Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

sábado, 26 de maio de 2012

todo lirismo será castigado

Na medida em que ele revelava o que sabia dela, ela reconhecia que aquela radiografia de alma era, sim, precisa. Em toda a sua inteira derrisão.
Preferia, antes, que ele lhe tivesse adivinhado tão bem o caráter por amor e não por essa argúcia tão mal-disfarçada de desprezo.

Por seu temperamento trágico, ela sempre desejou ser lida em sua dimensão dúbia, oblíqua, em sua apoteose feminina de direito.
Não precisou esperar muito. Ele lhe assegurou com perfeita concisão: Você desaparece, você sabe.
Ela sabia.
Ele havia apreendido com tanta facilidade o seu fading fotossintético de cada dia.
No entanto, como era de se esperar, os olhos símios dele não capturaram, exceto por uma centelha de relance, a poesia dela, isto é certo. 
Os dedos grossos, hirsutos, tatearam por entre as várias ausências e pelos silêncios agressivos dela, mas deslizaram, ignorando o movimento furtivo que se operava nela, no negativo daqueles mesmos silêncios.

Fora lida, ela admitiu para si mesma - mas não fora declamada, nem ouvida em seu particular ritmo, em absoluto.
Ele ignorava que, para cada pausa sua 

havia um espasmo lírico.


uma mulher inconclusa
toda ela fumaça aquarelável
e fuga


,que a cada pulsão gorgolejante
ela  logo adiante sucumbia


um pulmão sempre inflado
- vela içada ao vento

e o outro
diafragmado em covardia


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Não, todo lirismo será castigado, a não ser que seja publicado.
 
Ou, ao menos, introduzido dentre o círculo de poetas locais.
Ele era portador da sua própria voz - que ela negava a custa de toda a sua retórica interna e externa -  a voz que, convicta (e invicta), declarava que 

nenhum escapismo será netuniano, até segunda ordem.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Bílis negra na boca

Essa dor é real? Sim, e pungente. Uma descida em queda-livre nos elevadores-de-parque-turístico-do- inferno, sem dúvida. Sou boa nisso.
Não posso, contudo, deixar de rir. De mim mesma, eu acho.

Rio com uma crueldade que me é estranha, mas tão real quanto a dor. Reprimo uma gargalhada ao observar a distância. Eu, os olhos desaguados, raiados de sangue, o coraçãozinho em frangalhos, a alma pesarosa, presa por um fio.
E ainda: pingando tinta marrom pela casa, ao migrar pia à pia, na peleja inacreditável de tirar a tinta de cabelo casting com um fio de água, antes de um estrago, de um naufrágio maior.

O meu sofrimento, afinal, pode ser real e pungente, não?
Tão real que pôde me deixar aparentemente surda ao zelador, que interfona, avisando com todas as letras que 'desligaria a água do prédio para um conserto em um apartamento do quarto andar'.

A verdade é que me questiono se não há nada mais real que esgotar a água encanada de pia em pia, até não restar uma gota. Os pingos de tinta marrom no assoalho assinam a pungência de lágrimas mais potentes que as minhas, eu acredito.

Uma toalha irremediavelmente manchada encerra o impasse interno e diz mais do que eu sou capaz.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

semi-haicai ou hi-fi?


A um príncipe russo

Cinco goles de vodka ao seu lado
e tudo se desmancha, se liquefaz.
Pérolas negras de rímel sob meus olhos alagados.
Rio e choro, bebi demais.