Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

terça-feira, 8 de junho de 2010

Me gusta lo no-dicho

Em tempos de mercúrio na oitava casa, ou ainda, em tempos de silêncio, quem tem meia-palavra é rei.
A quase-palavra se apresenta, todavia, como a eminência parda. A realeza legítima por detrás das camadas.
A semi-palavra. Que emerge ctônica das profundezas feito lava. E desaparece sem deixar vestígios.

Não me entendam mal, mais até do que os não-ditos eu gosto mesmo dos quase-ditos.
Aprecio as palavras que estão prestes a descobrir seu rosto, revelando o que têm a dizer.
No entanto, não o fazem.
Recolocam a bela máscara veneziana de bronze e pronto.
Lá estão novamente: inescrutáveis. Infinitesimais.
Quando prestes estou a desvelar-lhes o sentido, num instante recobrem-se de mistério. Uma grossa dobra de opacidade as envolve, interrompendo seu deciframento.

Estas são as minhas preferidas.
São tão astutas. Armam-se de setas, deslizam sobre velozes vetores e apontam. Logo mudam de direção e aquele sentido ignorado - para onde então apontavam - esvanece como a pobre Eurídice na medida em que eu, como Orfeu, lancei-lhe um olhar antes do momento.

Ah, o descompasso.
Estas palavras sabem tudo sobre ele. Tiram-lhe o máximo proveito.
Nascem deste intervalo, na verdade. E a ele sempre retornam quando acossadas pelas vãs exigências da linguagem.
Sentido? Estas palavras riem na cara do sentido.
Não se submetem a ele, esquivas que são.

A possibilidade de dizê-las é unicamente comportada pelo não-dizer. É apenas não-dizendo que estas palavras se mostram. È no brutal contraste com o silêncio que elas surgem triunfantes e certeiras.

É por isso que eu gosto dos não-ditos.

4 comentários:

  1. Dito pelo não dito, sei que vi "Orfeu" do Cocteau hoje.

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  2. Ah Rita, que luxo. Pura potência... palavra mágica, toda trabalhada na poética do quase, sacudindo contingências, pulando fendas do talvez... Cuidado, amiga, cuidado ao desvelar o quase, tirar o veu, olhar trecho final de livro sem antes ter chegado. Cuidado que o tédio do instante murcha qualquer talvez, possibilidade, potência. "O amor não é mais do que o ato
    Da gente ficar
    No ar antes de mergulhar" Trampolim - Caetano.

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