Desencaixotando Rita

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terça-feira, 26 de maio de 2015

"peixe-pedra"

para Julia Bicalho Mendes


por mais que
que essa carne robusta
seque ao sol, por mais
que essa penugem dourada
te cubra dos pés a cabeça,
sabemos
qual o teu elemento
de donzela pré-rafaelita 
anacrônica,
como o sal e o amor o são.
teus sonhos de ofélia 
permanecem 
marítimos,
apenas que agora
escapas ao afogamento.

acalento no peito
um pequeno animal
[esse peixe-pedra 
és tu, tão alaranjada]
que sonhas
sob dobras
abissínias
com um azul chagall,
que tranca a garganta
de mergulhadores
com sereias omissas
             de oxigênio.

nos pés descalços,
cada vez mais rarefeitos,
na água ou fora dela,
já se percebem
as membranas definindo-se
e, em pouco,
pouco tempo,
essa queimadura
no peito
não terá mais 
não terá mais
         existido.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

"ícaro 3.0"

destruir um homem 
é tão fácil quanto criá-lo
todas as memórias 
         falam de um destino
escrito em um guardanapo
                     de bar
um filete de dentes 
pontiagudos
esclarecem a origem
comprovam a tese
de peixes ancestrais
e mamíferos aquáticos

só que penso ter voado 
como quem dá um passo
                          em falso
esses míseros fonemas 
               que queimam
a parede interior da minha garganta
embrutecem meu leitmotiv
e acendem por dentro um tigre
mas mesmo um tigre não esquece
facilmente
      o salto
nem os anos
de assoalhos polidos
recobram o      corpo
                na    janela
içado por um guindaste 

esse preço rasurado
    inegociável
    de um mito
           de asas.

domingo, 3 de maio de 2015

"nascimento de vênus"

 


      primeiro
               hei 
      de lavrar
esse teu mar
   guardando
        na terra 
 o que funda
         o seco

      é preciso
toda uma era
para indicar 
     o nascimento
                da ilha
           e seu eixo


    imprimo
   de    leve
na tua imagem 
 ossos inteiros
     e tua dupla 
exposição
    emerge
       óbvia
 tal qual paleta 
     de cores 
    primárias
no auge do verão


cai a tarde
e circulam
  silêncios
como aves
   em torno
       de um
coração
que parte
     à vela

  inteiriço
ainda que 
      curvo