quando saímos à noite
eu: um coelho selvagem
em cruzeiro atlântico
você: um surfista nativo
de uma cornualha rochosa
em suma em suma
~ não há habitat natural
possível para nosotros ~
*********
e tenho me perguntado
a respeito da memória
que restou dessa luz infeccionada
a emitir padrões na pista de dança
como algoritmos infinitos
de perversidade estroboscópica
-- pequenos eventos de led
a percorrer outros corpos absortos
em batidas binárias
e localizo no tempo enquanto
ensaiávamos alguns passos de dança
essa microvilosidade luminosa
de um único ponto
que insiste
em mirar o teu peito feito seta latejante
[ homicida -- eu tenho certeza ]
como quando
um primeiro objeto perfurante
acertou em cheio um alvo
e
viu
escorrer
um filete
crescente
de
sangue
eis que retornamos finalmente
ao largo fumegante
onde nunca
nunca mesmo
caiu nenhum floco de neve
saiba portanto
que eu dedico
esta grave infâmia :
a todos os cômodos
que falham em caber
dentro de uma casa
a todos os móveis
uranianos i n d i s c i p l i n a d o s
que se rebelam diante
da geometria incansável
de paredes
criando arestas
e ilhas de resistências
no assoalho
formando ângulos indivisíveis
e arcos e arcos e arcos
e ocupações inabitáveis
dentro de todo e qualquer
confortável seio doméstico
é preciso situar
o verdadeiro perigo
justo onde
ele parece autorizado
a provocar pequenos
acidentes por pouco
imperceptíveis
desastres calculados
na parte hidráulica
da cicatriz
para envelhecer o poema
onde ele quase margeia
a membrana
do tímpano
e a impenetrabilidade
da pedra
quinta-feira, 24 de março de 2016
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
"Blake"
não há diabo de centelha
que bruxuleie trêmula
nesta pequena órbita
de micropeixes
sombras ~
é o que temos
espalhado feito moluscos
que tingem
sua rota de fuga ao permitir-se
uma escolha inexata
de preto
porque o meu amor
tem a apreensão de um tigre
na antecipação do salto
meu amor
é feito de naufrágio
[ entre peito aberto
e âncoras excessivamente
precoces ]
o que há de se fazer se tenho
velas içadas nos pulmões
minivulcões eriçados nos dedos
como cavalos marinhos
sentidos
asas --- um destino
de cada
vez
sábado, 2 de janeiro de 2016
"diário do ano da cabra"
{caro centauro}
decidi ignorar
solenemente
o som de seus
cascos
soterrar
essa mulher
de mistérios
alagados
bárbaros
porque isso
NÃO É
um poema
porque o ano
da madeira
[suas lascas
goivas foices]
termina aqui
~lembre-se
de que isto
não é um poema~
é que
morrer
d e v a g a r i n h o
exige fleuma
delicadeza suprema
uma certa finesse
que não possuo
: não é
fácil
cair
em câmera lenta
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
"teresa/158a"
para aquele que tem mar no início, meio e fim
tenho te escutado
com considerável dificuldade,
como aos balbucios morninhos
que escapam de um gato
sobressaltado
durante um pesadelo
-- baby, por cierto, ¿sabes?
con qué infierno
sueñan los gatos?
não me resta outra opção
senão organizar meu tempo:
a) categorizando objetos;
b) esculpindo sisos extraídos;
o fato é que crio pontes de heras
para tuas frágeis elipses
e faço de mim tua vodca
em tempos de crise.
você, tez amadeirada
de contorno impreciso.
você, puro pêndulo
que eu sulco, inteiro
justo naquilo que se arrepende
a i n d a n o a r
inseguro
e densamente noctívago.
eu, a primeira lasca
-- goiva
de duas pontas
feito lança que arpoa
em cheio
mas
não
retorna.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
"nota sobre um inferno astral em quase dezembro" ou "prove que não sou um robô"
hoje falo por mim,
eu
[gargalhadas]
que suo gotas constrangidas
ao ouvir minha própria voz
ao telefone
como a de um estranho
falo por tudo aquilo que fala
por intermédio de um vermelho
terroso violento atroz
como em
modigliani, como no abstracionismo russo
que mata poetas
em linhas geométricas
e por todos
aqueles que golpeiam os telhados
como gatos revolucionários
por toda e qualquer
sensação existencial
[na fronteira anatômico-imaginária
entre boca do estômago e pulmões]
por todo sentimento filosófico-existencial
de terreno baldio
inviolável
selvagem como um poodle abandonado
no parque
como uma abelha rainha
presa por um barbante
inauguro hoje com a ponta dos pés
essa hospedagem ambígua
na casa número doze do zodíaco
onde é preciso prestar contas
à esfinge moderna
com senhas
de letras e números
e enigmas insolúveis
"prove que você não é um robô"
[ ] não sou um robô
prove
que
não
sou
um
robô
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
"dos vulcões em miniatura"
o poema está sempre na iminência
de uma parada perigosa
enganchando-se à maneira do amor
ao fazer eclodir na pele
aquilo que inflama
aceso
e que
com um estampido
logo
apaga-se
de uma parada perigosa
enganchando-se à maneira do amor
ao fazer eclodir na pele
aquilo que inflama
aceso
e que
com um estampido
logo
apaga-se
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
"notas sobre vida sem cata-rina"
eu chego em casa com a roupa de baixo amarrotada, um desalinho tão contundente e já tão meu, que só posso supor que vem de dentro, o figurino que se adere ao personagem indobrável, amorfo, eu.
a maquiagem de ontem disputando espaço facial com a maquiagem de anteontem. esses atavismos de delineador líquido e sombra verde água, uma sereia desaguada no meu rosto. algum rímel em sítios inapropriados. pele pegajosa, corpo lambido por um lagarto morno, climático. e o seu corpo, eu tenho ainda a impressão do tato que ele permitia à minha pele, a temperatura inapreensível, o corpo que não encontro mais nas garrafas, nem nos pratos, nem no balcão, sentado de pernas descuidadamente cruzadas, flertando com o barman, para o meu desespero.
eu me sento na cama chutando para atrás da cômoda os sapatos, ainda tonta dos quase dois litros de vodca, digerindo (mal) um kafta e uns tomates recheados no almoço (não me lembro mais da sua receita de arroz a piamontesa). tenho uma escultura capilar indicando a curva normal da umidade relativa do ar dos últimos dias e me lembro dos seus cabelos irrepreensíveis: a desordem mais perfeita de cachos no travesseiro e a primeira luz penetrando pela nesga da cortina para revelar a penugem alourada no contorno do teu rosto convulso adormecido, uma recessividade adorável que resistia nos teus genes, apesar da densa cabeleira escura, muito escura. sempre me perguntei o motivo de tua expressão tão tensa ao dormir, os demônios meridianos do teu sono. Me pergunto se a tua pequena cria também revolve os dedos dos pés até se acalmar, antes de fechar os olhos.
lembro com uma pequena fisgada de ressentimento do seu glamour embriagado, mesmo transpirando álcool por todos os poros, por dias a fio -- um metabolismo que nunca irei compreender -- você ainda parecia uma personagem trágica e incandescente no meu próprio filme e eu, um guaxinim com envelhecimento precoce.
você, o meu travesseiro para sempre intocado.
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'ca-ta-ri-na', cataruska, cata-lina, como eu faço para te avisar que a nossa casa (você pode nunca mais cruzar essa porta ou tocar, admirada, os azulejos hidráulicos que escolheu e me obrigou a comprar no cemitério dos azulejos na baixa da égua manca, a casa será sua, oncinha, sempre) tem sido palco de um estranho fenômeno. já tem meses que abelhas escolhem este apartamento para morrer. primeiro achei que fosse um evento qualquer, isolado. mas todos os dias surgem outras e mais algumas, entram pela janela da sala, pelo vão aberto da cozinha, deitam-se sobre o assoalho e morrem. no começo, eu catava seus corpos pequenos, listrados, e os punha numa caixinha sobre a mesa da sala, mas são tantas agora que as deixo como caem, no chão mesmo, como um mausoléu. E ando pelos cômodos, desviando destes corpúsculos, como num balé fúnebre que me lembra você.
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