Desencaixotando Rita

Desencaixotando Rita

domingo, 31 de agosto de 2014

antimusa

aquela que traz,
nas cartas de baralho,
notícias sobre a vida silenciosa nos vulcões;
a cigana verdadeira da suas repetições seriadas, meu querido.
com pés de mujique, e linhas siamesas,
para você, o morcego siciliano que gastou sua melhor poesia
com as anteriores: valquírias, rosas, lobas e
todas as meninas prodigiosas, musas indiscutíveis;
sua barba ensopada de sangue, seus sonetos escandinavos,
suas certezas de amor jurado na carne trêmula.

mas eu, eu tenho um passado romeno; um coração eslavo
de proporções gregas, com colunas e templos em ruínas.
partilho minhas agruras conjugais com a moça alta da padaria,
seus dois filhos e uma casa na baixada, anulada entre tijolos
e turnos de trabalho forçado.
mas ainda, minha alma não é legível, passível de ser extraída
em formato compatível
com o seu sistema, meu amor.
paga-se um preço pela serenidade doméstica, eu pago o preço
de ser pixelada por você, serenamente; um holograma ornamental,
esvaziado e preenchido,
repetido até a exaustão dos nossos membros difusos.
a inconsistência de conteúdo
do amor há que ser forma
e caminho.
uma forquilha aos pés de cabra de onde
se desdobram barbatanas, justo onde havia
apenas respiração
e um breve entorpecimento noturno
da pele.


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