Desencaixotando Rita

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Um aprendizado epidérmico

- Um beijo? -

ele perguntou de olhos preguiçosos, fechados, enquanto ela confirmava, aguardando com a respiração suspensa a resposta já antecipada. Ele não negaria, ela sabia. Porém o que ela não ignorava, decerto, é que aquele beijo era impotente para encurtar qualquer caminho. Não havia atalhos para o que realmente estava em jogo.

- Mas você quer? -

ela insistiu, sabendo que dessa vez não haveria resposta. Como de hábito, ela interrompeu o movimento. Achou que o beijo não faria mais sentido se não fosse desejado. Desistiu.
Mas não é que a mão dela escapou ao controle da decisão? Veja bem, ocorrem por vezes coisas desta sorte
A intenção do beijo desmantelou-se diante das portas fechadas, dos olhos fechados; o beijo pulverizado, estancou-se emudecido pelo ar refrigerado, condicionado pelas respostas ainda não pronunciadas e pelas palavras opacas, que ele sequer proferira.

A mão, entretanto, escapoliu. E meteu-se pelos cabelos dele, deslizando para a nuca. Não era bem vinda, ela estava ciente. Mas a mão não compreendia. A mão só deslizava. Pela nuca e pelos cabelos.
Desconhecia os limites do interdito, não falava esta língua. Entendia bem, contudo, a textura da língua dele, com todos as esparsas rugosidades e seu aspecto sobretudo aveludado. Compreendia por algum artifício intuitivo, quiçá sinestésico, os mal-ditos e silenciava, contrita, deslizando por seus cabelos.

Abandonou a história, a mão; os três anos de história: o motivo da discussão. Concentrou-se na geografia do corpo dele, tenso e dolorido - ela adivinhava -, todos aqueles declives e suaves ondulações; ficou atenta aos redemoinhos felpudos atrás dos ouvidos, buscando o menor sinal das monções que reverteriam o mau-tempo, dos bons ventos que desviariam o curso daquela tempestade de verão.

A mão se deteve no ombro dele, pesada, aproximando-se da garganta. Mas não havia palavras. Ela não sabia se haveria.
Ela, que sempre acreditou na potência abrasiva das palavras, em sua alquímica polissemia - generosa na maioria das vezes - entendeu que não havia profundidade no que dizia naquele momento. De tão cheias de si, as palavras inflavam e boiavam na superfície encrespada de seu próprio discurso. As palavras não afundavam o suficiente.

Era na superfície que a mão teria que se haver. Recuperou o fôlego, após o esforço de tentar submergir no corpo dele inutilmente.
A pele dele, macia, de repente se retraiu em um espasmo de repulsa, e a mão por fim entendeu que era o momento de ir embora de vez.

- Estou indo -

ela disse num fiapo de voz estrangulada. Levantou-se e saiu, sem trancar a porta.

2 comentários:

  1. Tempos que não passava por aqui.

    Bom texto, como sempre.

    E.

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  2. a imagem que fica , no fim das contas, é a textura aspera do couro cabeludo... ainda que seja bem intencionada mão contando a história... história triste..

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