Desencaixotando Rita

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terça-feira, 15 de novembro de 2016

"primavera autocrata politeísta apocalíptica"

deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
         e não melancólicas

porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
                  anacrônicos
apenas os sanguinários

homicidas.



aqui nos movemos
            na sombra

e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
   ~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]

então desliguem
         esse verão

antes que os olhos
          se apaguem
                               
                   
                                     


6 comentários:

  1. oi estava lendo seus textos sem pressa para não ter aquela velocidade habitual de interpretação -- para ser sincero acho um pouco limitante essa relação de inter praetium -- bonito é quando o autor e o leitor encontram-se com as suas específicas tensões sem o desejo expresso, quando ambos estão desencarnados de si mesmos, livres dos seus habituais pertencimentos... gostei muito do seu texto abaixo e resolvi traduzi-lo, qualquer incorreção ou descabimento sequer publico. Serão publicados com os devidos créditos mais o link para o poema original em seu blogue.

    um abraço

    la passion selon r.p. par rita isadora pessoa [trans. ramonlvdiaz]


    j'ai mordu et vu la partie dure
    se déplaçant dans l'oscillation
    entre magnitude et extinction.
    j'ai mordu,
    pourchassais tout ce qui reflète lumière, sans
    sources d'interférence, sans
    assemblage des plans sensoriels,
    ce synesthésie oppressif qui déclare
    que toute splendeur est temporaire.
    je suis mordre l'extrémité de mes doigts,
    l'mâchement stratégique des entrouvertes
    pages
    et par l'été entrant
    dans rio de janeiro,
    je nécessite de neige comme si
    je devais me réveiller d'un rêve excessif,
    merveilleux, oui, mais
    avec une beauté énorme
    des collapsus et des éveillés volcans.
    j'ai ressenti une compression lente
    de l'âme, comme si je devais
    quelqu'un petit, en diminuant progressif
    millimètre par millimètre, encore
    en gardant toutes les proportions,
    comme un nain liliputien de Rosa Montero,
    en attendant la disparition éventuelle.
    "c'est une erreur", c'est ce que vous dirais,
    et je suis toujours en attente,
    j'attends que tu me dises
    "oui, vous vous trompez", mais je ne le suis pas.
    oui, de petites surprises brûlent le lendemain,
    mais je ne me trompe pas:
    j'inventerai un autre nom pour ce qui meurt
    aux tournants décisif et renaître en êtres diffus, sans
    Peau, sans conscience de la métamorphose qu'il garde
    pour lui-même.


    [original]

    mordo e observo partes duras
    movendo-se na oscilação entre
    luminosidade e desaparecimento.
    mordo,
    em busca de algo que reflita luz, sem
    pontos de interferência, sem
    sobreposição de planos sensoriais,
    essa sinestesia opressiva que anuncia
    que toda alegria é temporária.
    ando mordendo a ponta dos dedos,
    mordendo as páginas estrategicamente
    abertas
    e a essas alturas do quase verão
    do rio de janeiro,
    eu preciso de neve como quem precisa
    acordar de um sonho excessivo,
    lindo sim, mas
    com a beleza descomunal
    dos colapsos e vulcões despertos.
    tenho sentido uma compressão lenta
    da alma, como se estivesse me tornando
    uma pessoa pequena aos poucos, diminuindo
    milímetro por milímetro, ainda assim
    mantendo as proporções,
    como uma anã liliputiana de Rosa Montero,
    aguardando o eventual desaparecimento.
    "é um engano", é o que você diria,
    e eu ainda estou esperando,
    estou esperando que você me diga
    "sim, você está enganada", mas eu não estou.
    sim, pequenas surpresas ardem na virada do dia,
    mas não estou enganada quanto a isso:
    hei de inventar um outro nome para isso que morre
    na virada do dia e renasce bicho difuso, ainda sem
    penugem, sem consciência
    da metamorfose que guarda em si.


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    1. Uau, que incrível, Ramon! Fico muito feliz com a sua leitura, com o texto traduzido e sobretudo pelas suas palavras generosas! <3 Um grane abraço!

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  2. "porque aqui não aceitamos mais andorinhas
    e nem albatrozes brancos
    anacrônicos
    apenas os sanguinários

    homicidas."

    Uau! Que coisa linda esse poema... Que espantosos esses versos!

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    1. Obrigada, Teofilo! Fico feliz que tenha gostado!

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