minha opinião de psicanalista mafiosa, o verdadeiro mestre da psicose no cinema é Roman Polanski.
Com cerca de dezessete anos, eu fiquei impressionadíssima com O inquilino (Le locataire, 1976), dirigido e atuado por Polanski. O estranhíssimo filme retrata com genialidade o brotamento e estabelecimento de uma brutal paranóia em um rapaz (o próprio Polanski) que aluga um apartamento aonde o locatário anterior cometera suicídio.
Anos depois, cursando a disciplina de Teoria Psicanalítica H (Sobre o texto de Freud de 1923 O eu e o isso), a professora mencionou esse filme para indicar um retrato cinematográfico interessante do conceito lacaniano de empuxo ao feminino, presente geralmente de forma devastadora na psicose.
Nenhuma dúvida de que O inquilino apresenta um dos mais marcantes momentos cinematográficos de travestimento em um contexto de psicose. Inesquecível.

Repulsa ao sexo, lançado onze anos antes por Polanski - e assistido por mim oito anos depois de ter arrepiado os cabelos da nuca com O inquilino - é uma obra-prima.
Creio nunca ter visto a erotomania tão bem caracterizada nas telas. Outros elementos como a construção meticulosa do delírio de perseguição; a aparente economia e precisão imagética que optou-se por dar às alucinações da personagem de Carol (Catherine Deneuve,aos 21 anos)e até mesmo os movimentos repetitivos e cacoetes (estereotipias)me fizeram questionar se, de fato, Polanski não fizera um estudo prévio das patologias mentais, sobretudo da psicose.
Porque é gritante o fato de que, do contrário, ele possui uma compreensão intuitiva brilhante do tema.

Só me resta tentar recordar (repetir e elaborar hahaha) as palavras de Freud numa possível nota de rodapé de Além do Princípio de prazer (1920). Alguma coisa como aonde nós (os cientistas e pensadores) chegamos claudicando, o poeta (e o artista, par excellence) chega voando.
Ou qualquer coisa do gênero.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

10/06/10

Há algo impronunciável. Uma língua perversa e obsoleta que não compreendo.
Demônios de linguagem inexorcizáveis, que dobram-se em pérfidas gargalhadas e murmuram cantilenas picantes. E assoviam sortilégios antigos e aziagos de fadas más e extintas.
Há algo que se agarra. A palavra proibida que sequer pode ser articulada, que se enrosca pelos músculos tesos da minha língua paralisada.
Margeio então pelas bordas devastadas da impronúncia, duvidando, desconfiando de tudo.
Dispenso o sentido como faria uma rainha ímpia e impávida, como se nem me importasse.
Há o precipício e o caminho da fala - o melhor dos artifícios.
E entre eles: o império subterrâneo do intervalo, para onde migro.
Até que enfim, eu reconheço. Lá vem o esmorecimento da resistência, o desassossego elevado à potência paroxística e a ausência quase completa de movimento. O silêncio.
O torpor lento, mas tenaz do esquecimento e por fim, a dissolução em aquarela de todos os contornos.
Um exílio de linguagem onde me encontro.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Me gusta lo no-dicho

Em tempos de mercúrio na oitava casa, ou ainda, em tempos de silêncio, quem tem meia-palavra é rei.
A quase-palavra se apresenta, todavia, como a eminência parda. A realeza legítima por detrás das camadas.
A semi-palavra. Que emerge ctônica das profundezas feito lava. E desaparece sem deixar vestígios.

Não me entendam mal, mais até do que os não-ditos eu gosto mesmo dos quase-ditos.
Aprecio as palavras que estão prestes a descobrir seu rosto, revelando o que têm a dizer.
No entanto, não o fazem.
Recolocam a bela máscara veneziana de bronze e pronto.
Lá estão novamente: inescrutáveis. Infinitesimais.
Quando prestes estou a desvelar-lhes o sentido, num instante recobrem-se de mistério. Uma grossa dobra de opacidade as envolve, interrompendo seu deciframento.

Estas são as minhas preferidas.
São tão astutas. Armam-se de setas, deslizam sobre velozes vetores e apontam. Logo mudam de direção e aquele sentido ignorado - para onde então apontavam - esvanece como a pobre Eurídice na medida em que eu, como Orfeu, lancei-lhe um olhar antes do momento.

Ah, o descompasso.
Estas palavras sabem tudo sobre ele. Tiram-lhe o máximo proveito.
Nascem deste intervalo, na verdade. E a ele sempre retornam quando acossadas pelas vãs exigências da linguagem.
Sentido? Estas palavras riem na cara do sentido.
Não se submetem a ele, esquivas que são.

A possibilidade de dizê-las é unicamente comportada pelo não-dizer. É apenas não-dizendo que estas palavras se mostram. È no brutal contraste com o silêncio que elas surgem triunfantes e certeiras.

É por isso que eu gosto dos não-ditos.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Aonde vão parar as lapiseiras perdidas?

Questão que me acompanha desde a infância.
Aliás, escuto ainda agora, como um eco longínquo, mas não perdido por completo, a voz indignada da minha mãe a me perguntar precisamente isso.
Às vezes era a lapiseira que ia embora primeiro. Mas canetas e borrachas partilhavam frequentemente o mesmo destino.
E eu ficava com o refil ora 0.7mm, ora 0.5mm, a chacoalhar solitariamente dentro da desordem multicolorida e fragmentada do meu estojo - antes de ser ele também misteriosamente dragado pelo buraco negro da minha mochila.
Já naquela época, tive consciência que não se tratava de uma questão de espessura. Perdia todos, finos ou menos finos.
Era outra coisa.
Aonde vão parar as lapiseiras perdidas?
Seguro a pergunta por mais um momento. Mas já aviso que não o faço para suster o impacto de uma possível resposta ou postergar o suspense de uma conclusão mirabolante.
Porque a verdade é que não tenho resposta alguma. Não faço idéia de onde vão parar; ignoro para onde foram.
Nem bem sei inclusive por que me lembrei disso.
Quer dizer, até sei. Mas preferia não saber.
Ontem, por uma (mais uma) das improváveis e rocambolescas circunstâncias da minha vida, fiquei sem luz. Quase o dia todo.
O autor do crime? Um disjuntor desarmado.
Desarmada estava eu diante da dificuldade inextrincável de uma porta trancada. Explico. Ocorre que o bendito desarmou durante o meu banho quente e a beleza indizível das coisas consiste no fato de que a caixa dos disjuntores do meu prédio é exterior aos apartamentos. Fica na portaria.
Portanto, o meu disjuntor estava lá embaixo, desarmado, dentro de uma portinha que se apresentou para mim cerrada, trancada à chave.
E a chave? Com o zelador ou o porteiro. Aonde? Sabe-se lá. Feriado tem dessas coisas.
Por volta das oito e pouco da noite, depois de ser lentamente engolida por uma penumbra que se mostrou estranhamente acolhedora, eis que a verdade dos fatos sofre uma completa torção e se revela.
Não havia tranca. "Era só puxar com força." - nas palavras da síndica.
A luz retorna.
Dou-me conta de que, de alguma forma, algumas portas não estão realmente trancadas. E mais: algumas vezes, abrem minha porta sem que eu perceba. E por essa brecha se esgueiram mil coisas.
Por exemplo a pergunta. E um rastro dolorido de coisas com ela.
Emerge com ela a pergunta sobre a qual equilibra-se todo o meu desassossego - em blocos maciços e trôpegos.
Aonde vão parar as coisas que eu perco?
Normalmente, evito o quanto posso essa pergunta. Passo veloz e me faço de desentendida. Mas hoje não consegui.
Por algum motivo, escancararam-se coisas com a abertura desta porta. E que coisas?
Nada mais do que lampejos. E dos mais fugazes até.
Por um átimo, tive um vislumbre da minha vida enquanto trajetória, da minha própria história.
Todas as pessoas-farol que de alguma acenaram algum rumo entrevisto nos momentos mais ou menos turbulentos; toda a pequenez (e a inevitável sordidez das pequenas coisas)do que eu sou e das pessoas que eu fui.
De onde eu vim. O chão que recebeu os meus passos - quase sempre - titubeantes, na ponta dos pés.
Por onde eu andei? Como eu vim parar aqui? Não era claro.
A minha cidade diminuta e embolorada, atrasada; as coisas pelas quais eu me apaixonei e desapaixonei. Aquilo que me envergonha. Até hoje.
As pessoas que eu perdi.
Tudo isso me atingiu em um intervalo compacto e vertiginoso. Como pode? - eu pergunto.
Foi suficiente para desengavetar meses e meses de emoções cuidadosamente represadas, confinadas até segunda ordem e, que eu considerei até então irrecuperáveis.
Vou dizer que doeu um bocado.
Era disso que eu sempre fugi. Percebo.

É. Declaro o fim da anestesia. Não amorteço mais nada. Lapiseiras à parte, se é para doer, que doa.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Em solidariedade à Suzete*

Não sei se sou prosa
ou poesia.

Minhas palavras douradas
de areia amanhecida
esfarelam-se
e se confundem
etéreas
com a maresia.

O mar invade
os limites finíssimos
da letra
e eu transbordo
pelas fronteiras
inteiriças
do papel.

Uma escrita que margeia,
sempre pelas beiras,
esgarçando
o véu opaco e espesso
da sintaxe,
inaugurando uma nova ordem:
o impasse da ficção;
o primado dos sons;
a dinastia da aliteração.

Não sou eu quem escrevo,
sou escrita.
Registro em parte
a partida.
Que sempre retorna e
que metamorfoseia-se
na ida.

Avanço a tesouradas
em direção
à palavra original.
Abro uma grota
na frase, uma ferida.
Estanco parágrafos
e tampono períodos.

Descasco
até despir por completo
o sentido.

Não sei não.
Não sei se sou prosa
ou poesia.

Se ficção
ou biografia.

Desconfio, meus caros,
se sou mesmo
de verdade,
ou se o meu elemento
não é na realidade
nada mais que invenção.


* Inspirada por Suzete, uma amiga antiga - e matemática brilhante! - que, em uma tentativa deliciosa de se beneficiar das minhas habilidades de decifradora de sonhos enquanto 'psicanalista mafiosa', me contou ter sonhado que era um teorema.

Logro dos cheiros

A verdade é que eu alterno perfumes, como que para despistar.
Confundo os que, tolos, capturados por estes odores artificiais, tentam em vão me impor a ditatura de um único frasco, ao arriscarem me engarrafar.
Entre a fórmula cítrica atemporal - que preserva a imagem do cheiro de todas as intempéries da memória e dos anos - gosto também de vestir vez por outra uma pitada fragrante e outonal de lírio-do-campo, ou algumas gotas meticulosas de outra composição floral.
Mas quando sóbria me faço, escondo. Da acidez me dispo e encorpo.
Posso até ser cítrica na alma, - até a raiz dos cabelos - contudo eis que me apresento circunspecta e banal a todo e qualquer apelo; canhestra e amadeirada na superfície.
E se porventura a ironia se insinua por entre os meus poros, acomodando-se nas brechas, nas frestas do meu rosto, nas curvas sardônicas do meu corpo, assumo o azedume.
Sou então embalsamada por maracujás secos; limões e pitangas se unem em novelos perfumados, em anéis-de-cheiro feito arredios vagalumes em mim pousados. E me tornam mais cínica, sirigüelamente mais cética do que de costume.
No entanto, houve quem dissesse - e quem diria! - que eu tenho um cheiro próprio, particular.
Não sei se acredito.
Me contou ele ao pé do ouvido, que nua, o meu cheiro assemelha-se aos damascos frescos e recém-dormidos, que secam ao sol, junto, bem junto do mar.

Insônia

Me vejo impelida à contradição como que conduzida por uma força imperativa e motriz - magnética e inelutável.
Um ser dividido? - eu me pergunto. Somos todos.
Os cavalos que conduzem a minha carruagem andam a distrair-se pelas errâncias de cada caminho dúbio, a hesitar; seguem divididos a espreitar por entre hera e musgo, por entre os lampejos quiméricos dos arbustos, a outra vida que eu pretendo lhes negar.

domingo, 30 de maio de 2010

A lira - nem um pouco lírica - dos vinte anos

Como aparentemente hoje é um dia de esgotar todos os possíveis sentidos da palavra 'caixa', resolvo abrir mais uma. Depois de ter sido 'encaixada' a contragosto, lá vou eu desencaixotar mais uma das várias que se enfileiram por aqui, acumuladas, empoeiradas. Uma caixa especial.
A dos vinte anos.

Embora eu me veja, sem dúvida, intimamente constrangida diante da intensidade pueril do texto, ainda assim eu posto.
Ainda é um mistério para mim ser possível que alguns dos sentimentos meus de cinco, dez e até quinze anos atrás apresentem uma semelhança univitelina - tão siamesa! - com o que eu sinto hoje. Como se a Rita de hoje compartilhasse algo de inteiriço, indivisível até, com as de antes.
É estranho reconhecer que mesmo não sendo eu a mesma, há definitivamente algo que permanece. Que atravessa a minha vida - e me atravessa - e me define, quase conferindo um suave contorno à minha indefinição.

Posto ainda porque hoje, cinco anos depois, além de ser surpreendida pela semelhança, pela atualidade destes sentimentos, não posso deixar de rir de mim mesma (a de hoje e a de antes).
É com uma certa complacência, quase materna até, que eu olho essas palavras escritas tão convictas e jorradas, numa urgência que eu conheço tão bem.
Na mesma urgência, mas com um humor mais sóbrio e autocrítico, constato que permaneço a mesma dramática de cinco, dez anos passados.

Algumas coisas são insolúveis. Fazer o que?


Hoje eu quero algo que me derrube. Uma bebida forte, rápida.

Que desça destilada pela garganta e que ofenda durante o percurso. Que faça tudo girar em menos de vinte minutos. Para que eu possa girar junto, como uma bailarina trôpega na meia-ponta, subindo. Degraus imaginários e os que surgem do nada.

Um tapa.

Mas eu não quero anestesias.

Eu quero a dor que supera a agonia. Minhas unhas sendo arrancadas com pinças, alicates.

A dor que dói e arde, que lateja. Que chega, se instala e nunca me deixa. Aguda. Agulha. Fina, insistente. Forte e estridente. Quieta e latente.

A dor que não me abandona. Que não sai pela porta e me esquece. Aquela que anoitece e acorda comigo, sóbria ou sorridente.

Que não mente. A dor que sente, que é sentida. Que é triste, comovida, simples e descolorida.

Eu quero uma dor minha. Verdadeira, dramática e sangrenta. Eu quero um vestido antigo dos anos vinte com paetês pálidos e pérolas desbotadas, esquecido. Quero a dor compartilhada com um amigo.

Quero ser de verdade. Pessoa e não personagem. Sair dos quadrinhos preto e branco para uma floresta tropical. Com cobras que picam e se enrolam em mim; macacos e micos pequenos e mosquitos; aranhas e formigas. Para eu matar e cozinhar para você.

Eu quero a dor de ter alguém. De perder. De não esquecer, de doer, doer, doer.

Eu quero a dor de dormir, acordar e ainda estar lá.

A dor de ser. A dor de ser uma. A dor de ser duas. A dor de ser sua.

Eu quero aceitar a dor de estar sempre sóbria mesmo quando bêbada. A dor de nada.

Obrigada, aceito. A dor que foi comprada e a que não foi. A dor que virou piada e aquela, podre, que nem foi contada.

Eu quero ser amada. E amar.

E odiar e depois relevar.

E amar. E doer.

Doer e sangrar. E ficar triste porque a escova de dente comprada nunca foi usada. Porque o isqueiro foi esquecido na minha cabeceira. E você ficou na minha cabeça. Doendo. Sangrando.

Sagrado. Imaculado. Uma mancha esbranquiçada, viscosa no meu vestido negro.

Tão injusto. A dor que não pedi.

Eu não pedi. A dor de não existir mais. Não existir mais para você.

Atropelada e ensangüentada. Ossos quebrados e vísceras misturadas.

Eu era. Eu fui. Agora não mais. Eu não dôo mais.

Eu ruí e desmoronei de uma única vez.

Agora não sinto mais.

Parei.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Em resposta a um amigo

Acho que a essas alturas, já posso me declarar rainha da umidade também. E tal como as suas samambaias, também sou psicóloga mafiosa. E faço do silêncio um mundo; mudo como a maré e, esse meu mundo amordaçado eu ofereço já no cartão de visitas.

Telurizar? Foi-se o tempo.
Agora, meu querido, estou sob a égide do líquido. Rainha dos cataclismas marítimos e dos ciclones que vêm do mar.

A água penetra. Esgueira-se por fissuras e capilares, preenchendo cada intervalo, cada espaço abandonado por você, por ele. E sabe o que é pior?
Eu bebo.
A cada gole, tudo se desmancha, liquefaz. E louca, louca eu rio: bebi demais, não?

Mas estranho. Não há lágrimas.
Tempos que não vejo sinal delas por aqui. Penso que de riacho em riacho, estagnei feito poço. E não posso, não posso continuar assim.
Preciso desembocar. Desembocar ao mar.

O sal. É dele que eu preciso.
Chorar.

Antes que os torvelinhos de osmose descartem de vez os meus contornos já tão porosos e intercambiáveis e de tão rarefeita, eu desapareça.
Assim, de vez.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Queimem as calcinhas!



Isso mesmo.
Terça-feira passada. Ginecologista nova.
Mulher ainda jovem, alta - mais alta do que eu -, perfeitamente equilibrada e segura na crista dos seus quarenta e cinco anos mais ou menos. Bonita mesmo, de franja arruivada e repicada caindo sobre o olho esquerdo. Me surge com essa.
Sutiãs? Nada.
O negócio agora é livrar-se das calcinhas.
"Calcinha para que?!" - ela me pergunta jocosa, no decibel mais estridente da voz levemente anasalada, que pensei quase comovida assemelhar-se ao timbre de uma iguana que porventura um dia decidisse pôr-se a falar.
E eu aparvalhada, sentada na beira da cadeira, sem saber o que lhe responder enquanto ela me encarava inquisitiva e não duvido, secretamente divertida.
É.
Não saí do consultório antes de lhe prometer a eliminação paulatina e perseverante de tal inutilidade do vestuário feminino em minha vida.
Cheguei em casa de fato considerando a procedência da injunção da doutora. Disposta a me tornar uma mulher mais consciente do meu direito ancestral de andar livre por aí; despojada de elásticos e rendas - e 'deus' não permita, fio-dental! -, instrumentos pouco salutares e inequívocos de opressão feminina.
Conversando ainda bastante impactada com uma amiga, acabo confessando um pouco envergonhada:
- O problema é que, no fim das contas, sem calcinha eu meio que me sinto nua, sabe?... - ao que ela me solta uma gargalhada e rebate imediatamente:
- É, Rita. Deve ser porque sem calcinha você está de fato nua! Inclusive, dificilmente dá para ficar mais nua do que isso, eu acho. 'Sem-calcinha' costuma ser sempre todo um outro nível de nudez, geralmente o último nível... Embora não sempre.
Pois então.
Sem estar convencida, resolvo experimentar.
Em casa, à noite. Seguindo a cartilha de passo a passo da médica inverossímil, resolvo dormir sem.
Tranqüilo.
No dia seguinte, decido ousar. Saio para o supermercado no fim da tarde de vestido compridinho, livre e soltinha.
Não tão tranqüilo. Mas foi, passou.
Dia seguinte. Continuo na minha escala progressiva de audácia, muito conectada com as vicissitudes e novas configurações da mulher pós-moderna e novamente me despeço da peça, desta vez mais apreensiva e titubeante.
Respiro fundo e em um assomo de coragem cruzo o corredor do meu andar, em direção ao elevador.
Dou meia-volta e retorno ao meu apartamento, com o rabo - e só ele, literalmente - entre as pernas.
Não deu.
Ir para a análise sem calcinha estava além, muito além das minhas forças.

Declaro todas as operações Sem-calcinha em 2010 suspensas por tempo indeterminado.
Acredito que ainda falta um tanto de análise para uma nova tentativa.
Por ora, a calcinha só vai embora nos momentos habituais. E tenho dito.

sábado, 22 de maio de 2010

Azul



Influenciada por dois autores que venho lido nos últimos meses, resolvo subverter um pouco a ordem das coisas ao postar hoje.
Como Vila-Matas (Enrique), decido começar o texto de hoje pela nota de rodapé - ao que ele faz bem mais, visto que se deu ao gracioso trabalho de escrever um livro inteiro só de notas de rodapé. E ainda sobre o tema labiríntico do silêncio na literatura.
Tarefa complicadinha, porém fascinante essa de se embrenhar no que ele chamou de Síndrome de Bartleby. O mal último e secular na literatura, que culmina na gaguez e por fim, na mudez completa e irremediável.
E como Abelaira (Augusto), eu opto por desalinhavar a linearidade óbvia do tempo cronológico, fazendo passado e presente se interpenetrarem, numa sobreposição de sentidos, orquestrada por sua vez pelo princípio, que talvez seja o único que eu considere absoluto: a repetição.
Ainda que eu esteja me referindo à repetição diferencial.
E ainda que eu queira muito que ela seja diferencial, praticamente sendo uma aposta de fé.

Sendo assim, repito em vinte e dois de maio de dois mil e dez o azul - o azul oceânico - de vinte e seis de fevereiro de dois mil e oito.
Um dia de peixes, se me perguntam.

Espero.

E tal como tenho fé em mim mesma e ao mesmo tempo não tenho, espero.
Por isso preciso do silêncio; só no mais completo silêncio, no ruído algum de hoje, no azul profundo as palavras surgem translúcidas com a sonoridade tilintante dos cristais lapidados.
Como eu preciso desse silêncio hoje.
Queria essa calmaria ingurgitada que só têm os oceanos; o balançar lento e constante das tartarugas marinhas; o silêncio das baleias e cachalotes, seguidas por cardumes de peixes pequenos e prateados aos pinotes. Esse silêncio.
Da lisa pele gorda dos sirênios até meus dedos, as gotas escorrendo, uma por uma, sem som.

Queria também, em seguida, a força de uma tempestade que avança nesse exato momento, que irrompe, rasga e destrói a placidez daquilo que é líquido.
Porque esse mesmo silêncio que eu quero pede, mais que isso, ele existe para ser rompido, para ser consumido pelas tempestades elétricas de sentido.
Quero o silêncio e o curto-circuito.
Aquilo que é calmo e o que é disruptivo.
Num movimento pulsante, entre aquilo que vivo e o que não vivo, eu ligo, costuro o que o não faz sentido; ora me calo e ora repito.


Créditos da foto: Bernardo Castanho.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Na gafieira

Eu disse não.
Obrigada, mas não danço. Quer dizer, até danço. Mas só.
Não coordeno passos com ninguém.
"É que eu vi você sambando agora há pouco. Achei que talvez você quisesse..." - a frase elevou-se quase, quase, mas morreu antes da conclusão.
"Se você não sabe, eu te ensino. É fácil." - ele atalhou.
Não, obrigada. Sabe o que é? Eu estou meio cansada. - acrescentei um tanto desconfortável. Vou te dizer que nem dormir direito essa noite eu dormi.
Uma pausa curta.
"A noite foi boa, então."
A noite foi boa, eu repeti.
E um sorriso um pouco decepcionado se esboçou. Ele se despediu rapidamente e desapareceu na pista de dança.
Olho para os lados e percebo Laura me observando.
"Sabe, Rita, o Fernando não morde não!..."
Um instante pensativa e a resposta me afigura clara, como que explicando o verdadeiro motivo da minha recusa.
Mas eu mordo.
Eu disse em voz alta, para minha surpresa. E rindo, Laura replica brejeira antes de voltar rodopiante para a pista:
"É. Mas daí ele é que iria gostar."
Por isso mesmo - digo em voz baixa, quase um murmúrio inaudível. Mas ela não está mais lá.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Balada da ausência

Dos dedos entrelaçados
fez-se a distância.

E das cores cítricas e estivais
fez-se o azul-petróleo crepuscular
- alguns instantes mais avermelhado
antes da noite bruta se instaurar.

E eu?
Eis que me torno
uma mulher lunar.
Pálida e redonda,
fora de curso:
um satélite desolado

a girar.

Dos dedos entrelaçados
fez-se a ausência.

Do vestido coral,

a demora
e a gaveta.

Do olhar fulminante dele
- um cometa! -
apenas o telescópio,
a resignação tutelar
de luneta.

Da voz habitual,
o eco desaparecido
e fantasmal.
Uma galáxia interditada
por outra mulher bela
e setentrional.

A pairar,
o rosto envolto em brumas
leitosas,
tão densas e opacas
que nem anos tenazes de luz
seriam capazes
de dissipar.

Dos dedos entrelaçados,
fez-se a ausência



de universos inteiros.



E da ausência
eu,
sendo preenchida
por um azul espesso
e medular.

Agora,
da ausência
dos dedos apenas
a renúncia epidérmica do toque,
a falência do gesto.

A pantomima muda
e súplice
da distância
entre dois corpos,
que sequer um cataclisma
pode aproximar.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Se é para partir, que seja em incontáveis partes.

Cumprindo a promessa de desengavetar, tasco um texto mais do que encaixotado, esquecido no meu fotolog falecido, em idos de 2007.
Próximo do meu aniversário de 23 anos.

Era qualquer coisa sobre o solstício de verão daquele ano. E a minha pluralidade.
Um dia longo demais para tanta gente. Uma multidão.

Uma menção carinhosa à legião que habita em mim.

E aí vai:

"Àquelas que me constituem dedico o dia de hoje.
E por ser dos dias o mais longo, dedico ainda mais, pois que, ainda que algumas de vocês eu já tenha tido o prazer - a delícia, o desespero de conhecer - sei que há muitas ainda. Há mais.
Conheci algumas, dei nome a algumas, elas que são eu mesma. Elas que me esfacelam e decompõem em prisma multicor, em preto, branco e vermelho, guardando em si mesmas a chave do mosaico que sou.
Uma, duas, três, quantas...?
Não sei, e creio que não saberei. Não é importante.
Então múltipla - muitas, muitas mesmo - eu vou assim, seguindo. Caminhando na ponta dos pés quadrados, delineando com pegadas leves na areia, elas, vocês, eu mesma.
Contorno cada uma, me aproximo, e quando caio em mim mesma, já fui, já caí de mim mesma. Fui derrubada, tombada e já não sou o que sou.
Posso ser apenas o que fui, e agora, somente aquela que se aproxima cava os meu espaços.
E hoje, as cavidades são preenchidas em castanho e bege, em verde musgo e cor-de-tijolo; pingos de ouro envelhecido escorrem finos; opalas e safiras caem de mim aos borbotões.
Posso ser ela, e também posso não ser.
Às vezes tenho opção. Às vezes não.

Hoje escolho ser quantas forem, quantas quiserem ser através de mim, e quantas eu quiser ser.
Das mais suaves e belas; das vozes melífluas e cadenciadas, até as que gritam, com cabelos em desalinho, cujos gemidos eu pronuncio por vezes estrangulados e em rompantes de fúria.

Escolho até a inquieta, aquela que anda de um lado para o outro, sem sossego, sem respiração.
Eu convido a que chora, aquela que sopra tímidas gargalhadas sem som.
Dou voz às que cantam e às que desafinam, me submeto a todos os ardis, que me subornem. Que me denunciem.

Estão todas convidadas a comparecer hoje.
O dia foi longo, contudo a noite será curta. É preciso que se revezem.
Há convites para as que enganam, e também para aquelas que são dolorosamente sinceras; as pérfidas, que venham. Por que não?
Posso ainda convocar aquelas que dançam e que são vivazes, e lilases e plenas de cor. Essas eu já fui.
Por fim, chamo as perigosas, aquelas que cuidadosamente evito - as charmosas e as letais.
Podem vir, eu convido. Convido todas as demais."

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Encaixotar ou desencaixotar?

Afinal sucumbi.
Já foram alguns anos cogitando fazer um blog. Puxando pela memória, pelo menos uns quatro ou cinco que alguns amigos queridos e pessoas próximas insistem recorrentemente para que eu faça um.
E eu torcendo o nariz - no auge da minha nem tão pseudo-introversão - diante da possibilidade de me ver lida por pessoas estranhas.
É, me expor sempre foi um tanto tenso.
No entanto, para minha surpresa, é cada vez menos. A idéia de publicar no espaço virtual (ou mesmo em outros espaços) se torna cada vez menos distante e nebulosa. Tanto que aqui estou.
E então, inspirada pela minha paisagem interior imediata (e o que é pior, a exterior também), eis que surge este 'Encaixotando Rita', cujo objetivo último e existencial é paradoxalmente desencaixotar textos, idéias e, em última análise, com sorte, quem sabe eu mesma.
Se me encontro no presente e atualíssimo momento, cercada - e cerceada - por caixas, malas, recém-mudada de apartamento, acampada em um quarto ainda inóspito, a verdade é que essa paisagem estranhamente já me acompanha há tempos.
Estou quase sempre pronta a partir. Geralmente ao meio, mas esses são pontos sobre os quais é melhor silenciar. Por ora.
Afinal, ainda é novo para mim isso de desencaixotar.
Sou praticamente uma virgo intacta na arte de me deixar devassar. Literariamente, quero dizer.
Virtualmente, quero dizer. ;)
Mas me referia neste caso a mudar de endereço. Partir nunca foi fácil. Longe disso, sequer as mudanças singelas de bairro o foram e tampouco as mais drásticas, as de cidade.
Contudo, não fui poupada. Não sendo fácil, teve de ser difícil. E foram várias as vezes.
Cinco vezes, seis vezes não foram suficientes para fazer com que eu me acostumasse. Duvido que algum dia quinze sejam.
E cada mudança cobrando o seu quinhão. Móveis, memórias, livros, discos, maridos e pedaços significativos da minha história.
Algumas perdas incontabilizáveis. Entre mortos e feridos, ficaram as caixas. Algumas ainda lacradas, outras já abertas, aguardando o meu olhar.
Curioso.
Dou-me conta agora de que os textos engavetados, os livros, os cadernos apinhados de manuscritos semi-ininteligíveis em letra cursiva e retorcida, que já me acompanham nestas errâncias há anos, foram desencaixotados. Todos eles.
Um sinal?
Talvez bons auspícios estejam reservados a este blog.

Enfim.

Lanço a mim mesma o desafio de me desencaixotar.