Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

"teresa/158a"

para aquele que tem mar no início, meio e fim



tenho te escutado
com considerável dificuldade,
como aos balbucios morninhos
que escapam de um gato
      sobressaltado
      durante um pesadelo
-- baby, por cierto, ¿sabes?
                     con qué infierno
                      sueñan los gatos?

não me resta outra opção
senão organizar meu tempo:
a) categorizando objetos;
b) esculpindo sisos extraídos;
o fato é que crio pontes de heras
para tuas frágeis elipses
e faço de mim tua vodca
em tempos de crise.


você, tez amadeirada
de contorno impreciso.
você, puro pêndulo
que eu sulco, inteiro
justo naquilo que se arrepende
                a i n d a   n o       a r
                inseguro
                e densamente noctívago.


eu, a primeira lasca
                  -- goiva
       de duas pontas
feito lança que arpoa
                   em cheio

                   mas
                   não
                   retorna.



segunda-feira, 30 de novembro de 2015

"nota sobre um inferno astral em quase dezembro" ou "prove que não sou um robô"

hoje falo por mim,
                 eu 
                 [gargalhadas]
que suo gotas constrangidas
ao ouvir minha própria voz 
                        ao telefone
    como a de um estranho
falo por tudo aquilo que fala
por intermédio de um vermelho
        terroso violento atroz
                  como em
modigliani, como no abstracionismo russo
                                          que mata poetas 
                                em linhas geométricas

e por todos
aqueles que golpeiam os telhados
como gatos revolucionários

                         por toda e qualquer
                       sensação existencial 
[na fronteira anatômico-imaginária
entre boca do estômago e pulmões]
por todo sentimento filosófico-existencial
de terreno baldio 
inviolável
selvagem como um poodle abandonado
                                                no parque
                         como uma abelha rainha 
                         presa    por um barbante


inauguro hoje com a ponta dos pés
             essa hospedagem ambígua 
   na casa número doze do zodíaco
onde é preciso prestar contas
                à esfinge moderna
                          com senhas 
              de letras e números
            e enigmas insolúveis

   "prove que você não é um robô"
            [   ] não sou um robô





prove 
que 
não 
sou 
um 
robô

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

"dos vulcões em miniatura"

   o poema está sempre na iminência
                    de uma parada perigosa
 enganchando-se à maneira do amor
                    ao fazer eclodir na pele



aquilo que inflama
        aceso

             e que





   com um estampido
                          logo
                   apaga-se

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

"notas sobre vida sem cata-rina"

eu chego em casa com a roupa de baixo amarrotada, um desalinho tão contundente e já tão meu, que só posso supor que vem de dentro, o figurino que se adere ao personagem indobrável, amorfo, eu.
a maquiagem de ontem disputando espaço facial com a maquiagem de anteontem. esses atavismos de delineador líquido e sombra verde água, uma sereia desaguada no meu rosto. algum rímel em sítios inapropriados. pele pegajosa, corpo lambido por um lagarto morno, climático. e o seu corpo, eu tenho ainda a impressão do tato que ele permitia à minha pele, a temperatura inapreensível, o corpo que não encontro mais nas garrafas, nem nos pratos, nem no balcão, sentado de pernas descuidadamente cruzadas, flertando com o barman, para o meu desespero.
eu me sento na cama chutando para atrás da cômoda os sapatos, ainda tonta dos quase dois litros de vodca, digerindo (mal) um kafta e uns tomates recheados no almoço (não me lembro mais da sua receita de arroz a piamontesa). tenho uma escultura capilar indicando a curva normal da umidade relativa do ar dos últimos dias e me lembro dos seus cabelos irrepreensíveis: a desordem mais perfeita de cachos no travesseiro e a primeira luz penetrando pela nesga da cortina para revelar a penugem alourada no contorno do teu rosto convulso adormecido, uma recessividade adorável que resistia nos teus genes, apesar da densa cabeleira escura, muito escura. sempre me perguntei o motivo de tua expressão tão tensa ao dormir, os demônios meridianos do teu sono. Me pergunto se a tua pequena cria também revolve os dedos dos pés até se acalmar, antes de fechar os olhos.
lembro com uma pequena fisgada de ressentimento do seu glamour embriagado, mesmo transpirando álcool por todos os poros, por dias a fio -- um metabolismo que nunca irei compreender -- você ainda parecia uma personagem trágica e incandescente no meu próprio filme e eu, um guaxinim com envelhecimento precoce.
você, o meu travesseiro para sempre intocado.


.............................................................................................................................................


'ca-ta-ri-na', cataruska, cata-lina, como eu faço para te avisar que a nossa casa (você pode nunca mais cruzar essa porta ou tocar, admirada, os azulejos hidráulicos que escolheu e me obrigou a comprar no cemitério dos azulejos na baixa da égua manca, a casa será sua, oncinha, sempre) tem sido palco de um estranho fenômeno. já tem meses que abelhas escolhem este apartamento para morrer. primeiro achei que fosse um evento qualquer, isolado. mas todos os dias surgem outras e mais algumas, entram pela janela da sala, pelo vão aberto da cozinha, deitam-se sobre o assoalho e morrem. no começo, eu catava seus corpos pequenos, listrados, e os punha numa caixinha sobre a mesa da sala, mas são tantas agora que as deixo como caem, no chão mesmo, como um mausoléu. E ando pelos cômodos, desviando destes corpúsculos, como num balé fúnebre que me lembra você.





sexta-feira, 30 de outubro de 2015

"sereia blooming blues"



porque é preciso
exercitar a violência
que só uma ideia incorpórea
imprime
ao corpo
-- ricochete que vai de trás
para a frente
em mar aberto, ferida
que espuma pela boca sal
e gritos e gritos     e gritos

no fundo, a vida depende
da coragem de arrancar 
um sorriso tímido dos astros
com um pé de cabra
investigando a malha beligerante
                               na marra:
qual era mesmo o teu formato?
qual a velocidade com que
crescem os ossos?
onde ficou aquela que partiu
antes, antes de todos?

   [que partam todos os raios 
          que partam todos 
   e que ainda assim eu fique
   que eu fique - só e inteiriça 
que seja pernas ou rabo ou nado 
        inspire respire amém ]


para descobrir tarde demais que
a coisa mais triste do mundo
                                 é a pele

que a coisa mais triste do mundo
        não deixa sequer cicatriz



terça-feira, 27 de outubro de 2015

"o problema do vermelho nos objetos"

I-

sobre o problema
dos objetos 
e o teorema das superfícies 
sobrepostas com texturas 
                       enganosas 
: o atrito impede
a cálida aderência 
de um volume 
sobre um sistema
mecanicamente isolado 
do resto do mundo.
esse problema --
o problema fundamental
do mundo --
         é que
teus volumes drapeados
        acumulam-se
[inteiriços e impalpáveis]
sobre os móveis 
depois que te vai
e me pego
timidamente voraz
na tarefa
de assomar tua forma
com dedos inábeis,
esculpir tua voz
com fonemas de pele eriçada,
pelo sopro sintático quente 
da tua língua materna emudecida,
substituída por equívoco 

por grotescos saltos 
           de tradução.


II- 

presto incontinente
atenção ao vermelho
que ondula nas falsas
       constelações
de luz artificial na parede
       da sala térrea
quando acontece de um carro 
       a t r a v e s s a r
a fachada do teu sagrado 
    edifício de pastilhas 
    [de gosto duvidoso]
-- esse jogo de luzes e sombras
a que alguns objetos 
                se prestam

quando ninguém mais se importa.

                 e durmo com 

o problema dos objetos
e de teu volume drapeado
               sobre as coisas,
o que se acumula à revelia
                      do sonho 
                             e da terrível 
bidimensionalidade dos sonhos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

"sobre eventos adâmicos"

a uma costela
























cansei de fissuras
e capilares intradérmicos
: essa existência
de apêndice
içado
do coração do mundo
não alcança a antimusa
verídica
que se equilibra invertida
no avesso de meus passos.

é que eu
quase não sinto

essa costela
que você tão generoso
                        retirou

do teu tórax cerimonioso
para esculpir um quadril
que violasse as regras
dos homens e do fogo.

é que eu quase não sinto
                        o amor --
teu arco, teu movimento
solar
no meu ventre tão recente;

                         o amor
que eu quase não sinto
evolar no sobrevoo plano,
e
u
   q u a s e,

         eu quase não sinto.






Imagem: Bruce Mozert, 1938.

sábado, 12 de setembro de 2015

"delírio de ruína"


com o pensamento em 'ilhados', de ismar tirelli neto


gostaria, meus caros, de exibir neurotransmissores
sorridentes pela manhã, 
polvilhados com granola e frutas da estação,
mas é que me doem excessivamente os dentes, 
as juntas, 
e os sentimentos de reconhecimento
espatifam-se como pratos.
é que dói esse ligeiro rastro de pó
pelos trilhos e tacos 
até o desolamento dos meus sapatos 
à meia-luz, quase escondidos embaixo da cama.

para quem atina aos poetas
desavisadamente:

não há saídas de emergência aqui.
senhores, não há.
o fogo existe, mas
não é esperado,  
há um plano do qual não se fala
e a verdade é que pode-se estar sob a impressão
da impossibilidade do amor
por uma sombra,

contudo é recomendado não pensar muito sobre isso.


o vento que nos atinge nessas ilhas
é agourento.
não há ipês redentores nas calçadas,
não se recobre de folhas amarelas o chão,
esse vento sacode as ruas e vielas, os postes de luz
- os poste de luz bem sabem o que os espera. 
esse vento diabólico recria 
um quarteirão inteiro 
à minha própria imagem 
- este quarto desolado, de iluminação mortiça,
de umidade descendo licorosamente 
pelas paredes,
é um pequeno teatro
de morcegos e títeres emparelhados
representando com alguma dificuldade
as suas próprias vidas.

e o que temos aqui, prezados? 
farelos de self girando como átomos, 
sem a fortuita disciplina de uma molécula,
e tudo,

tudo decanta tão fundo,
por um sentido outro,
que não este,
que 
não me lembro
de escrever sobre a água
: ela que permitiria
acima de tudo,

o nascimento,
a escansão suave
                do grito.



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

"as meninas astrólogas"

para Ana B. Domingues



















as meninas astrólogas não consultam o personare
têm tábuas de esmeralda, efemérides bulindo
embaixo do travesseiro junto com o celular
e o arcano XIX para dar sorte e magnetismo
com o boy e outras magyas do reino dos céus.
descobrem três cabeças arrancadas na hidra
 e o diabo da vênus mal aspectada, a lua 
fora de curso, a lua fora de curso...
"aquilo que está acima, aquilo que está abaixo"
- as meninas astrólogas sabem o que está 
acima dos seus pescocinhos de cisne, conhecem 
o tigre embaixo da cama e o que fazer, o que fazer
em caso de súbita despressurização.
as meninas astrólogas mandam selfies explicando 
os mudrás para amigas em crise, oferecem 
a restauração dos meridianos do corpo, oferecem 
 sinastrias, mapas combinados   e        revoluções,
sobretudo        revoluções.
a meninas astrólogas se preocupam excessivamente
com a lua fora de curso e o movimento retrógrado
de mercúrio, contam nos dedos os dias que faltam
para dias melhores, contam os dias para a chegada 
dos dias e para a virada da lua em touro, com banquetes
e sacrifícios virginais. as meninas astrólogas,
as meninas astrólogas são, na verdade, bacantes
anacrônicas com seus cálices transbordantes e 
suas certezas infinitas sobre o infinito do universo.




quinta-feira, 27 de agosto de 2015

"diário de plutão"














no núcleo profundamente azul 
                   do poema
é difícil manter 
os planos 
        sensoriais
em seus devidos          lugares.
não sabemos se esta casa 
com pé direito infinito
-- essa ruína delicada
 que você inventou --

        é mesmo segura.

espreito entre crateras
un fuego aplainado, 
uma arquitetura cálida
         de vulcões
sobre planícies geladas

e a verdade é que
não se dissipa
não se dissipa nunca
o que o amor causa ao poeta

[o obscurecimento da luz
no aprendizado da treva]

essa licença excepcional
para escrever barbaridades,
escuridões, amenas desculpas
para pequenos assassinatos.
é tarde: 
para iniciar a noite
de fúrias e os copos descartáveis.
é imensamente tarde
para enviar os convites, as cadeiras,
as flores e a beleza desmesurada
dos ínícios no fundo
me atemoriza.

.....................................................

"os diários são perversos
até que algo seja perdido,
até que o mistério te trespasse
como um arpão
e você estale, crepitando
o suave espanto: o desejo,
o desejo fremido
por aquilo que se aquieta lento
                           no torvelinho 
 de um planeta muito recente."






sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"hexagrama 29"


:
suturar a falha sísmica
que te compreende 
em cada golpe; 
anestesias (uns goles a mais,
um a menos,
não importa). inscrever a alegria, 
              o terror, 
liberar os galgos
no perímetro insubordinado 
da tua caixa torácica,
                  pois você
você me ataca 
         onde sou 
dolorosamente permeável;  
frequenta lugares perigosos
no meu peito
e te inauguro de escuro:

teu delírio a seiva o suco.

sucumbo de exaustão
aos pulinhos,
respirando o fogo
em       i n t e r v a l o s
de compasso opressivo.
               a noite, 
nos teus ombros,
é clareira aberta,
  geografia finita
ao susto que antecipa
a caça, a carnificina. 
conheço de cor
 o sonho do deus
            que habita 
            o teu grão.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

"mulher com vazio descansando" ou "branco com céu à esquerda"



me diga por favor
que não se trata de um desastre,
não importam os sonhos,
as enchentes e ventanias,
os copos transbordantes, o peito
                                          aceso.



estou toda
dobradiças e umbrais
desde a manhã,
tingida em branco cru, paisagem
com céu convoluto à esquerda.

mas isso não é um desastre,
                                é certo.
apenas indica 
que padecemos de 
qualidades extintas
como as dos pássaros
demasiadamente gordos
com seus ossos pneumáticos
incapazes de alçar voo

e desse amor indefensável
por coisas perigosas
: um ponto de ancoragem 
                ínfimo
entre a tua pele
e o meu desejo.

imagem: "mulher com vazio descansando", de Pablo Gargallo

quinta-feira, 2 de julho de 2015

"evil twin"

para a tua lua em gêmeos





me assusta a capacidade não domesticada
que tens de acender outros olhos; a parte
escura da tua língua estala ao meu lado
e o corpo relembra dolorido
a forma dos teus cascos
no dorso encoberto dos novilhos.
esse núcleo duro que te consiste
me aliena em diferentes criaturinhas afônicas
e eu cato tuas guimbas para que não sofras
represálias e não te possuo, não te possuo
nem um pouco, sequer conheço a origem 
do súbito suor nas tuas têmporas e os gestos
agudamente cirúrgicos - o aguilhão no teu discurso
apontando para mim.
como computar o que se subtrai? - sem que 
o apagamento encubra os olhos, a brasa docilizada
cessa e não te possuo, não te possuo sequer 
na memória dos dedos que seguram molhados
o copo de vodca no início dos tempos e o cigarro
que não se fuma nunca: esses pulmões que mal
se abriram gelados para o primeiro fôlego.

"pizarnik"





















o mar não tem dono em terra
            apenas até que
            abras o poema
e persistas: abras o poema,
até que o último náutilo pise
em tábua flutuante
               -  abre o poema.

                porque o mar
não tem dorso em terra
até que abras o poema.
porque não te possuo,
não te possuo nunca
até que abras o poema
e embora eu não te possua
é preciso que estejas aberta,
                                     


                        e o poema
fundamentalmente incompleto.
e a fenda a te percorrer inteira
como uma incisão de autópsia
e que dentro da fenda, onde
o coração fraqueja, você
                       estremeça
e ainda assim, abra o poema
até que seja outro,
que seja asa ou
secreção sem corpo.

terça-feira, 16 de junho de 2015

"on being seasick at dryland"

        dentre todos
os sólidos vapores
   que habita, saiba
 : não é verdadeiro
   em absoluto que
                    quem
planta      v e n t o
há de colher
 tempestade

: o golpe no flanco
vem da água
          [ não ]
da cicatriz
vacilante da margem.



essa beleza perigosa
                que orbita
[[ em camadas concêntricas ]]
não tem pouso
           em orla,
            apenas
em queda, profundeza
estelar          
      de cauda.

-- contudo há um gesto metálico,
 uma vivência de península
    que instaura um silêncio
de pura calma, que produz prurido.
umbigo de garça
a religar os colapsos, para acender
                  teus olhos com passadas
                                          sincopadas
                                  de mar e névoa.

terça-feira, 26 de maio de 2015

"peixe-pedra"

para Julia Bicalho Mendes


por mais que
que essa carne robusta
seque ao sol, por mais
que essa penugem dourada
te cubra dos pés a cabeça,
sabemos
qual o teu elemento
de donzela pré-rafaelita 
anacrônica,
como o sal e o amor o são.
teus sonhos de ofélia 
permanecem 
marítimos,
apenas que agora
escapas ao afogamento.

acalento no peito
um pequeno animal
[esse peixe-pedra 
és tu, tão alaranjada]
que sonhas
sob dobras
abissínias
com um azul chagall,
que tranca a garganta
de mergulhadores
com sereias omissas
             de oxigênio.

nos pés descalços,
cada vez mais rarefeitos,
na água ou fora dela,
já se percebem
as membranas definindo-se
e, em pouco,
pouco tempo,
essa queimadura
no peito
não terá mais 
não terá mais
         existido.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

"ícaro 3.0"

destruir um homem 
é tão fácil quanto criá-lo
todas as memórias 
         falam de um destino
escrito em um guardanapo
                     de bar
um filete de dentes 
pontiagudos
esclarecem a origem
comprovam a tese
de peixes ancestrais
e mamíferos aquáticos

só que penso ter voado 
como quem dá um passo
                          em falso
esses míseros fonemas 
               que queimam
a parede interior da minha garganta
embrutecem meu leitmotiv
e acendem por dentro um tigre
mas mesmo um tigre não esquece
facilmente
      o salto
nem os anos
de assoalhos polidos
recobram o      corpo
                na    janela
içado por um guindaste 

esse preço rasurado
    inegociável
    de um mito
           de asas.

domingo, 3 de maio de 2015

"nascimento de vênus"

 


      primeiro
               hei 
      de lavrar
esse teu mar
   guardando
        na terra 
 o que funda
         o seco

      é preciso
toda uma era
para indicar 
     o nascimento
                da ilha
           e seu eixo


    imprimo
   de    leve
na tua imagem 
 ossos inteiros
     e tua dupla 
exposição
    emerge
       óbvia
 tal qual paleta 
     de cores 
    primárias
no auge do verão


cai a tarde
e circulam
  silêncios
como aves
   em torno
       de um
coração
que parte
     à vela

  inteiriço
ainda que 
      curvo

sábado, 25 de abril de 2015

"creme holandês" ou "balneário"

nesta cidade 
de araras extintas
fósseis de meninas
onde o vento 
é personagem

que move a areia 
de um sítio
              ao outro
por dunas espumas
         em miniatura
pergunto se essa breve
distância litorânea 
                dos dias
há de durar

se há de durar
o fogo, o amor
o circuito
          do início
se há de desacreditar
o núcleo e o degelo
da terra de tudo 
se no mundo
tudo recobre
a mesma 
simplicidade aerodinâmica
de um sorvete no palito
do mar nos olhos
              no início
e o vento penetrando
peloscabelosenroscando
                    nos ouvidos.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

"Notas sobre Anaïs" ou "Sobre um bilhete encontrado na janela do térreo"

Fundamentalmente larga, como uma daquelas criaturas esféricas divinas do 'banquete', de Platão: redonda e preenchida, perfeitamente indispensável a si própria. Os traços de teu rosto pendem para as bordas, como que impelidos por um chamado magnético, estabelecendo o que se pode chamar, numa luz favorável, de um rosto felino, mas com proporções de peixe. Olhos muito claros, oscilando do cinza, nos dias de pó, a um tom de verde com salpicos de amarelo, que me lembrou um ocre estrangeiro, original talvez das planícies orientais, nos teus melhores dias.
Meu pequeno bebê junkie de 24 anos. Não seria possível que todas as bibliotecárias do mundo fossem como você. Que cheirassem a conta de luz vencida dos três últimos meses, ou que usassem o dinheiro do aluguel para a aquisição de mais substâncias ilícitas ou, ainda, que não dispusessem do temor reverencioso aos livros, rabiscando-os como fazes, arriscando anotações e minúsculos poemas tímidos nas margens, pois  não você ousaria migrar para a folha em branco, tão pura, imaculada. Porque como você mesma disse "eu faço com um livro tudo o que uma bibliotecária não deveria fazer" e os livros não passam de objetos e diante deles, alguém só tem duas opções: a fuga ou o uso ostensivo. E você, numa manobra única, só tua, escolheu as duas num mergulho vertical não desprovido de graça.

***
Eu estava em sua companhia quando você seria bruscamente notificada de que sua energia fora cortada, desaparecendo angustiada no túnel fumarento de bancos, caixas eletrônicos kafkanianos e telefonemas envergonhadíssimos para a colega de quarto; cabisbaixa - eu nunca vira alguém tão esmagado -, você não retornaria. Não voltaria a mesma.
Porque nós duas sabíamos onde aquele dinheiro fora parar. E pressenti o sereno desespero amainado pela superfície dos corpos ao teu redor e os olhos verdes, teus olhos, cheirando a mar, recendendo a química barata, teus olhos esvaziados a vácuo, bolinhas de gude vítreas de tamanho considerável. Teu fino traço rubro delineado nas pálpebras ingurgitadas, inchadinhas e luzidias, uma colina desolada logo onde nascem os cílios, talvez um vestígio de uma noite mal dormida ou como se tivesses chorado por dias.
Você também estava comigo quando o meu terceiro casamento naufragava tal caravela desalmada para além das margens do globo; deu-se conta, cheia de argúcia, do meu tabuleiro de xadrez amaldiçoado por uma rainha vulcânica, ou, como você ainda diria, com muito mais sabedoria, "pela rainha da autossabotagem", eu. Viria atrás de mim, munida de todo um apelo hollywoodiano, um cavaleiro de copas de baralho, você, positivamente cafona, mas real, com sua missão de, em suas palavras "me ajudar a te ajudar".

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"Posso retirar os ossos?" - poderia ser a dúvida fundamental de um coveiro, mas era apenas o garçom da galeteria, levando embora os nossos refugos para abrir espaço na mesa para os seus, os meus e todos os cotovelos do mundo. "Você teve sorte que eu não tinha um maçarico para arrancar aquelas grades", o teu humor inquestionável, gradualmente mais sofisticado no correr dos dias, entre goles de cerveja morna queixando-se do que nós duas desde sempre soubemos. Não, eles não puseram grades nos precipícios, eles continuam flamulando em distâncias tangíveis, sem bordas, mas puseram grades nas minhas duas únicas janelas. E esse singelo detalhe a impediu de invadir num belo dia o meu apartamento, exceto que não era um belo dia e sim um dia infernal, daqueles que crescem fossas abissínias nos oceanos e nos corações, escavando grotas imperscrutáveis. Mas o meu silêncio às tuas pancadas insistentes no vidro do apartamento térreo não poderia ser um desencorajamento e dessa forma você habilmente entrou na minha casa e na história, na história dos bilhetes, na história dos bilhetes afixados em portas e janelas, com uma inominável preciosidade deixada no batente da minha janela, presa à uma latinha de cerveja não destituída por completo de seu conteúdo: "se essa janela for do 102, mande um sinal de vida, porque eu não tenho psicológico para este desespero". E claro que eu abriria a porta, tropeçando nos móveis, que movendo-se lentamente de lugar me asseguravam de que apartamento não era mais o mesmo, tampouco seria mais um apartamento dali em diante. Colocarias a mim na cama, eu, uma mulher de trinta anos, grande e pesarosa, com pés de mujique e tu, um bebê de vinte e quatro malfeitos, com mais substâncias no sangue do que convicção na vida, talvez no auge de seus quase noventa quilos, me iniciarias levemente na arte dos benzodiazepínicos e no perigoso contrabando de comprimidos para dormir.

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Tu te provarias uma bela domadora de caramujos, destes que esticam preguiçosamente antenas conversíveis para sentir o ambiente e encolhem-se resolutos ao menor sinal de contrariedade e, contra todas as evidências, me faria rir aos espasmos com suas narrações extraordinárias, realmente assustadoras, de quando você perdeu para sempre uma parte do olfato porque cheirou equivocadamente crack durante um mês acreditando ser cocaína. Ou a numerosa lista de admissões em hospitais gerais e psiquiátricos, o mais comovente sendo o episódio do envenenamento acidental por inalação de gás carbônico, quando você considerou imperativo atender ao chamado das musas, esculpindo o gelo do congelador de sua casa com um martelo e uma faca de pão, cinzel improvisado pelo frenesi soporífero do LSD. Aqueles pequenos furos, quase imperceptíveis, a envenenariam durante horas antes que você finalmente desmaiasse.
Eu me interessaria em particular pelos apuros nos quais você seria sistematicamente metida por obra daquele que você batizou não sem ternura de seu "cupido fanfarrão", um querubim rechonchudo mexicano, de sombrero e muitas doses de tequila pendendo pelos bigodes - e uma péssima mira, você acrescenta."Por muito menos pessoas foram amputadas", esse era o cerne do teu argumento, pois muito surpresa você constataria ter saído bastante ilesa, nenhuma hepatite ou micose visível, de sua aventura sexual tórrida na baía de guanabara na noite de reveillon. Você sempre acreditou que os mergulhos eram inevitáveis, ainda que fossem em águas turvas, ou águas condenadas pela defesa civil e sanitária há pelo menos dois séculos. A única maneira que encontraste de dizer "não" fora acrescentar um "por que não?". E para isso seriam necessárias as madrugadas prolongadas em dias desordeiros, com mil pés de insetos e a lógica desenfreada de tudo, de tudo o que se pode fazer antes de fechar os olhos e fechar os olhos vai se tornando cada vez mais difícil porque tens medo de parar e perceber que não estás mais viva há muito tempo. E talvez por isso o teu circular destempero, o exagero que você esconde sob camadas de roupas maiores do que você, o motivo da tua perda de peso e por que tem evitado refeições, uma vez que elas te lembram de um tempo que você não pode gastar - os banhos diários na pia do trabalho, essas pequenas transgressões, partículas de alívio das quais você não consegue se privar a cada vez que lhe vêm os suores no buço e o afunilamento de paredes e teto e são essas as pequenas coisas que nos salvam e eventualmente matam.