terça-feira, 23 de maio de 2017
autorretrato com enxaqueca
esta acima sou eu nos meus 30ish anos
rosto sangrado, sem reboco, sem vigas
de sustentação, sem filtro, sem coar,
sem desembocar em nenhum afluente,
sem fazer as sobrancelhas, sem filtro solar,
sem graça, sem delineador, sem máscara
de frente para uma brecha de luz natural
porque isso
[a luz]
às vezes
é tanta coisa
o ascendente em libra resmunga"você é regida por vênus na quinta casa.
já não basta a aflição de saturno, miga?"
vai colocar a cara lavada assim,
os estilhaços, os mísseis à mostra?
e embora eu ouça de todos os oráculos
e da minha conta bancária
e do aquário com quem contraceno uns
diálogos:
'você é peixe pequeno, moça'
eu ando cada vez mais acostumada
com a ideia
[de ser peixe pequeno]
de que outra forma
eu penetraria
nestas ínfimas miserinhas
nesta banalidade microscópica
nesta profundeza de pedra abissal
domingo, 16 de abril de 2017
"a casa dos pequenos animais"
para suzana pessoa
você insiste
no clareamento forçado
dos meus cabelos
aparentemente lera um artigo
sobre uma técnica de suavização
de traços a partir da falsificação
de molduras capilares
e de alegrias insuspeitas
às quais sabe que sou alérgica
"é que o preto
enche o teu rosto
de sombras"
você decide ignorar que o preto
é na verdade uma pequena homenagem
que presto
ao corvo invisível
que segue pousado
no meu ombro
há uns bons anos
você pesquisa
sobre as 30.000 espécies
de escaravelhos
há horas você pesquisa sobre o egipto antigo
há dias você escuta a cacatua da vizinha
berrar como se estivesse assombrada
você jura ter sido
visitada por um escaravelho dourado
na noite anterior
mas tem dúvidas se o bicho era apenas
um besouro luminoso ou talvez uma barata
geneticamente modificada
o fato é que você não sabe o que fazer
e nós duas sabemos que isso é um perigo
você o isola dentro de um pote de ervilhas
esvaziado há tempos de seu conteúdo
mas segue acordada
a noite inteira
angustiada com seu escaravelho
preso dentro do pote vazio de ervilhas
debatendo-se
na cozinha
o corpo arrendondado
a emitir uma luz sobrenatural
você sabe que é bem possível
que isso seja um sinal
um indício ou uma distinção
uma nobreza inusitada
entre seus colegas artrópodes
menos aristocráticos
você teme
e retira o amor do poema
planeja uma corajosa operação de soltura
respira aliviada quando o bicho
compreende exatamente o que tem de fazer
e quando você o deixa livre
ele voa
voa com agilidade
para bem longe
sem olhar para trás
você se sente finalmente livre
para voltar a pensar nos cupins
que roem a estrutura da casa
do sofá e das portas e armários
a gata presta atenção aos ruídos
inaudíveis aos ouvidos humanos
os ruídos
de uma lenta demolição
você estremece e devolve o amor
de novo ao poema
sente agora uma certa liberdade para pensar
nas pequenas feras
no amor
na casa
na madeira nas paredes
nos ruídos inaudíveis
a todos
os ouvidos
salvo os da gata
cuja atenção se volta
para um murmúrio em particular
fora do seu alcance
sábado, 1 de abril de 2017
"o método doppelgänger"
neste dia há de descobrir
que dentro do teu tórax
habita uma granada fossilizada
com meu nome gravado
a letra que te fez fêmea
mistério veneno
e me privou de teu estatuto de bípede
para inaugurar uma ordem secreta
de concubinato
de circe sereia convite aberto
para colisões contatos
para denunciar enfim em ti
uma voz
capaz de hastear mortos
como bandeiras em riste
para desvendar o gesto feroz
o giro carpado
geometria incansável
da foda
do limite
das cordas
e ainda assim ser capaz de
arrancar furiosa o encanamento
da tua planta hidráulica
[tua superestimada liberdade]
ter na ponta da língua
uma sentença óssea capaz de perfurar a membrana
sustar a anestesia
revelar tua rota fundamental de fuga
sustentar aquilo que rui
mas faz costa
a parte de ti que é pavimento
e se curva em istmo
sintomática em seu mecanismo
de defesa contra a água
na convicção daquilo que se tinge
e ainda assim permanece seco
no que insiste na afirmação
de propriedade
do poema
"esse poema é meu"
mas eu sigo mesmo vagarosa
[na dúvida]
sigo na possibilidade de que
este poema não seja meu
que animal é este?
que dentro do teu tórax
habita uma granada fossilizada
com meu nome gravado
a letra que te fez fêmea
mistério veneno
e me privou de teu estatuto de bípede
para inaugurar uma ordem secreta
de concubinato
de circe sereia convite aberto
para colisões contatos
para denunciar enfim em ti
uma voz
capaz de hastear mortos
como bandeiras em riste
para desvendar o gesto feroz
o giro carpado
geometria incansável
da foda
do limite
das cordas
e ainda assim ser capaz de
arrancar furiosa o encanamento
da tua planta hidráulica
[tua superestimada liberdade]
ter na ponta da língua
uma sentença óssea capaz de perfurar a membrana
sustar a anestesia
revelar tua rota fundamental de fuga
sustentar aquilo que rui
mas faz costa
a parte de ti que é pavimento
e se curva em istmo
sintomática em seu mecanismo
de defesa contra a água
na convicção daquilo que se tinge
e ainda assim permanece seco
no que insiste na afirmação
de propriedade
do poema
"esse poema é meu"
mas eu sigo mesmo vagarosa
[na dúvida]
sigo na possibilidade de que
este poema não seja meu
que animal é este?
segunda-feira, 13 de março de 2017
"das ruínas preliminares" ou "dos papéis individuais no fim do mundo"
aquela sou eu esperando a catástrofe
com as mãos seraficamente pousadas
sobre o colo
a verdade é que só preciso
me agarrar violentamente
a um ponto fixo
na disco-voragem
deste sonho
e permanecer submersa
acontece que eu engulo tua indiscrição gulosa
descendo pelas minhas pernas
e devolvo delicadas ossadas
sob o signo da carnificina moderada
(uma forma de canibalismo contemporâneo?)
expostas em seu tutano todas as comissuras dos ossinhos
equilibrados sobre a porcelana
frágil do meu prato, porque uma coisa que acontece é que
o meu corpo
ele não se quebra
não quebra como se quebra um prato
ou um fêmur
não como se quebra uma linha
no fim de uma frase longa e deselegante
alinhada à esquerda
o que tenho a ser feito
pode até ser chamado de ofício
de linha e agulha
mas eu contenho hemorragias
é o que eu faço
-- deveria ter sido médica
mas me coube ser dique
: eu contenho hemorragias
com as mãos
todos os dias
-- um ofício que empresto
da pedra
para subjugar o rio
com as mãos seraficamente pousadas
sobre o colo
a verdade é que só preciso
me agarrar violentamente
a um ponto fixo
na disco-voragem
deste sonho
e permanecer submersa
acontece que eu engulo tua indiscrição gulosa
descendo pelas minhas pernas
e devolvo delicadas ossadas
sob o signo da carnificina moderada
(uma forma de canibalismo contemporâneo?)
expostas em seu tutano todas as comissuras dos ossinhos
equilibrados sobre a porcelana
frágil do meu prato, porque uma coisa que acontece é que
o meu corpo
ele não se quebra
não quebra como se quebra um prato
ou um fêmur
não como se quebra uma linha
no fim de uma frase longa e deselegante
alinhada à esquerda
o que tenho a ser feito
pode até ser chamado de ofício
de linha e agulha
mas eu contenho hemorragias
é o que eu faço
-- deveria ter sido médica
mas me coube ser dique
: eu contenho hemorragias
com as mãos
todos os dias
-- um ofício que empresto
da pedra
para subjugar o rio
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
"a hora da estrela"
para leonardo marona
esse é para você
morcego noctívago
que não reconhece nem teto nem parede
nem o próprio brilho
seguimos no nosso diadorim off-sertão
modernismo wannabe dos que vieram
diretamente da água
para matar a sede do rio
no fim prosaico da discussão de duas horas
sobre o copo quebrado ou o lixo vazando na cozinha
ou a panela de batata doce que cozinhou demais
você constata que, de nós dois, sim,
você é o mais romântico
e eu digo 'mas nós somos românticos de formas diferentes'
e você graceja 'é, de fato, eu sou da tradição
do romantismo inglês e alemão'
[sim, com tua solidão proporcionada pelo bosque
e a vastidão dos espaços naturais abertos,
você, oxóssi-caçador da bílis negra]
mas eu, no caso, segundo você, sou a tragédia!
você me diz, 'você é a própria grécia',
[cassandra, antígona e medeia
enfileiradas na cabeça da hidra, mais a fúria do olimpo
com raios de iansã e ingenuidade de macabea]
você diz que sou a origem de todo o romantismo, de todo o cinismo,
da neurose, perversão e da forclusão do nome-do-pai, da mãe [...]
e aí, cá para nós, você há de me responder então como faremos
para cumprir a nossa parte, nosso fair share
na tarefa hercúlea de soçobrar
o mito do amor romântico,
essa bitch, essa marca indisputável --
fardo-sísifo da nossa geração pós-yuppie
-- se somos nós, meu amor, o próprio mito
se nós somos o amor romântico
o perverso, a amor perdido
[encenado reencontrado]
-- o amor com a faca na mão
e a própria sede do rio.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
"eu, olga hepnarová"
é verão em praga
e o ano é 1973.
[você,
olga misantropová, com seu figurino de caminhoneira nouvelle vague, suas calças de veludo cotelê e a jaqueta de couro craquelada, você, anna karina psicopata, ainda que visionária, você ignora o óbvio
: o avesso do amor não é o ódio]
é verão em praga
mas faz ainda muito frio
e o avesso do amor é o coração terminando de bater de encontro ao asfalto, fraturas expostas, intestinos a migrar da cavidade abdominal como uma corda autônoma que sabe exatamente o destino que lhe é devido: o pescoço que espera a quebra
de parágrafo,
o cadafalso que espera
a quebra do pescoço
com a corda na mão.
[corta para] o caminhão de olga estacionado na calçada;
a fileira corpos estendidos como uma oferenda satânica, mas você não é satânica, olga, você é uma assassina em massa e isso é diferente. satânico é outra coisa. planejar um assassinato simples requer um engodo fundamental, um paralaxe e você
escolheu ignorar que o avesso do amor
não é o ódio.
é verão em praga
e faz frio;
o avesso do amor
se faz por meio de grandes colapsos,
colisões no concreto, no asfalto,
um embotamento brutalizado,
e você, olga hepnarová,
espera seraficamente
a polícia;
a bolsa no colo,
sentada em seu caminhão
você, a autora dessa carta perturbadora
para as gerações que virão:
"eu, olga hepnarová,
vítima de sua bestialidade,
condeno-os todos à morte."
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
"diário do ano do macaco de fogo"
You transform into a tiger before their eyes.
Your very being commands an awe that makes consulting the oracle unnecessary.
Hexagram Forty-Nine/Line Five: The revolution (I CHING)
se como celan
eu tivesse a certeza
de que os poemas estão a caminho
se ao menos eu não tivesse
fundado toda uma mulher
[uma mulher inteira
garganta glote ancas
sexo tornozelos]
apenas em torno
de uma palavra infeccionada
se eu não tivesse
as mãos gretadas
como uma figura mitológica
mal-sucedida
em suas peripécias amorosas
eu poderia sim acreditar
[como se a minha vida
dependesse disso de fato]
no efeito de luz
na voragem súbita
no obscurecimento
que se segue
e se repete
e se repete
nesse projeto desconjuntado
de revolução
mas é que eu vejo coisas
vejo coisas em ti e neles
constato o que há de cínico -- o símio
que mimetiza o desfecho ígneo
e não
eu não sei mesmo manusear o objeto isqueiro
não tenho habilidade
para os grandes gestos incendiários
estou aguardando
p a c i e n t e m e n t e
a grande água
como alguém que gesta
um filho querido
na cicatriz íntima
de seu próprio útero
mas se aterroriza diante
da perspectiva brutal
do nascimento
de um grito
"manual de exorcismo - nível intermediário"
me descreveram extensamente seus traços aristocráticos,
sua testa alta, os olhos límpidos azuis, sua tez de valquíria,
e soube que você cresceu em frente ao mar e que
fora uma criança recessiva numa família de possíveis alcoólatras,
mas que não hesitou em seguir ~abstêmia, é verdade ~ o mesmo caminho.
fui informada das suas tardes no clube, suas aulas de equitação e você sabe que
eu vivi pouco mais de um ano na sua casa e admito, portanto, que prestei homenagem
à deidade teutônica que você deixou em seu lugar quando foi embora,
levando às pressas na mala os livros de liberalismo econômico e as novelas de
Henry James, deixando um homem (é correto dizer o "nosso homem?") decomposto
em vários mosaicos, os quais eu, com minha lua em peixes, solucionei rápido demais.
há o preço a se pagar por isso.
há os filhotes de camundongo escondidos no assoalho,
mas há mesmo o mistério que é você, desaparecida [a mulher anterior]
sem vestígios,
sua beleza apolínea -- uma moça de carreira, concursada,
dourada e, esquecido sobre a mesa, o lubrificante vaginal,
seu sobrenome radiofônico na correspondência que
continuou chegando por meses,
você, meu demônio incidental particular,
seu sangue azul Chagal
manchando o sofá.
sua testa alta, os olhos límpidos azuis, sua tez de valquíria,
e soube que você cresceu em frente ao mar e que
fora uma criança recessiva numa família de possíveis alcoólatras,
mas que não hesitou em seguir ~abstêmia, é verdade ~ o mesmo caminho.
fui informada das suas tardes no clube, suas aulas de equitação e você sabe que
eu vivi pouco mais de um ano na sua casa e admito, portanto, que prestei homenagem
à deidade teutônica que você deixou em seu lugar quando foi embora,
levando às pressas na mala os livros de liberalismo econômico e as novelas de
Henry James, deixando um homem (é correto dizer o "nosso homem?") decomposto
em vários mosaicos, os quais eu, com minha lua em peixes, solucionei rápido demais.
há o preço a se pagar por isso.
há os filhotes de camundongo escondidos no assoalho,
mas há mesmo o mistério que é você, desaparecida [a mulher anterior]
sem vestígios,
sua beleza apolínea -- uma moça de carreira, concursada,
dourada e, esquecido sobre a mesa, o lubrificante vaginal,
seu sobrenome radiofônico na correspondência que
continuou chegando por meses,
você, meu demônio incidental particular,
seu sangue azul Chagal
manchando o sofá.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
"primavera autocrata politeísta apocalíptica"
deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
e não melancólicas
porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
anacrônicos
apenas os sanguinários
homicidas.
aqui nos movemos
na sombra
e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]
então desliguem
esse verão
antes que os olhos
se apaguem
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
e não melancólicas
porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
anacrônicos
apenas os sanguinários
homicidas.
aqui nos movemos
na sombra
e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]
então desliguem
esse verão
antes que os olhos
se apaguem
"um casamento romeno"
quando penso em você
eu me lembro
do som ininterrupto
de patas e correntes
resvalando sobre
a terra batida
do encantador
de ursos
empoleirado
com seu acordeão
longínquo se afastando
do vilarejo
para retornar no verão
seguinte com o mesmo urso
sempre o mesmo urso
a mesma intenção oculta
a fome do bicho
a dança notável do bicho
impressionante
o mesmo urso
me lembro de quando
anoitecia
e a avó ladrava
para eu sair logo da rua
e voltar
para perto
do fogo
pois aquela era
a hora
dos morcegos
dos mosquitos
das criaturinhas aladas
que voam suicidas
em direção à luz
eu me lembro claramente
do dia do nosso casamento
os sinos dobrando em dois
eu me dobrando em duas
de dor de desterro
o som dos pratos quebrados
as moedas voando sobre nós dois
os votos de boa fortunados anciões
em vão
our big fat romanian wedding
um matrimônio italiano à leste
de bucareste
nem a teoria do multiverso
explicaria nossa presença nesta
tragicomédia a la kusturica
mas escrever sobre o amor
é como fundar um país íntimo
deslocado à parte
de um domínio continental
operante
escrever sobre o amor
é como violentar um poema
no seu cerne
de crisálida
quase sem pele
ainda sem asas
e partir sem nada
mais a leste
do que antes
porque escrever sobre você
me faz lembrar de coisas
que eu não deveria lembrar
escrever sobre você
é sempre esse problema:
o choque de metalinguagens
o urso, as patas,
o roteiro cinematográfico
desandado, o fogo, o sangue
as asas.
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
"sobre o incidente de emagrecer 5kg e se tornar uma serpente mítica grega por alguns dias"
escrevo este poema
neste estado de cetose
química
que nada mais é do que
o termo médico
para quando o corpo
resolve devorar a si próprio
[como a serpente ouroboros
que engole a própria cauda
infinitamente non stop]
depois de um período de privação
de carboidratos
simples
ou complexos
[ou depressão anoréxica]
ou simplesmente
um jejum prolongado
aqui
entre estas doze paredes
e suas incontáveis quinas
arestas ângulos agudos
o b t u s o s
[eu contei todos esses dias]
não há amor
não há sombra
nem carboidratos
é a porra da terra devastada
do eliot
só há esta luz que penetra
tornando tudo nítido demais
as cores primárias demais
essa saturação insuportável
onde estão os fifty shades de
qualquer maldita cor que seja?
quem diria que a sutileza
se perdia
junto com os carboidratos?
'um nevoeiro mental' o médico disse
'é um dos sintomas
você vai ver'
significa que está funcionando
e em breve
esse peso também irá embora
[mas não]
eu vejo mesmo todos os contornos
não há nada difuso aqui
nem nevoeiro nem sombra
eu vejo todos os contornos
excessivamente
quero rasurá-los
mas eles se recompõem
quando eu não estou olhando
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
"devagar"
troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema
por outro
a pele
por outra
flor
escrita nas imediações
das catástrofes naturais
"paisagem com mulher ao fundo"
não ouso mesmo te revelar
do desejo insincero de ser outra:
pele e vísceras singradas,
sopro, soluço
- uma outra.
não sei mais o que esperar
do risco
e eu queria mesmo voltar a ser aquela
que sabe usar o silêncio como uma adaga
de cinco pontas e 22 cartas de baralho --
a mesma que você embebedou tantas e tantas vezes
com o consentimento das pessoas perigosamente enamoradas,
de pernas cruzadas, unhas precocemente descascadas,
cabelos em desalinho, bochechas rosadas,
essa outra.
porque, percebe, em torno de mim tudo sempre gritou 'provinciano'
em neon, piscando, mesmo que eu soubesse ser elegante
como uma concumbina chinesa com ascendente em imperatriz-to-be
embora eu ainda saiba usar de sofisticação a meu favor como se usa
uma nuvem de perfume caro com a naturalidade letal
que neutraliza os sapatos gastos comprados a prazo
mas não esconde uma vergonha íntima tão antiga
que já não se encontra nem a matriz
e tampouco o fim
e o que você chama de paisagem, meu amor
eu chamo mesmo de uma bela cicatriz
causada por outros e inúmeros impactos.
do desejo insincero de ser outra:
pele e vísceras singradas,
sopro, soluço
- uma outra.
não sei mais o que esperar
do risco
e eu queria mesmo voltar a ser aquela
que sabe usar o silêncio como uma adaga
de cinco pontas e 22 cartas de baralho --
a mesma que você embebedou tantas e tantas vezes
com o consentimento das pessoas perigosamente enamoradas,
de pernas cruzadas, unhas precocemente descascadas,
cabelos em desalinho, bochechas rosadas,
essa outra.
porque, percebe, em torno de mim tudo sempre gritou 'provinciano'
em neon, piscando, mesmo que eu soubesse ser elegante
como uma concumbina chinesa com ascendente em imperatriz-to-be
embora eu ainda saiba usar de sofisticação a meu favor como se usa
uma nuvem de perfume caro com a naturalidade letal
que neutraliza os sapatos gastos comprados a prazo
mas não esconde uma vergonha íntima tão antiga
que já não se encontra nem a matriz
e tampouco o fim
e o que você chama de paisagem, meu amor
eu chamo mesmo de uma bela cicatriz
causada por outros e inúmeros impactos.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
"a morte de katherine mansfield"
ana c. está farta:
da materialidade embrullhada do signo
da metalinguagem narcísica dos poetas
do texto de espelho em punho
revirando os óculos modernos
[ana, quero também
a página
apinhada de abajures
a legião antidiluviana
invadindo
pelas margens
mas sem
ocupar efetivamente
o coração
do texto]
mas ana c. deseja
sobretudo
esse enamoramento
letal
por
abismos
anacrônicos
e seu erro planejado de cálculo:
ancoragem ancorar ancorar
ancorar um navio no meio-fio
[o navio encalacrado no espaço]
****************
ou uma sequência interrupta
de naufrágios?
mas há que se considerar
a pausa perigosa
nos pulmões
a pausa perigosa nos pulmões
de katherine m.
como é possível, ana
traduzir bliss
se o estado de graça
há de desembocar
sempre
numa pausa?
tu trocas
a beleza desmedida
da 33a poética
[o desejo secreto
do poema]
pela serenidade
de quartzo
como têm
as saudáveis mulheres campestres
de mansfield com seus rostos lunares
seus braços fortes
o busto substancial
seus rebanhos de ovelha
[as mulheres de mansfield
prontas para a colheita]
as mulheres de mansfield
e a pausa perigosa
nos pulmões
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