Desencaixotando Rita

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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

"notas sobre vida sem cata-rina"

eu chego em casa com a roupa de baixo amarrotada, um desalinho tão contundente e já tão meu, que só posso supor que vem de dentro, o figurino que se adere ao personagem indobrável, amorfo, eu.
a maquiagem de ontem disputando espaço facial com a maquiagem de anteontem. esses atavismos de delineador líquido e sombra verde água, uma sereia desaguada no meu rosto. algum rímel em sítios inapropriados. pele pegajosa, corpo lambido por um lagarto morno, climático. e o seu corpo, eu tenho ainda a impressão do tato que ele permitia à minha pele, a temperatura inapreensível, o corpo que não encontro mais nas garrafas, nem nos pratos, nem no balcão, sentado de pernas descuidadamente cruzadas, flertando com o barman, para o meu desespero.
eu me sento na cama chutando para atrás da cômoda os sapatos, ainda tonta dos quase dois litros de vodca, digerindo (mal) um kafta e uns tomates recheados no almoço (não me lembro mais da sua receita de arroz a piamontesa). tenho uma escultura capilar indicando a curva normal da umidade relativa do ar dos últimos dias e me lembro dos seus cabelos irrepreensíveis: a desordem mais perfeita de cachos no travesseiro e a primeira luz penetrando pela nesga da cortina para revelar a penugem alourada no contorno do teu rosto convulso adormecido, uma recessividade adorável que resistia nos teus genes, apesar da densa cabeleira escura, muito escura. sempre me perguntei o motivo de tua expressão tão tensa ao dormir, os demônios meridianos do teu sono. Me pergunto se a tua pequena cria também revolve os dedos dos pés até se acalmar, antes de fechar os olhos.
lembro com uma pequena fisgada de ressentimento do seu glamour embriagado, mesmo transpirando álcool por todos os poros, por dias a fio -- um metabolismo que nunca irei compreender -- você ainda parecia uma personagem trágica e incandescente no meu próprio filme e eu, um guaxinim com envelhecimento precoce.
você, o meu travesseiro para sempre intocado.


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'ca-ta-ri-na', cataruska, cata-lina, como eu faço para te avisar que a nossa casa (você pode nunca mais cruzar essa porta ou tocar, admirada, os azulejos hidráulicos que escolheu e me obrigou a comprar no cemitério dos azulejos na baixa da égua manca, a casa será sua, oncinha, sempre) tem sido palco de um estranho fenômeno. já tem meses que abelhas escolhem este apartamento para morrer. primeiro achei que fosse um evento qualquer, isolado. mas todos os dias surgem outras e mais algumas, entram pela janela da sala, pelo vão aberto da cozinha, deitam-se sobre o assoalho e morrem. no começo, eu catava seus corpos pequenos, listrados, e os punha numa caixinha sobre a mesa da sala, mas são tantas agora que as deixo como caem, no chão mesmo, como um mausoléu. E ando pelos cômodos, desviando destes corpúsculos, como num balé fúnebre que me lembra você.





2 comentários:

  1. eu me preparo para ler os teus poemas
    sobretudo quando são grandes - e não falo do número de linhas
    eu me preparo pois ainda não domino o mergulho em apneia
    e confesso, tenho medo de que me acabem as bolhinhas saídas do nariz
    então respiro muito antes,
    abrindo espaço entre as costelas
    fazendo inflar os meus sentidos mais primários

    faz diferença
    se choro ou não embaixo d’agua?

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    1. abrir espaço entre as costelas. esse é o trabalho de uma vida, anoushka... <3 te amo, wild ceutaurinha...

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