Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Pequenos [a]casos austerianos

I- Veja bem, eu tenho um pseudônimo. E hoje, no melhor estilo Paul Auster, decidi - coisinha inquieta que sou - investigá-lo. Ou melhor, investigá-la.
Digitei os caracteres e pronto. Lancei no google.
Metade perplexa e metade aliviada, encontrei-a.
Várias respostas. Nome e sobrenome no espaço virtual. Profissão e formação acadêmica completa. Até a foto.

Eis que agora, um pouco ansiosa, eu não posso deixar de aguardar o momento de ser encontrada também.





II- De todas as coisas que eu não quis ser, de uma, nunca, por mais que tentasse (na maioria das vezes nem isso) consegui me desvencilhar.
Fui teimosa desde o momento em que decidi nascer à revelia da minha própria mãe, um mês antes do previsto e três dias depois de sua indisgestão natalina.
Assenti, por fim, em coroar numa noite escaldante de dezembro, às custas de uma enfermeira mordida por minha mãe e com a 'ajuda' de um fórceps. E ainda vim ao mundo em hora indefinida, no momento impreciso em que um dia se torna outro, de forma que me registrar não foi tarefa fácil. Nasci na hora zero e no minuto zero.

Sim, fui teimosa esses dias ainda, quando insisti com um interlocutor feroz (ainda que bem-intencionado) entre dores agudas em todos os ossos do meu rosto congestionado, que embora todo o quadro indicasse uma forte sinusite, eu consultaria não um otorrino, que seria a opção mais coerente, mas um clínico geral, inofensivo aos meus ouvidos como eu acreditei até o último momento.
Foram quatro as tentativas de marcar uma consulta. Aparentemente todos os clínicos do meu convênio resolveram por bem descansar seus brancos e imaculados sapatos nas soleiras de suas respectivas casas de praia, pois de quatro, três haviam saído de férias.
Consegui agendar um horário ingrato, bem cedo pela manhã, com uma médica desconhecida, dra. Silvana Corinto. Perto da minha casa, pensei, buscando um certo consolo para o fato de que teria que madrugar para conseguir ser atendida ainda naquela semana.
Anotei o endereço direitinho na minha agenda - um hábito que tenho cultivado nos últimos tempos a fim de parecer organizada pelo menos a mim mesma - e no dia marcado, segui para a consulta, muito, muito cedo.
O prédio era conhecido, já passara em frente diversas vezes, e eu apertei tranquilamente o andar no elevador panorâmico do edifício comercial. Sala 903. Nada difícil de encontrar, pois o prédio embora grande tinha placas bem nítidas sinalizando as direções em cada andar. Sala 903 à direita, as setas me assinalavam.
E lá estava eu diante da sala 903, apalermada, encarando por alguns longos instantes uma placa médica que insistia em dizer:

Dr. João Carlos Venâncio - Otorrinolaringologista - CRM: xxxxxxxxx

Nenhum sinal de Dra. Silvana Corinto. Nem no andar, nem no prédio.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Das preferências




A lua

Artigo 1 - A minha? Peixes, é claro.
O que significa que se eu não derramar algumas lágrimas sofridas e incontidas em foro íntimo e sonhar com lagos especulares; praias azul-turquesa; golfinhos, tubarões e sereias, de vez em quando (algumas saudáveis vezes por mês), fico doente. Literalmente.
Artigo 2 - Ah, sim, prefiro o escapismo ao sufocamento. Portanto, não é de todo improvável que os senhores encontrem a minha pessoa em estado ébrio de consciência em bares e festas, como qualquer nativa lunar típica de água.

Parágrafo único: É sempre grande a possibilidade de eu uivar nas noites de lua cheia, a minha lua.

Os animais domésticos

Artigo 1: Gatos são a realeza incontestável na minha casa. Peixes também são bem-vindos. Confesso que por sadismo conjectural, considero ainda experimentar colocá-los juntos para brincar um dia.
Artigo 2: Cachorros são muito queridos também. Mas na casa dos outros.

Parágrafo único: passarinhos engaiolados são entediantes.

Os chocolates:

Artigo único: Sacrílega (como já fui chamada) ou não, chocolate branco é MUITO melhor.

Parágrafo único: Talento branco com passas e grãos, da garoto, é o melhor chocolate do universo. Não tem belga, suíço ou o que seja que lhe barre (e olha o pseudo-chiste). Nham.

Os transportes coletivos

Artigo 1: Metrô é detestável. Ser ensardinhado numa lata-falante-que-avisa-a-próxima-estação não pode, eu acredito, compensar uma suposta rapidez de trajeto. Janelas que desembocam no nada subterrâneo me enchem de uma tristeza sem nome.
Artigo 2: Arrisco sempre um engarrafamento pela mera chance de olhar pela janela. Ônibus sacolejantes me fazem pensar por intermédio de bruscos solavancos e precipitam importantes decisões na minha vida.
Artigo 3: Aviões que quebram em pleno vôo são traumáticos.

Parágrafo único: Pegar o ônibus errado é deveras tenso, contudo pode ser ser uma experiência libertadora.

Os sabores

Artigo 1: Nunca fui muito afeita aos sabores muito doces. Dói os ouvidos, minha mãe já dizia.
Sempre tive um forte pelas pimentas e mostardas, que azedam e tornam as insignificâncias gustativas mais palatáveis e picantes. Curry é o meu imperador no presente momento.
Mostarda boa é a que abre os poros do rosto. E pimenta arretada é aquela que deita duas lágrimas discretas de puro regozijo no canto do rosto. Uma celebração do fogo na culinária, isso sim.
E queijo é uma unanimidade na minha vida.

Parágrafo único: Temperos exóticos são muito queridos também. Exceto noz-moscada, que é indicada com muita, muita moderação.

Amores


Não há artigos ou preposições.

Uso o plural, pois não tenho indicativos. Tenho apenas um imperativo: se não for italiano e dramático; mafioso e sangrento e banhado em lágrimas, não tem sentido.
Se não for, não uma tempestade, mas um ciclone em um copo de água, não vale os caracteres das mensagens do meu celular.

Pode até virar uma calmaria, plácida e agradável, pode.Mas se eu não houver por algum momento, em alguma fase da existência deste amor, jurado, de pés juntos, ajoelhada no milho, que eu seria capaz de morrer de chorar por causa de uma briga, de uma palavra dúbia ou de um olhar que olhou e deixou escapar o que viu... de que vale?

O anti-parágrafo único: De marasmo e afetos mornos, desenxabidos, não se constroem caravelas para o infinito.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Sinusite no engarrafamento

Na porta semi-aberta
das minhas vias aéreas congestionadas
o suspiro de chaleirinha morna cansada

denuncia mais algumas horas a fio

Antecipo aconchegada
e enovelada
em complexos atavios

a promessa de uma presença

e estremeço
ao contato frio
e úmido

da sua lembrança.

O seu rosto marcado
esse eu mesma teço
em minha memória

e enredo-o entre tranças
e versos alinhavados

como quem pode.

como quem deixa
um frasco cair

e algo em seguida
esparrama, eclode

e a presença se faz
mais que promessa

materializa
uma pressa

que emana de você.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Recado dado






Divertido ler isso hoje:

"As serpentes mais espertas - mesmo as amadoras - sabem que precisam trocar de pele para se tornarem maiores."








Fica a dica.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

17/08/2010

Ah, a doce agonia das páginas não-escritas me paralisa.
Mãos cálidas e pacientes me laçam, atando com silêncios de cetim as palavras que eu não digo, as frases que eu não escrevo.
Essas páginas hoje não me assombram mais. Me equilibro lânguida nas tétricas dicotomias do sim e do não.
Vou me tornando especialista nas tais catástrofes serenas. Aprendo a esperar.
Aprendo?
Espero aprender.

Esta agonia do prestes, tão fecunda e encerrada em si mesma, me paralisa e me liberta.

Espero, pousada sobre o dorso escuro da noite, a minha própria partícula de noite cintilar.

O crisântemo morreu de morte natural


Uma morte insidiosa - qualquer morte natural, se pensar bem - deixa-se observar apenas por um olhar minucioso, quase microscópico.
A verdade é que aquele crisântemo branco, tão branco quanto o branco dos meus olhos, com todo aquele ingênuo e latente desejo de margarida alcoviteira possuía sim uma beleza suave, ainda que fatalisticamente fadada ao fim.
Era falsa então aquela maciez acetinada das pétalas? - me perguntei. A altivez dos galhos pequeninos - tão erguidos, cheios de viço - um fingimento?
Não - eu mesma respondi a mim mesma na medida em que formulei a questão. Tão falsos quanto os caules desfolhados que agora miro, portanto.
Não. A única realidade que me chega neste momento é uma realidade regida por um império, um império da transfiguração.
Não há, em absoluto, nada que permaneça o mesmo na linha do tempo. A ação deste move montanhas relutantes de seu lugar; demove qualquer idéia fixa da mais intransigente das cabeças.
É, a verdade é que nos submetemos todos ao domínio deste imperativo invisível. Erodidos até a medula pelas chuvas torrenciais da alma, não notamos a mudança lenta.
O crisântemo, reparem, morria com lentidão nestas três últimas semanas, diantes dos meus olhos cegos. Com sua resignação de vaso, ele já enrugava suas nervurinhas tenras e caule juvenil a olhos não-vistos.

A morte, percebe?, se esconde em cada fissura e capilar, em cada galho retorcido, envelhecido. Mesmo a pétala recém-nascida e o sorriso jovial da criança carregam-na inoculada.
Cada ruga indesejada, envilecida por nós mesmos - aquelas que escondo com a cosmética tríade imprescindível do pó, base e corretivo - oculta algo que, sem dúvida, é necessário ocultar.
Mas está lá, para quem quiser [e puder] ver.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Em caso de cachaça ou ruína

Atrasada para a escola, a menina Beatriz correu ao quintal ainda de tênis desamarrados e cabelos em desalinho para acudir tia Abigail, que a altos brados proferia o estranho anúncio:
- Madeeeeeeeeira!
Foi apenas o tempo de chegar na soleira da porta da cozinha de vó Inês. Tia Abigail tombava ao lado das hortaliças com a retumbância dos jacarandás centenários.
Muito impressionada, a menina demorou a entender as palavras impacientes da avó:
- Está de fogo essa desavergonhada!
Mais velha e mais cínica, porém, a não-mais-menina-Beatriz ponderou. Seria bom se, como sua tia, ela pudesse conservar ao longo de sua vida, um traço que fosse de humor, em caso de cachaça ou mesmo de ruína. Em caso de vida ou morte.
Ou no caso, quem sabe, de precisar ela desmoronar - como toda mulher que conhecia - uma vez ou outra.