Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Do sincretismo religioso em minha infância

Cresci numa casa ladeada por flamboyants frondosos, com um grande quintal de mangueiras e abacateiros - e até uma pezinho de siriguela, se me lembro bem. No interior desta casa, mais precisamente no corredor estreito que levava aos quartos principais, minha vó cultivava dúzias e dúzias de santos católicos talhados em madeira mal pintada, pendendo numerosos em um altar doméstico aonde um séquito de velas dos mais diversos tamanhos e cores eram acesas noite e dia, com diligência e sem falta.
Eram figuras quase grotescas essas imagens - que muito me assustaram, e se me perguntam, assustam até hoje quinze, vinte anos depois.
Me lembro destas estatuetas escuras, espectrais e consigo até trazer à memória alguns de seus nomes e histórias. Histórias essas que minha avó tentava me esclarecer, mas que eu não demonstrava muito interesse na época para além da curiosidade infantil esperada para a minha idade.
Curioso, na verdade, é que mesmo às custas de algum esforço mnêmico, não me lembro de eu mesma ter assistido qualquer missa na minha infância ou mesmo tenho qualquer recordação de minha avó saindo de casa para este fim.
Ainda mais curiosas eram algumas das amigas dessa mesma avó, que a conduziam muitas vezes nas noites de sexta-feira completamente vestida de branco e com um largo turbante guardando os cabelos tingidos e ainda belos e que permaneciam elas mesmas silenciosas e enigmáticas, diante das minhas perguntas. E quando mordida, eu questionava por que não podia ir junto, elas me respondiam que não era lugar de criança e que quando eu crescesse entenderia. Essa mesmas amigas me recriminavam, já crescida, por ter cortado os meus cabelos, avisando que 'as minhas ciganas' não apreciariam nada, nada o fato. As mesmas amigas que sorriam com malícia matreira quando eu estranhava os pratos de frutas, flores e cerveja deixados em cantos estratégicos da casa e do quintal, incensando de jasmim acre e uvas azedas a cozinha e todo o jardim e que também deitavam as cartas para minha avó nos momentos mais aflitivos.
A verdade é que cresci e ainda não entendo algumas coisas.
Não entendo o dia em que fui levada para tomar 'um passe' num centro espírita kardecista, aos oito anos, por ocasião de uma malcriação minha. Não compreendo até hoje o que minha tia quis dizer quando afirmou que eu tive aos onze 'um princípio de incorporação por um espírito obsessor'. Lembro apenas das mãos e pé dormentes e a sensação aterrorizante de estar virando cambalhota sem sair do lugar.
Talvez não seja esclarecer muito, se eu ignorar o fato de um de meus tios ter sido alvo de forte chacota por parte dos outros irmãos - incluindo a minha mãe, que em breve se tornaria ironicamente uma simpatizante do budismo - quando perto da puberdade ele decidiu fazer parte da igreja messiânica Perfect Liberty. Meus tios contam que faziam revezamento entre si às gargalhadas para que não deixassem passar incólumes os rituais de 'saudação do sol' e as orações feitas em voz alta, na língua japonesa, dentro da casa de minha avó.
Não posso sequer explicar o meu profundo amor por mitologia grega, surgido aliás contemporâneo ao meu aprendizado de leitura, de forma que junto com os gibis da turma da mônica, aos seis anos eu lia os mitos de criação do universo e de todas as coisas, pegando os pesados volumes de mitologia da minha mãe - que eu mal conseguia segurar, diga-se de passagem - e quebrando a minha cabeça para decifrar as agruras de Psiquê e Eros e o rapto de Perséfone, que eu considerei aliás fascinante, ainda que bastante traumático.
Não posso deixar de rir das minhas tentativas de criar oferendas à deusa Deméter, pedindo aos sete anos de idade por fertilidade e fartura para a minha vida futura.

O que eu realmente gostaria é rastrear o momento em que deixei de acreditar. Ou pelo menos vislumbrar se, de fato, eu acreditei em algum momento.

4 comentários:

  1. Acreditar no que, moça bonita?

    E.

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  2. e é sempre num detalhe pequenininho que a gente deixa de acreditar. mas há esse momento?
    um beijo.

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  3. eu não lembro de nada disso... tsc... detesto a minha memória, isadoRita...

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  4. hahaha

    A memória prega peças, sis! ;)

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