Desencaixotando Rita

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segunda-feira, 13 de março de 2017

"das ruínas preliminares" ou "dos papéis individuais no fim do mundo"

aquela sou eu esperando a catástrofe
com as mãos seraficamente pousadas
                                         sobre o colo
a verdade é que só preciso
me agarrar violentamente
a um ponto fixo
na disco-voragem
          deste sonho

e permanecer submersa


acontece que eu engulo tua indiscrição gulosa
descendo pelas minhas pernas
e devolvo delicadas ossadas
sob o signo da carnificina moderada
(uma forma de canibalismo contemporâneo?)
expostas em seu tutano todas as comissuras dos ossinhos
equilibrados sobre a porcelana
frágil  do meu prato, porque uma coisa que acontece é que
o meu corpo
ele não se quebra
não quebra como se quebra um prato
ou um fêmur
não como se quebra uma linha
no fim de uma frase longa e deselegante
alinhada à esquerda

o que tenho a ser feito
pode até ser chamado de ofício
de linha e agulha
mas eu contenho hemorragias
é o que eu faço
-- deveria ter sido médica
mas me coube ser dique

: eu contenho hemorragias
com as mãos
todos os dias
-- um ofício que empresto
da pedra
para subjugar o rio






terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"a hora da estrela"

para leonardo marona


esse é para você
morcego noctívago
que não reconhece nem teto nem parede
nem o próprio brilho
seguimos no nosso diadorim off-sertão
modernismo wannabe dos que vieram 
diretamente da água
para matar a sede do rio

no fim prosaico da discussão de duas horas
sobre o copo quebrado ou o lixo vazando na cozinha
ou a panela de batata doce que cozinhou demais
você constata que, de nós dois, sim,
                    você é o mais romântico
e eu digo 'mas nós somos românticos de formas diferentes'
e você graceja 'é, de fato, eu sou da tradição 
                          do romantismo inglês e alemão'
[sim, com tua solidão proporcionada pelo bosque
               e a vastidão dos espaços naturais abertos,
                          você, oxóssi-caçador da bílis negra]
mas eu, no caso, segundo você, sou a tragédia!
você me diz, 'você é a própria grécia',
                                           [cassandra, antígona e medeia
enfileiradas na cabeça da hidra, mais a fúria do olimpo

                  com raios de iansã e ingenuidade de macabea]
você diz que sou a origem de todo o romantismo, de todo o cinismo,
da neurose, perversão e da forclusão do nome-do-pai, da mãe [...]

e aí, cá para nós, você há de me responder então como faremos
para cumprir a nossa parte, nosso fair share
na tarefa hercúlea de soçobrar
o mito do amor romântico,
essa bitch, essa marca indisputável --
fardo-sísifo da nossa geração pós-yuppie

-- se somos nós, meu amor, o próprio mito
se nós somos o amor romântico
o perverso, a amor perdido
  [encenado reencontrado]
-- o amor com a faca na mão

                         e a própria sede do rio.







quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

"eu, olga hepnarová"






é verão em praga
e o ano é 1973.

[você,
olga misantropová, com seu figurino de caminhoneira nouvelle vague, suas calças de veludo cotelê e  a jaqueta de couro craquelada, você, anna karina psicopata, ainda que visionária, você ignora o óbvio

: o avesso do amor não é o ódio]

           é verão em praga
           mas faz ainda muito frio
e o avesso do amor é o coração terminando de bater de encontro ao asfalto, fraturas expostas, intestinos a migrar da cavidade abdominal como uma corda autônoma que sabe exatamente o destino que lhe é devido: o pescoço que espera a quebra
                de parágrafo,
o cadafalso que espera
           a quebra         do pescoço
   com a corda na mão.
[corta para] o caminhão de olga estacionado na calçada;
a fileira corpos estendidos como uma oferenda satânica, mas você não é satânica, olga, você é uma assassina em massa e isso é diferente. satânico é outra coisa. planejar um assassinato simples requer               um engodo fundamental, um paralaxe e você
                     escolheu ignorar que o avesso do amor
                                                              não é o ódio.

é verão em praga
             e faz frio;
o avesso do amor
se faz por meio de grandes colapsos,
colisões no concreto, no asfalto,
um embotamento brutalizado,

e você, olga hepnarová,
espera seraficamente
          a polícia;
a bolsa no colo,
sentada em seu caminhão

você, a autora dessa carta perturbadora
para as gerações que virão:


                        "eu, olga hepnarová,
                     vítima de sua bestialidade,
                    condeno-os todos à morte."


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

"diário do ano do macaco de fogo"

You transform into a tiger before their eyes.
Your very being commands an awe that makes consulting the oracle unnecessary.
Hexagram Forty-Nine/Line Five: The revolution (I CHING)



                                     se como celan

                            eu tivesse a certeza
de que os poemas estão a caminho
se ao menos eu não tivesse
fundado toda uma mulher
       [uma mulher inteira
       garganta glote ancas
            sexo tornozelos]
      apenas em torno
de uma palavra infeccionada
                      se eu não tivesse 
                     as mãos gretadas
 como uma figura mitológica
                           mal-sucedida 
em suas peripécias amorosas
        eu poderia sim acreditar
            [como se a minha vida
      dependesse disso de fato]
 no efeito de luz
na voragem súbita
no obscurecimento
que se segue
     e se repete
            e se repete
nesse projeto desconjuntado 
                     de revolução
mas é que eu vejo coisas
vejo coisas em ti e neles
constato o que há de cínico -- o símio
que mimetiza o desfecho ígneo
                      e não 
eu não sei mesmo manusear o objeto isqueiro
                          não tenho habilidade
para os grandes gestos incendiários
      estou aguardando   
 p a c i e n t e m e n t e
      a grande água
como alguém que gesta
um filho querido
na cicatriz íntima
de seu próprio útero
mas se aterroriza diante 
da perspectiva brutal
     do nascimento 
       de um grito



"manual de exorcismo - nível intermediário"

me descreveram extensamente seus traços aristocráticos,
sua testa alta, os olhos límpidos azuis, sua tez de valquíria,
e soube que você cresceu em frente ao mar e que
fora uma criança recessiva numa família de possíveis alcoólatras,
mas que não hesitou em seguir ~abstêmia, é verdade ~ o mesmo caminho.
fui informada das suas tardes no clube, suas aulas de equitação e você sabe que
eu vivi pouco mais de um ano na sua casa e admito, portanto, que prestei homenagem
à deidade teutônica que você deixou em seu lugar quando foi embora,
levando às pressas na mala os livros de liberalismo econômico e as novelas de
Henry James, deixando um homem (é correto dizer o "nosso homem?") decomposto
em vários mosaicos, os quais eu, com minha lua em peixes, solucionei rápido demais.
há o preço a se pagar por isso. 
há os filhotes de camundongo escondidos no assoalho,
mas há mesmo o mistério que é você, desaparecida [a mulher anterior]
sem vestígios,
sua beleza apolínea -- uma moça de carreira, concursada,
dourada e, esquecido sobre a mesa, o lubrificante vaginal,
           seu sobrenome radiofônico na correspondência que
                                                            continuou chegando por meses,

           você, meu demônio incidental particular,
                               seu sangue azul Chagal
                                  manchando o sofá.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

"primavera autocrata politeísta apocalíptica"

deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
         e não melancólicas

porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
                  anacrônicos
apenas os sanguinários

homicidas.



aqui nos movemos
            na sombra

e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
   ~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]

então desliguem
         esse verão

antes que os olhos
          se apaguem
                               
                   
                                     


"um casamento romeno"



quando penso em você
eu me lembro
do som ininterrupto
de patas e correntes
resvalando sobre
a terra batida
do encantador
de ursos 
empoleirado
com seu acordeão
longínquo se afastando
do vilarejo
para retornar no verão 
seguinte com o mesmo urso
sempre o mesmo urso
a mesma intenção oculta
a fome do bicho
a dança notável do bicho
impressionante
o mesmo urso



me lembro de quando
anoitecia
e a avó  ladrava
para eu sair logo da rua
e voltar 
para perto 
do       fogo
pois aquela era
                  a hora 
dos morcegos
dos mosquitos
das criaturinhas aladas
que voam suicidas
em direção à luz


eu me lembro claramente
do dia do nosso casamento
os sinos dobrando em dois
eu me dobrando em duas
de dor        de desterro
o som dos pratos quebrados
as moedas voando sobre nós dois
os votos de boa fortuna
dos anciões
                em vão

our big fat romanian wedding
um matrimônio italiano à leste
                                        de bucareste

nem a teoria do multiverso
explicaria nossa presença nesta 
tragicomédia a la kusturica

mas escrever sobre o amor
é como fundar um país íntimo
deslocado                   à parte 
de um domínio continental
                            operante



escrever sobre o amor
é como violentar um poema
no seu cerne
de crisálida
quase sem pele
ainda sem asas

e partir sem nada
                   mais a leste 
                         do que antes

porque escrever sobre você
me faz lembrar de coisas 
que eu não deveria lembrar
               escrever sobre você
        é sempre esse problema:
o choque de metalinguagens
                o urso, as patas,
o roteiro cinematográfico
desandado, o fogo, o sangue
                                  as asas.