Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Autobiografia infame

eu,
mulher inventada,
feita de pontas

fio de linha solto
em suéter felpudo
de tricô azul

que eu teimo em puxar

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Espanquês

penso que esses dias

há qualquer coisa de excessivo
nos teus lábios cheios e precisos

no sibilar agressivo do teu toque

há também
a sua beleza cálida de ostra
que encerra a minha palavra

tal qual batuta inversa de maestro

a sutura de escárnio bruto
que emudece o grito agudo
de siringes, siringes

e mais siringes

o silêncio das horas desalmadas

e a onda de vago desejo
que passa

e quase me atinge

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

em tempos de amor, cólera e escassez de palavras,

ela acorda com sol
e vestígios de sonhos nas pestanas

domingo, 31 de julho de 2011

Foto[grafia]



Sob o olhar alheio,
me confundo

entremeio
cores em holograma
pixelada

até a raiz dos cabelos

enceno
o teatro do eu,
o magnífico drama
de ser eu

ganho contorno
na bidimensionalidade obturada
respiração comprimida

no diafragma

um feixe,
um feixe de luz
me engoliu

sim,
a minha especularidade
vergonhosamente roubada

por um olho de peixe

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Diário de viagem


A primeira viagem sozinha, a gente nunca esquece. Aqui vai um trecho do meu diário de bordo, no dia da minha chegada em Paris, em 16/01/08:

"Acabei de chegar. Que nem uma maluca, congelando embaixo dos cobertores. Tentando descobrir como farei para visitar os lugares legais.
Cômico. Gastei 70 (setenta!) euros para chegar aqui. Com um 'taxista' que foi ao Rio quando tinha 25 anos.
O hotel é... estreito. Malas são um calvário. O elevador só cabe uma pessoa e o corredor é ridiculamente exíguo.
Tive que esperar para fazer o check in. Bem uma meia-hora.
Me puseram num quarto que tinha gente. Tive então que voltar à recepção e pedir um novo quarto (me sentindo a mais idiota do mundo, aliás, esse sentimento não me abandonou até agora!).
Como se não bastasse, eu tive uma dificuldade oligofrênica e NÃO consegui abrir a porta do quarto. Tive que implorar e gesticular (!!!) para a faxineira/camareira para me ajudar com a chave. Em inglês e francês misturado, você imagine.
Patético. Ainda bem que ela era boa gente.
Não posso evitar, me sinto extremamente mal por não saber francês.

Foi uma chegada tensa. Me sinto
très insegura. Não sei se isso inclusive vai melhorar. O que eu vou fazer, aliás, é algo que eu deveria ter feito há ages ago: me localizar quanto o metrô, ver as estações e as conexões de linha que eu preciso fazer.
Material:
- Mapa de Paris
-Guia do viajante independente
- Bilhetes de trem

Ainda estou em estado de choque.
E nem contei do meu desespero inicial com o banheiro. Então, vamos lá.
Só fui ao banheiro uma vez no vôo, o que foi necessário e suficiente, graças ao fato de eu pouco ter bebido durante a viagem.
Eu já tinha uma noção prévia de que teria que esperar um tanto para fazer o check in no hotel.
Depois de toda a atrapalhação quarto/chave/faxineira/malas-entaladas-no-corredor, eu entrei, tranquei esfuziante a porta e corri para o banheiro - ou pelo menos o que eu achava que seria o banheiro - e me deparei com uma pia (com água quente e fria, sabonetinhos, xampuzinhos), toalhas, chuveiro e... nenhum vaso sanitário.
No auge do meu desespero, eu tentei futucar o aquecedor com a esperança de checar se ele não magicamente poderia se transmutar em uma privada portátil.
Então, conformada, eu me resignei à idéia de que teria de tirar as calças e mijar no chuveiro toda vez que sentisse vontade.
No entanto, eu me dei a liberdade de pensar que seria azar demais no mesmo dia.
Olhei bem o quarto e resolvi abrir como quem não quer nada a porta que a princípio eu julguei se tratar de um closet.
Ali estava. O vaso sanitário.
E eu fui uma pessoa feliz de novo. Muito feliz."

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Me explicaram que do olho do furacão não se escreve, não se dá notícias. Escreve-se, por outro lado, ao lado dos escombros, na paisagem devastada.

sábado, 21 de maio de 2011

Discordâncias elementares




gênero - feminino.
com todas as interrogações que lhe cabem.

grau - excessivo.
do diminutivo ao superlativo, sigo sempre bordejando as zonas fronteiriças entre o ínfimo e o invasivo.

número - divergência absoluta.
certeza precoce de que nunca fui uma,
não me conjugo no singular.
mais de uma. duas ou três?
não.

apenas mais uma. ovelha/loba pacata
no rebanho desgovernado,
a saltar.