Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Fome

Os dentes dela a baterem-se em duelo impõem uma contenção à língua que espreita, viperina, aguardando a aproximação de sua presa. Os olhos semi-cerrados, febris, pendem sobre os seus ângulos de tigresa e o peito em brasa sobe, encrespando-se de muda antecipação.
De súbito, ela salta - premida de desejo, resfolegando suavemente em uma elegância voraz de que só ela mesma é capaz.

enfim, a sobremesa.

.






"Direi que o rosa e o azul pastel fogem
à oposição do outro e do mesmo
e reforçam o enigma dos limites."

Virgílio de Lemos

22/10/2010

chuvas de incontida acrimônia
palavras solfejadas, despejadas
sem qualquer cerimônia

empoçam no meu quintal

das respostas atravessadas,
não-ditas e ainda assim
arrependidas, uma frase minha
se estilhaça afinal

não o alcança, por você ela passa

e congela no ar

ela permanece
estática e insular

em meio a silêncios medianos
e corrompidos pela peste

A distância é glacial, ártica, polar

das pontas dos meus dedos escapam
selos extraviados, espessos
e os beijos envelopados, eu guardo
e os esqueço

os dentes trincados calam forte o desejo
de dizer, de ouvir

de atravessar uma ponte
anoitecer com você

apenas dormir





quinta-feira, 14 de outubro de 2010

histeria cotidiana no fim de tarde

em tempos de surto pré-prova de mestrado, as palavras se fecham feito ostras.
não pronuncio. nada. há dias.

desestoquei um mundo delas nos últimos meses. e fugiram assustadas.
não as culpo.

mudas, elas ficaram.

me lembram as histéricas de freud. belas e indiferentes, convertendo tudo no corpo.
palavrinhas erotizadas percorrendo as bordas incontornáveis do corpo.
paralisando um braço aqui, criando uma tosse nervosa acolá.
invertendo a própria língua. e desviando o olhar.

eaminhalínguaenrola. nada.
não pro-nun-ci-o.

o coração pulsando no estômago. o estômago escalando os nós da garganta à procura de ar. algo. algo definitivamente fora do lugar.
a voz, um fiapo. um bal-bu-ci-o.

agora me lembro sim. de umas palavras.
a mais dissimulada manifestação de histeria que já passou por mim. foi no ano passado.
era um embuste. meu, diga-se de passagem. havia um convite. assim, meio enviesado. enganchado entre os versos, à minha própria revelia. a escapulir. sim. arremessado por mim, e cuja autoria não reivindico. e ainda desminto. favor, não insistir.

aí vai.

só um minuto.

aí vai [enrubescida], a celebração. a prova cabal da minha própria histeria e desfaçatez. o convite sorrateiro que eu fiz e não reconheci. o verdadeiro motivo da minha viuvez. as palavras que torceram o seu sentido. aquelas danadas. lá vem de novo a emboscada.
era uma vez...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A solidão dos números primos



Dirigido por Saverio Costanzo, o longa italiano "A solidão dos números primos" é, na verdade, uma adaptação do livro homônimo do jovem escritor Paolo Giordano, de apenas 28 anos e já ganhador de dois dos prêmios literários de maior peso na Itália: o Stregga e o Campiello (recebeu menção honrosa).
O filme, que teve exibição em algumas salas no festival do Rio, tem previsão para ser lançado ainda em 2010 e
tem a atriz Alba Rohrwacher escalada para viver a personagem Alice adulta e o ator Riccardo Scarmarcio para encarnar o atormentado Mattia. O roteiro do longa-metragem foi adaptado em parceria com o próprio Giordano. Ao lado, a foto do escritor.


O filme traz um narrativa entrecortada, com várias elipses temporais e flashbacks, e que aos poucos, vão dando contorno à história de Alice, uma jovem desengonçada e manca, com um passado traumático e de Mattia, um brilhante rapaz, que guarda consigo um segredo pernicioso. Os dois personagens se encontram e se desencontram ao longo dos quadros, e seguem suas vidas por caminhos áridos, por vezes tortuosos e auto-destrutivos.

O ritmo da primeira metade transcorre de maneira mais fluida, pois o retrato que é feito pelo diretor sobre o difícil universo infantil no qual se inserem Mattia e Alice é bastante comovente. As cores são belas, os atores jovens e mirins bem expressivos e a câmera tem uma precisão epidérmica, aproximando-se na tentativa de captar as nuances das densas relações familiares e dos conflitos subjetivos que estão em jogo.

O terço final de "A solidão..." peca por uma quebra de ritmo: as sequências se tornam mais longas e arrastadas e os personagens perdem um pouco da carga expressiva que os marcara até então. Mattia e Alice parecem um tanto anestesiados diante do rumo descarrilado de suas existências. Ela, uma fotógrafa com um casamento desfeito, perigosamente anoréxica e ele, um físico premiado, sem qualquer espécie de vida pessoal.

Dois números primos divisíveis apenas por um e por eles próprios.














segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Tempo de desencaixotar I

Abrindo o meu fotolog semi-falecido, acho este texto de 02 de novembro de 2007.

Um texto manco, típico daquela época de prosear poeticamente. Não sei se estou bem curada disso não, aliás.

[Só me dei conta que doisdenovembro é dia dos mortos agorinha. Enfim]:

Ela levanta de uma noite de hálito quente, um contínuo abafado.
Acorda suada, e para além dos lençóis grudados, da camisola que abrasiva, invasiva se encosta, enroscando-se contra o corpo, ela acorda e, de fato se levanta.
Ela levanta, mas ainda não, ela tropeça, manca e as paredes tonteiam-se. O mundo ainda não tomou o lugar devido de sempre.
Há algo fora do lugar; as paredes não estão firmes, ondulam e se curvam, como numa mesura.
E esse chão? Esse chão não estava aqui ontem - ela pensa.
Ontem havia chão. E hoje, o que há senão uma horizontalidade estranha e árida, tacos, apenas tacos. Um tanto sujos os tacos, e frestas, e talvez algumas pulgas, e restos.

Os móveis. Os móveis não estão no lugar - ela tateia com mãos longas e inábeis por entre o que até então lhe era familiar.
E nesse exato momento, momento de escova de dentes e água no rosto, momento em que um banho frio se insinua como um bálsamo inócuo, mas ainda, quem sabe, uma espécie de alívio, o espelho sugere um sorriso branco, espumoso e olhos apertados. E olheiras profundas.
Então ela descobre que hoje a tristeza marcou território, marcou os olhos e encurvou os ombros.

Apenas isso, acordou triste.