não ouso mesmo te revelar do desejo insincero de ser outra: pele e vísceras singradas, sopro, soluço - uma outra. não sei mais o que esperar do risco e eu queria mesmo voltar a ser aquela que sabe usar o silêncio como uma adaga de cinco pontas e 22 cartas de baralho -- a mesma que você embebedou tantas e tantas vezes com o consentimento das pessoas perigosamente enamoradas, de pernas cruzadas, unhas precocemente descascadas, cabelos em desalinho, bochechas rosadas, essa outra. porque, percebe, em torno de mim tudo sempre gritou 'provinciano' em neon, piscando, mesmo que eu soubesse ser elegante como uma concumbina chinesa com ascendente em imperatriz-to-be embora eu ainda saiba usar de sofisticação a meu favor como se usa uma nuvem de perfume caro com a naturalidade letal que neutraliza os sapatos gastos comprados a prazo mas não esconde uma vergonha íntima tão antiga que já não se encontra nem a matriz e tampouco o fim e o que você chama de paisagem, meu amor eu chamo mesmo de uma bela cicatriz causada por outros e inúmeros impactos.
ana c. está farta: da materialidade embrullhada do signo da metalinguagem narcísica dos poetas do texto de espelho em punho revirando os óculos modernos [ana, quero também a página apinhada de abajures a legião antidiluviana invadindo pelas margens mas sem ocupar efetivamente o coração do texto] mas ana c. deseja sobretudo esse enamoramento letal por abismos anacrônicos e seu erro planejado de cálculo: ancoragem ancorar ancorar ancorar um navio no meio-fio [o navio encalacrado no espaço] **************** ou uma sequência interrupta de naufrágios? mas há que se considerar a pausa perigosa nos pulmões a pausa perigosa nos pulmões de katherine m. como é possível, ana traduzir bliss se o estado de graça há de desembocar sempre numa pausa? tu trocas a beleza desmedida da 33a poética [o desejo secreto do poema] pela serenidade de quartzo como têm as saudáveis mulheres campestres de mansfield com seus rostos lunares seus braços fortes o busto substancial seus rebanhos de ovelha [as mulheres de mansfield prontas para a colheita] as mulheres de mansfield e a pausa perigosa nos pulmões