Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

quinta-feira, 26 de junho de 2014

"a virada do ano chinês"

há quem contabilize
a passagem lenta dos anos
a quatro patas e dentes

[você sabe que sou dessas]

aprendi
que, fracionado pelo calendário lunar,
meu caldeirão de alças de jade
estampa milênios
de copas e espadas no peito - ainda que
um trigrama, um royal flush,
[ou outro trovão insolúvel]
não revolvam o nosso problema.

o fato é que coelhos ao molho pardo
não apetecem
ao apetite de meus morcegos;

e você continua resmungando
outros cardápios, frases azinhavres,
enquanto embalo galos de Chagall
e danço nua com tigres
hindus no ano do metal e do fogo.

me acusará de supersticiosa, percebe,
pois sabe que
consulto, nas primeiras
horas azuis da manhã,
o livro das moedas e varetas
e choro, despetalando tertúlias,
madressilvas,
que encurvam
as tuas escápulas em escarpas,
situando
teus cascos orientais de cavalo
em cordilheiras distantes
tibetanas, emudecendo-me de vez
o som do sobrevoo breve gutural,
que permanecerá bem,
ainda bem,
ainda na minha garganta,
por muitos longos anos.







2 comentários:

  1. Belíssimo.

    Como sempre.


    saudações,

    E.

    ResponderExcluir
  2. gosto dos coelhos pardos, porque eles têm a feiura dos coelhos humanos.

    ResponderExcluir

Comentam por aí...