Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"enquanto você esteve fora, meditando em retiro pelas montanhas"

eu, que segundo a psicologia analítica de Jung,
seria um caramujo introvertido, labiríntico
e temperamental, experimentei golpes de
ternura maciça e dormi irrequieta, na cama
demasiadamente grande, com tua camisa
do Velvet Underground,  a banana de Andy
Warhol manchada de sangue e não chorei
nenhuma vez, nem uma vez, você me conhece.
enquanto você esteve fora por quase cinco
dias inteiros nas montanhas, para meditar
e cozinhar vegetais-mas-não-raízes, pois
são proibidas, eu dancei, escondida pelas quinas
dos móveis a espanar, refazendo teus passos-
fantasmas pela casa, pensei na tua costela quebrada,
e costurei todos os botões arrancados pelos teus
dentes afiados, com agulha e linha de verdade,
como uma boa mulher, como uma mulher de verdade.
você esteve fora por quase cinco dias inteiros e eu refiz
mentalmente o percurso ardiloso do acaso que nos pôs
juntos aqui nesta casa de dois cômodos e louça discordante;
fiz algumas compras imaginárias de vinhos e espumantes
para celebrar um destino e tive um pequeno contratempo
que logo se mostrou digno da minha atenção. a verdade é que
explodiu o disjuntor monofásico do apartamento e temos aquilo
que parece ser uma bela clivagem por aqui. metade da casa acende,
obediente - a minha metade -, mas a outra metade rebelou-se
contra a sua ausência, parece, e recusa, recusa ameaçadoramente,
com faíscas ostensivas e risco de curto-circuito, a luz.
metade da casa recusa a luz como numa encenação, a mímesis
de um negativo da sua presença, como um luto prolongado, ressentido,
pelo favorito que parte, o habitante de fogo que dorme aqui, mas não está
presente. enquanto você esteve fora, meu querido, a meditar nas montanhas,
eu assisti serenamente a transfiguração da sua metáfora ígnea em realidade, e
esvaziei a geladeira de todos os seus itens, esperando pelo inevitável degelo.

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