Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

sábado, 11 de janeiro de 2014

Contos de verão

Quarenta graus aqui na tijuca.
Vi agora há pouco no termômetro quando atravessei a praça para comprar sorvete de doce de leite com torta alemã. Já houve dias piores, pensei. 
Não sei se foi o gosto apressado do sorvete derretendo no calor intenso ou uma memória corporal despertada pelas longas gotas de suor escorrendo pelo meio das costas, mas eu me lembrei de outros janeiros, de outras paisagens.
Me lembrei de uma infância passada dentro da água. E com ela, vem o estranhamento que quase sempre acompanha a memória de coisas líquidas no meu caso, principalmente quando me dou conta da minha precária familiaridade atual com o mar e as quedas d'água, água doce ou salgada. Já fui fascinada por tudo o que é marinho e submerso, mas agora, mesmo nas poucas vezes em que me lanço na água, vejo os meus movimentos parcos e pesados, a resistência invencível e retorno sempre à superfície, pelas leis do empuxo e do medo. 
Sim, o medo. Eu me lembro sim de sentir medo, mas não da água gelada ou dos peixes que beliscavam a minha pele quando eu ficava completamente imóvel, apenas flutuando, quase sem respirar. Mas algo do fundo me assustava, a pressão da água sobre a cabeça me forçava a interromper o mergulho e eu voltava rápido para respirar.

O verão costumava ser a minha estação preferida. Férias, natal, aniversário, primos, praia e sorvete. Um crescente irresistível para a minha expectativa de criança de cidade pequena, ainda que litorânea. A casa cheia, os almoços longos e tardios, os sorveteiros na porta de casa e o vento zumbindo pelas telas de mosquito e venezianas azuis. Todos os dias de janeiro, uma rotina doce se desenrolava: um relógio interno infalível que me punha de pé antes do resto da casa para tomar às pressas um leite com nescau e pão com manteiga já de biquíni e me lambuzar de filtro solar e hipoglós e partir para a lagoa. Atravessava a rua olhando "atentamente para os dois lados", como fora ensinada, na ponta dos pés para evitar os frutinhos pontiagudos das casuarinas pela areia e dava início ao que parece ser o único ritual que eu daria conta de criar na minha vida. 
Primeiro a temperatura. Nada se comparava à água ainda gelada do começo da manhã  e eu me ajustava rapidamente, como se pecilotérmica. Depois a caça das cochas em espiral, que eu chamava de "castelinhos", para levar para as aulas de arte do colégio, depois que  acabassem as férias. Por último, mais tarde, já com os primos e tios acordados, alimentados e devidamente protegidos do sol, dávamos início a tentativas tenazes de capturar alguns peixes. Quase nunca conseguíamos apanhar algum, mas quando um peixe mais velho ou doente deixava-se prender pelas nossas armadilhas de sacolas plásticas e redes, fazíamos a festa e prometíamos amar e cuidar dele pelo resto de sua curta vida. Não entendíamos porque ele sempre estava morto ou explodia antes do final do dia, pois trocávamos a água com diligência e o alimentávamos com migalhas de pão. Nunca havia nos ocorrido que peixes de água salgada não sobreviviam exatamente bem na água da bica, mesmo que num balde grande e espaçoso. Ainda levaria alguns anos para que entendêssemos melhor as leis da osmose.
Havia um grande intervalo que começava quando o sol ficava quente demais para as crianças e éramos obrigados a sair da água, criando uma espera interminável pelo almoço, que preenchíamos enquanto secávamos as roupas de banho na varanda, lambendo o sal que restava no corpo e brincando de fazer exóticos ensopados com as papoulas do jardim da minha avó. Depois do almoço provavelmente já estávamos suficientemente secos para assistir desenhos animados no sofá plastificado - uma artimanha típica das casas de veraneio - espiando com o rabo do olho o relógio de parede apontar para o quatro, quando o sol estaria baixo de novo para finalmente voltarmos para a lagoa. O final da tarde trazia sempre alguns concursos, ou de cambalhotas, bananeiras no fundo da lagoa, ou de castelos de areia, que eu quase sempre vencia ou ainda, nas semanas de lua cheia, quando o avô criava uma competição para o neto que primeiro avistasse a lua despontando no horizonte, na direção da praia oceânica. O prêmio era um sorvete de duas bolas no bar do Jesus, atrás de casa. Mas todos nós ganhávamos sorvetes de qualquer forma, o que estranhamente não desencorajava qualquer espírito esportivo nosso. Já enrugados e com os lábios partindo-se de sal, alguém vinha da casa para nos buscar, pois era hora de tomar banho e lanchar. E novamente as disputas das crianças pela ordem do chuveiro e a aposta de quem ficaria pronto primeiro para assistir os seriados japoneses de luta que já iriam começar.

A memória é essa coisa estranha, fio que revela mais emaranhados do que novelo. 
Já sabia intuitivamente que sorvete se ligava em mim à ideia de lar e água salgada, mas não tinha certeza do motivo da minha recusa ao mar desde então. Fico sob a impressão de que interditei um oceano perdido e que vou passar a minha vida tentando reconstruí-lo, até finalmente poder me mover na água com leveza e graça de novo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentam por aí...