Desencaixotando Rita

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"a hora da estrela"

para leonardo marona


esse é para você
morcego noctívago
que não reconhece nem teto nem parede
nem o próprio brilho
seguimos no nosso diadorim off-sertão
modernismo wannabe dos que vieram 
diretamente da água
para matar a sede do rio

no fim prosaico da discussão de duas horas
sobre o copo quebrado ou o lixo vazando na cozinha
ou a panela de batata doce que cozinhou demais
você constata que, de nós dois, sim,
                    você é o mais romântico
e eu digo 'mas nós somos românticos de formas diferentes'
e você graceja 'é, de fato, eu sou da tradição 
                          do romantismo inglês e alemão'
[sim, com tua solidão proporcionada pelo bosque
               e a vastidão dos espaços naturais abertos,
                          você, oxóssi-caçador da bílis negra]
mas eu, no caso, segundo você, sou a tragédia!
você me diz, 'você é a própria grécia',
                                           [cassandra, antígona e medeia
enfileiradas na cabeça da hidra, mais a fúria do olimpo

                  com raios de iansã e ingenuidade de macabea]
você diz que sou a origem de todo o romantismo, de todo o cinismo,
da neurose, perversão e da forclusão do nome-do-pai, da mãe [...]

e aí, cá para nós, você há de me responder então como faremos
para cumprir a nossa parte, nosso fair share
na tarefa hercúlea de soçobrar
o mito do amor romântico,
essa bitch, essa marca indisputável --
fardo-sísifo da nossa geração pós-yuppie

-- se somos nós, meu amor, o próprio mito
se nós somos o amor romântico
o perverso, a amor perdido
  [encenado reencontrado]
-- o amor com a faca na mão

                         e a própria sede do rio.







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