Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

quinta-feira, 16 de abril de 2015

"Notas sobre Anaïs" ou "Sobre um bilhete encontrado na janela do térreo"

Fundamentalmente larga, como uma daquelas criaturas esféricas divinas do 'banquete', de Platão: redonda e preenchida, perfeitamente indispensável a si própria. Os traços de teu rosto pendem para as bordas, como que impelidos por um chamado magnético, estabelecendo o que se pode chamar, numa luz favorável, de um rosto felino, mas com proporções de peixe. Olhos muito claros, oscilando do cinza, nos dias de pó, a um tom de verde com salpicos de amarelo, que me lembrou um ocre estrangeiro, original talvez das planícies orientais, nos teus melhores dias.
Meu pequeno bebê junkie de 24 anos. Não seria possível que todas as bibliotecárias do mundo fossem como você. Que cheirassem a conta de luz vencida dos três últimos meses, ou que usassem o dinheiro do aluguel para a aquisição de mais substâncias ilícitas ou, ainda, que não dispusessem do temor reverencioso aos livros, rabiscando-os como fazes, arriscando anotações e minúsculos poemas tímidos nas margens, pois  não você ousaria migrar para a folha em branco, tão pura, imaculada. Porque como você mesma disse "eu faço com um livro tudo o que uma bibliotecária não deveria fazer" e os livros não passam de objetos e diante deles, alguém só tem duas opções: a fuga ou o uso ostensivo. E você, numa manobra única, só tua, escolheu as duas num mergulho vertical não desprovido de graça.

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Eu estava em sua companhia quando você seria bruscamente notificada de que sua energia fora cortada, desaparecendo angustiada no túnel fumarento de bancos, caixas eletrônicos kafkanianos e telefonemas envergonhadíssimos para a colega de quarto; cabisbaixa - eu nunca vira alguém tão esmagado -, você não retornaria. Não voltaria a mesma.
Porque nós duas sabíamos onde aquele dinheiro fora parar. E pressenti o sereno desespero amainado pela superfície dos corpos ao teu redor e os olhos verdes, teus olhos, cheirando a mar, recendendo a química barata, teus olhos esvaziados a vácuo, bolinhas de gude vítreas de tamanho considerável. Teu fino traço rubro delineado nas pálpebras ingurgitadas, inchadinhas e luzidias, uma colina desolada logo onde nascem os cílios, talvez um vestígio de uma noite mal dormida ou como se tivesses chorado por dias.
Você também estava comigo quando o meu terceiro casamento naufragava tal caravela desalmada para além das margens do globo; deu-se conta, cheia de argúcia, do meu tabuleiro de xadrez amaldiçoado por uma rainha vulcânica, ou, como você ainda diria, com muito mais sabedoria, "pela rainha da autossabotagem", eu. Viria atrás de mim, munida de todo um apelo hollywoodiano, um cavaleiro de copas de baralho, você, positivamente cafona, mas real, com sua missão de, em suas palavras "me ajudar a te ajudar".

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"Posso retirar os ossos?" - poderia ser a dúvida fundamental de um coveiro, mas era apenas o garçom da galeteria, levando embora os nossos refugos para abrir espaço na mesa para os seus, os meus e todos os cotovelos do mundo. "Você teve sorte que eu não tinha um maçarico para arrancar aquelas grades", o teu humor inquestionável, gradualmente mais sofisticado no correr dos dias, entre goles de cerveja morna queixando-se do que nós duas desde sempre soubemos. Não, eles não puseram grades nos precipícios, eles continuam flamulando em distâncias tangíveis, sem bordas, mas puseram grades nas minhas duas únicas janelas. E esse singelo detalhe a impediu de invadir num belo dia o meu apartamento, exceto que não era um belo dia e sim um dia infernal, daqueles que crescem fossas abissínias nos oceanos e nos corações, escavando grotas imperscrutáveis. Mas o meu silêncio às tuas pancadas insistentes no vidro do apartamento térreo não poderia ser um desencorajamento e dessa forma você habilmente entrou na minha casa e na história, na história dos bilhetes, na história dos bilhetes afixados em portas e janelas, com uma inominável preciosidade deixada no batente da minha janela, presa à uma latinha de cerveja não destituída por completo de seu conteúdo: "se essa janela for do 102, mande um sinal de vida, porque eu não tenho psicológico para este desespero". E claro que eu abriria a porta, tropeçando nos móveis, que movendo-se lentamente de lugar me asseguravam de que apartamento não era mais o mesmo, tampouco seria mais um apartamento dali em diante. Colocarias a mim na cama, eu, uma mulher de trinta anos, grande e pesarosa, com pés de mujique e tu, um bebê de vinte e quatro malfeitos, com mais substâncias no sangue do que convicção na vida, talvez no auge de seus quase noventa quilos, me iniciarias levemente na arte dos benzodiazepínicos e no perigoso contrabando de comprimidos para dormir.

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Tu te provarias uma bela domadora de caramujos, destes que esticam preguiçosamente antenas conversíveis para sentir o ambiente e encolhem-se resolutos ao menor sinal de contrariedade e, contra todas as evidências, me faria rir aos espasmos com suas narrações extraordinárias, realmente assustadoras, de quando você perdeu para sempre uma parte do olfato porque cheirou equivocadamente crack durante um mês acreditando ser cocaína. Ou a numerosa lista de admissões em hospitais gerais e psiquiátricos, o mais comovente sendo o episódio do envenenamento acidental por inalação de gás carbônico, quando você considerou imperativo atender ao chamado das musas, esculpindo o gelo do congelador de sua casa com um martelo e uma faca de pão, cinzel improvisado pelo frenesi soporífero do LSD. Aqueles pequenos furos, quase imperceptíveis, a envenenariam durante horas antes que você finalmente desmaiasse.
Eu me interessaria em particular pelos apuros nos quais você seria sistematicamente metida por obra daquele que você batizou não sem ternura de seu "cupido fanfarrão", um querubim rechonchudo mexicano, de sombrero e muitas doses de tequila pendendo pelos bigodes - e uma péssima mira, você acrescenta."Por muito menos pessoas foram amputadas", esse era o cerne do teu argumento, pois muito surpresa você constataria ter saído bastante ilesa, nenhuma hepatite ou micose visível, de sua aventura sexual tórrida na baía de guanabara na noite de reveillon. Você sempre acreditou que os mergulhos eram inevitáveis, ainda que fossem em águas turvas, ou águas condenadas pela defesa civil e sanitária há pelo menos dois séculos. A única maneira que encontraste de dizer "não" fora acrescentar um "por que não?". E para isso seriam necessárias as madrugadas prolongadas em dias desordeiros, com mil pés de insetos e a lógica desenfreada de tudo, de tudo o que se pode fazer antes de fechar os olhos e fechar os olhos vai se tornando cada vez mais difícil porque tens medo de parar e perceber que não estás mais viva há muito tempo. E talvez por isso o teu circular destempero, o exagero que você esconde sob camadas de roupas maiores do que você, o motivo da tua perda de peso e por que tem evitado refeições, uma vez que elas te lembram de um tempo que você não pode gastar - os banhos diários na pia do trabalho, essas pequenas transgressões, partículas de alívio das quais você não consegue se privar a cada vez que lhe vêm os suores no buço e o afunilamento de paredes e teto e são essas as pequenas coisas que nos salvam e eventualmente matam.

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