Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

terça-feira, 18 de maio de 2010

Se é para partir, que seja em incontáveis partes.

Cumprindo a promessa de desengavetar, tasco um texto mais do que encaixotado, esquecido no meu fotolog falecido, em idos de 2007.
Próximo do meu aniversário de 23 anos.

Era qualquer coisa sobre o solstício de verão daquele ano. E a minha pluralidade.
Um dia longo demais para tanta gente. Uma multidão.

Uma menção carinhosa à legião que habita em mim.

E aí vai:

"Àquelas que me constituem dedico o dia de hoje.
E por ser dos dias o mais longo, dedico ainda mais, pois que, ainda que algumas de vocês eu já tenha tido o prazer - a delícia, o desespero de conhecer - sei que há muitas ainda. Há mais.
Conheci algumas, dei nome a algumas, elas que são eu mesma. Elas que me esfacelam e decompõem em prisma multicor, em preto, branco e vermelho, guardando em si mesmas a chave do mosaico que sou.
Uma, duas, três, quantas...?
Não sei, e creio que não saberei. Não é importante.
Então múltipla - muitas, muitas mesmo - eu vou assim, seguindo. Caminhando na ponta dos pés quadrados, delineando com pegadas leves na areia, elas, vocês, eu mesma.
Contorno cada uma, me aproximo, e quando caio em mim mesma, já fui, já caí de mim mesma. Fui derrubada, tombada e já não sou o que sou.
Posso ser apenas o que fui, e agora, somente aquela que se aproxima cava os meu espaços.
E hoje, as cavidades são preenchidas em castanho e bege, em verde musgo e cor-de-tijolo; pingos de ouro envelhecido escorrem finos; opalas e safiras caem de mim aos borbotões.
Posso ser ela, e também posso não ser.
Às vezes tenho opção. Às vezes não.

Hoje escolho ser quantas forem, quantas quiserem ser através de mim, e quantas eu quiser ser.
Das mais suaves e belas; das vozes melífluas e cadenciadas, até as que gritam, com cabelos em desalinho, cujos gemidos eu pronuncio por vezes estrangulados e em rompantes de fúria.

Escolho até a inquieta, aquela que anda de um lado para o outro, sem sossego, sem respiração.
Eu convido a que chora, aquela que sopra tímidas gargalhadas sem som.
Dou voz às que cantam e às que desafinam, me submeto a todos os ardis, que me subornem. Que me denunciem.

Estão todas convidadas a comparecer hoje.
O dia foi longo, contudo a noite será curta. É preciso que se revezem.
Há convites para as que enganam, e também para aquelas que são dolorosamente sinceras; as pérfidas, que venham. Por que não?
Posso ainda convocar aquelas que dançam e que são vivazes, e lilases e plenas de cor. Essas eu já fui.
Por fim, chamo as perigosas, aquelas que cuidadosamente evito - as charmosas e as letais.
Podem vir, eu convido. Convido todas as demais."

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