Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

segunda-feira, 27 de março de 2017

"em caso de emergência estes demônios serão despejados nos jardins do palácio"

este é para os desavisados que 
não atinam para a natureza incontidamente dupla do amor,
para os que acreditam na força centrípeta de algumas estrelas
ou creem ainda que isto se trata de um poema.
eu faço das suas palavras as minhas;
[com delicadeza atroz
faço dos seus gestos 
                os meus]
isto é um aviso 
a vocês, os incautos; este aqui é mesmo para vocês, 
os angelicalmente
desavisados, os que não sabem o que os espera, os desacordados.
os que aguardam algum tipo de salvação, sob o signo de pisces,
em caso de emergência,
quebre o vidro. 
mas não atravesse ainda os estilhaços.
atente para o que desperta ao lado, para o que acende
convoluto
quando o botão é finalmente acionado.

não atravesse ainda os estilhaços,
preste atenção ao ruído surdo,
ao que causa susto
ao pássaro,

à compressão de sua caixa torácica, 
ao sopro que eventualmente há de se tornar
uma cardiopatia, um descompasso.

esse enegrecimento do céu
não é do tipo que se liquefaz 
e isso não se vê todos os dias,
não é mesmo
eu vejo consolidar-se
como cal que assenta no chão após
a última demão de tinta
o princípio secreto de ruína
e ele não se vai.


se for o caso de emergência,
favor quebrar o vidro,


mas não atravesse
ainda 
os estilhaços.


















obs: em caso de eventos extraordinários, este poema deverá ser destruído.

segunda-feira, 13 de março de 2017

"das ruínas preliminares" ou "dos papéis individuais no fim do mundo"

aquela sou eu esperando a catástrofe
com as mãos seraficamente pousadas
                                         sobre o colo
a verdade é que só preciso
me agarrar violentamente
a um ponto fixo
na disco-voragem
          deste sonho

e permanecer submersa


acontece que eu engulo tua indiscrição gulosa
descendo pelas minhas pernas
e devolvo delicadas ossadas
sob o signo da carnificina moderada
(uma forma de canibalismo contemporâneo?)
expostas em seu tutano todas as comissuras dos ossinhos
equilibrados sobre a porcelana
frágil  do meu prato, porque uma coisa que acontece é que
o meu corpo
ele não se quebra
não quebra como se quebra um prato
ou um fêmur
não como se quebra uma linha
no fim de uma frase longa e deselegante
alinhada à esquerda

o que tenho a ser feito
pode até ser chamado de ofício
de linha e agulha
mas eu contenho hemorragias
é o que eu faço
-- deveria ter sido médica
mas me coube ser dique

: eu contenho hemorragias
com as mãos
todos os dias
-- um ofício que empresto
da pedra
para subjugar o rio