Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

"sereia blooming blues"



porque é preciso
exercitar a violência
que só uma ideia incorpórea
imprime
ao corpo
-- ricochete que vai de trás
para a frente
em mar aberto, ferida
que espuma pela boca sal
e gritos e gritos     e gritos

no fundo, a vida depende
da coragem de arrancar 
um sorriso tímido dos astros
com um pé de cabra
investigando a malha beligerante
                               na marra:
qual era mesmo o teu formato?
qual a velocidade com que
crescem os ossos?
onde ficou aquela que partiu
antes, antes de todos?

   [que partam todos os raios 
          que partam todos 
   e que ainda assim eu fique
   que eu fique - só e inteiriça 
que seja pernas ou rabo ou nado 
        inspire respire amém ]


para descobrir tarde demais que
a coisa mais triste do mundo
                                 é a pele

que a coisa mais triste do mundo
        não deixa sequer cicatriz



terça-feira, 27 de outubro de 2015

"o problema do vermelho nos objetos"

I-

sobre o problema
dos objetos 
e o teorema das superfícies 
sobrepostas com texturas 
                       enganosas 
: o atrito impede
a cálida aderência 
de um volume 
sobre um sistema
mecanicamente isolado 
do resto do mundo.
esse problema --
o problema fundamental
do mundo --
         é que
teus volumes drapeados
        acumulam-se
[inteiriços e impalpáveis]
sobre os móveis 
depois que te vai
e me pego
timidamente voraz
na tarefa
de assomar tua forma
com dedos inábeis,
esculpir tua voz
com fonemas de pele eriçada,
pelo sopro sintático quente 
da tua língua materna emudecida,
substituída por equívoco 

por grotescos saltos 
           de tradução.


II- 

presto incontinente
atenção ao vermelho
que ondula nas falsas
       constelações
de luz artificial na parede
       da sala térrea
quando acontece de um carro 
       a t r a v e s s a r
a fachada do teu sagrado 
    edifício de pastilhas 
    [de gosto duvidoso]
-- esse jogo de luzes e sombras
a que alguns objetos 
                se prestam

quando ninguém mais se importa.

                 e durmo com 

o problema dos objetos
e de teu volume drapeado
               sobre as coisas,
o que se acumula à revelia
                      do sonho 
                             e da terrível 
bidimensionalidade dos sonhos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

"sobre eventos adâmicos"

a uma costela
























cansei de fissuras
e capilares intradérmicos
: essa existência
de apêndice
içado
do coração do mundo
não alcança a antimusa
verídica
que se equilibra invertida
no avesso de meus passos.

é que eu
quase não sinto

essa costela
que você tão generoso
                        retirou

do teu tórax cerimonioso
para esculpir um quadril
que violasse as regras
dos homens e do fogo.

é que eu quase não sinto
                        o amor --
teu arco, teu movimento
solar
no meu ventre tão recente;

                         o amor
que eu quase não sinto
evolar no sobrevoo plano,
e
u
   q u a s e,

         eu quase não sinto.






Imagem: Bruce Mozert, 1938.